{"id":170,"date":"2008-07-13T09:52:00","date_gmt":"2008-07-13T12:52:00","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/cretinas\/2008\/07\/hostia-roubada-e-obscurantismo-medieval\/"},"modified":"2008-07-13T09:52:00","modified_gmt":"2008-07-13T12:52:00","slug":"hostia-roubada-e-obscurantismo-medieval","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cretinas\/2008\/07\/13\/hostia-roubada-e-obscurantismo-medieval\/","title":{"rendered":"H\u00f3stia roubada e obscurantismo medieval"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/bp1.blogger.com\/_pr0Ge5NxS-Y\/SHn4NSd5vhI\/AAAAAAAAAFM\/eRrUR3rCO_k\/s1600-h\/communion_wafer.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-0\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cretinas\/wp-content\/uploads\/sites\/203\/2011\/08\/communion_wafer1.jpg\" border=\"0\" alt=\"\" \/><\/a><\/p>\n<div>Acho que todo mundo (ou, ao menos, todo mundo que tem alguma afinidade por este blog) j\u00e1 conhece a hilariante hist\u00f3ria da <a href=\"http:\/\/www.wftv.com\/news\/16798008\/detail.html\">h\u00f3stia seq\u00fcestrada <\/a>por um estudante americano na Fl\u00f3rida e suas repercuss\u00f5es &#8212; por exemplo, a campanha desencaedada por grupos cat\u00f3licos contra um professor de biologia que teve o displante de comentar o caso dizendo que <a href=\"http:\/\/www.startribune.com\/local\/24313139.html?location_refer=Most%20Emailed:Faith%20+%20Values\">&#8220;isso n\u00e3o passa de um maldito biscoito!&#8221;<\/a>.<\/div>\n<p>(N\u00e3o est\u00e1 claro se os cat\u00f3licos se opuseram mais ao uso da palavra &#8220;<em>maldito&#8221;<\/em> ou a &#8220;<em>biscoito&#8221;<\/em>)<br \/>\nMas o ponto para o qual eu gostaria de chamar aten\u00e7\u00e3o \u00e9 o verdadeiro estupro da l\u00f3gica e do bom senso presente na doutrina cat\u00f3lica da <em><a href=\"http:\/\/home.newadvent.org\/cathen\/05573a.htm#section3\">transubstancia\u00e7\u00e3o<\/a><\/em>, segundo a qual cada h\u00f3stia consagrada \u00e9, de fato, o corpo de Jesus Cristo. Veja bem: n\u00e3o \u00e9 que a h\u00f3stia simboliza ou representa Cristo. <em>Ela \u00e9, na verdade, um peda\u00e7o de carne humana, que s\u00f3 parece ser um peda\u00e7o de p\u00e3o.<\/em><br \/>\n<em><\/em><br \/>\nEssa doutrina \u00e9, talvez, o exemplo mais claro de como a teologia \u00e9 capaz de manipular palavras e distorcer significados at\u00e9 reduzir tudo a um amontoado de sons e marcas no papel que, embora tenham um sentido familiar, na verdade expressam conceitos totalmente diversos dos esperados. \u00c9 o equivalente l\u00f3gico de insistir que um saco de a\u00e7\u00facar cheio de pimenta na verdade cont\u00e9m a\u00e7\u00facar porque, afinal, \u00e9 um <em>saco de a\u00e7\u00facar<\/em>.<br \/>\nNo caso da transubstancia\u00e7\u00e3o, essa vers\u00e3o medievla da <a href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Newspeak\">novil\u00edngua orwelliana <\/a>se vale da velha distin\u00e7\u00e3o aristot\u00e9lica entre &#8220;acidente&#8221; e &#8220;subst\u00e2ncia&#8221;. Em linhas gerais, trata-se de uma distin\u00e7\u00e3o que faz sentido: madeira \u00e9 madeira (subst\u00e2ncia) mas pode ser usada para fazer portas, cadeiras, carro\u00e7as (acidentes). Assim, subst\u00e2ncia <em>\u00e9 o que a coisa \u00e9<\/em>; acidente \u00e9 a <em>forma que ela assume<\/em>.<br \/>\nAqui tamb\u00e9m \u00e9 interessante notar a distin\u00e7\u00e3o plat\u00f4nica entre <em>ess\u00eancia<\/em> e <em>apar\u00eancia<\/em>: uma cadeira, por exemplo, \u00e9 essencialmente uma superf\u00edcie para sentar, com apoio para as costas (sem o apoio, seria um banquinho). As diversas cadeiras poss\u00edveis, com seus v\u00e1rios materiais, cores, estofados, n\u00famero de pernas, formatos, etc., partilham da mesma <em>ess\u00eancia<\/em>, digamos, <em>cadeiral, <\/em>mas divergem em<em> apar\u00eancia<\/em>.<br \/>\nNo caso da h\u00f3stia, o dogma cat\u00f3lico diz que, embora mantenha todos os acidentes e apar\u00eancias de um, para citar o professor americano, &#8220;maldito biscoito&#8221;, uma vez consagrada ela passa a ter a subst\u00e2ncia e a ess\u00eancia do corpo de Jesus Cristo.<br \/>\nAgora, pense um pouco no que isso significa: que todas as caracter\u00edsticas do biscoito &#8212; cor, cheiro, sabor, massa, descendo at\u00e9 a estrutura molecular &#8212; n\u00e3o passam de meros detalhes, <em>acidentes<\/em>, <em>apar\u00eancias<\/em>. Se levarmos a transubstancia\u00e7\u00e3o a s\u00e9rio, teremos de concluir que o conjunto total das propriedades mensur\u00e1veis de um objeto, ou de um ato, n\u00e3o nos permite dizer o que ele de fato \u00e9.<br \/>\nAssim, eu poderia olhar para um cachorro e dizer que ele \u00e9, em ess\u00eancia, um transatl\u00e2ntico. Ou cometer um homicio e dizer que, em ess\u00eancia, fiz um arranjo floral. Ou corromper o Congresso Nacional e dizer que a subst\u00e2ncia do que fiz foi impor a \u00e9tica na pol\u00edtica.<\/p>\n<div>E o Bento XVI reclama do relativismo dos tempos modernos. O que ele n\u00e3o quer, acho, \u00e9 concorr\u00eancia&#8230;<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Acho que todo mundo (ou, ao menos, todo mundo que tem alguma afinidade por este blog) j\u00e1 conhece a hilariante hist\u00f3ria da h\u00f3stia seq\u00fcestrada por um estudante americano na Fl\u00f3rida e suas repercuss\u00f5es &#8212; por exemplo, a campanha desencaedada por grupos cat\u00f3licos contra um professor de biologia que teve o displante de comentar o caso [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":545,"featured_media":171,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":[],"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[],"class_list":["post-170","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-geral"],"jetpack_featured_media_url":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cretinas\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/170","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cretinas\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cretinas\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cretinas\/wp-json\/wp\/v2\/users\/545"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cretinas\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=170"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cretinas\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/170\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cretinas\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=170"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cretinas\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=170"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cretinas\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=170"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}