{"id":230,"date":"2008-10-06T11:31:34","date_gmt":"2008-10-06T14:31:34","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/cretinas\/2008\/10\/e-possivel-concluir-qualquer-coisa-1\/"},"modified":"2008-10-06T11:31:34","modified_gmt":"2008-10-06T14:31:34","slug":"e-possivel-concluir-qualquer-coisa-1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cretinas\/2008\/10\/06\/e-possivel-concluir-qualquer-coisa-1\/","title":{"rendered":"\u00c9 poss\u00edvel concluir qualquer coisa&#8230; (1)"},"content":{"rendered":"<p>Neste dia de ressaca c\u00edvica &#8212; e, para as cidades onde haver\u00e1 segundo turno, de expectativa eleitoral &#8212; \u00e9 interessante lembrar um princ\u00edpio da l\u00f3gica que parece contra-intuitivo, mas que \u00e9 de muita valia para a ret\u00f3rica partid\u00e1ria:<br \/>\n<em><strong>A partir de uma premissa falsa ou de uma contradi\u00e7\u00e3o, pode-se concluir qualquer coisa.<\/strong><\/em><br \/>\nQuando o professor Luiz Barco contou essa l\u00e1 no meu velho semestre de l\u00f3gica da USP, fiquei meio encasquetado&#8230; E o curso do professor Barco era curto, ent\u00e3o n\u00e3o deu para ir a fundo. Anos depois, no entanto, descobri o mecanismo por tr\u00e1s das duas partes dessa afirma\u00e7\u00e3o.\u00a0<br \/>\nA <em>premissa falsa<\/em>\u00a0funciona por conta da implica\u00e7\u00e3o material, que \u00e9 s\u00f3 um nome chique para a seguinte estrutura de pensamento: &#8220;se isso, ent\u00e3o aquilo&#8221;, ou &#8220;haver isso \u00e9 suficiente para que haja aquilo&#8221;, ou &#8220;Se A, ent\u00e3o B&#8221;. Se voc\u00ea parar para pensar com calma no assunto, vai ver que s\u00f3 h\u00e1 um caso em que \u00e9 poss\u00edvel <em>garantir<\/em> que uma implica\u00e7\u00e3o \u00e9 falsa:<br \/>\n<strong>Quando A ocorre, mas B, n\u00e3o<\/strong>. Note que <em>a falsidade da implica\u00e7\u00e3o depende da veracidade do termo A<\/em>. Se eu digo que tomar manga com leite mata, mas uma pessoa toma manga com leite (tornando verdadeiro o termo A) e n\u00e3o morre (tornando falso B), minha implica\u00e7\u00e3o est\u00e1 provada falsa.\u00a0<br \/>\nSe &#8220;A&#8221; for falso, a implica\u00e7\u00e3o torna-se, do ponto de vista da l\u00f3gica formal, verdadeira por &#8220;default&#8221;.<br \/>\nIsso provavelmente soou estranho. Claro que l\u00f3gica formal n\u00e3o \u00e9 o discurso do dia-a-dia, e ningu\u00e9m vai engolir implica\u00e7\u00f5es como a\u00a0(formalmente verdadeira, porque ambos os termos s\u00e3o falsos) &#8220;Se Einstein era uma drag queen, a Terra \u00e9 quadrada&#8221; ou (tamb\u00e9m formalmente verdadeira, porque tem os dois termos verdadeiros) &#8220;Se Paulo Maulf descende de libaneses, a velocidade da luz \u00e9 constante no v\u00e1cuo&#8221;) como &#8220;verdadeiras&#8221; no sentido usual.<br \/>\nMas o fato, importante para fins ret\u00f3ricos, \u00e9 que implica\u00e7\u00f5es com premissas falsas s\u00e3o virtualmente indecid\u00edveis, porque \u00e9 perfeitamente poss\u00edvel ter B sem A (&#8220;se chover a rua estar\u00e1 molhada&#8221; &#8212; mas a rua pode molhar-se mesmo se n\u00e3o chover; por exemplo, algu\u00e9m pode ter lavado a cal\u00e7ada); e \u00e9 poss\u00edvel n\u00e3o ter A e nem B, e ainda assim a implica\u00e7\u00e3o soar razo\u00e1vel\u00a0(&#8220;se chover a rua estar\u00e1 molhada&#8221;: n\u00e3o choveu, a rua est\u00e1 seca, pronto).<br \/>\nResumindo: no discurso informal, uma premissa falsa abre espa\u00e7o para tergiversa\u00e7\u00f5es potencialmente intermin\u00e1veis.<br \/>\nO exemplo cl\u00e1ssico do dano causado pela premissa falsa \u00e9 o famoso &#8220;Se 2+2=5, ent\u00e3o eu sou o papa&#8221;.<br \/>\nSuponhamos que 2+2=5; manipulando a equa\u00e7\u00e3o, chegamos a 2=3, ou que equivale a 1+1=3.\u00a0\u00a0Subraindo 1 de cada lado, temos 2=1. Eu e o papa somos dois, portanto somos um. Logo, eu sou o papa.<br \/>\nE essa postagem j\u00e1 ficou um pouco longa demais, ent\u00e3o eu guardo a contradi\u00e7\u00e3o para outro dia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Neste dia de ressaca c\u00edvica &#8212; e, para as cidades onde haver\u00e1 segundo turno, de expectativa eleitoral &#8212; \u00e9 interessante lembrar um princ\u00edpio da l\u00f3gica que parece contra-intuitivo, mas que \u00e9 de muita valia para a ret\u00f3rica partid\u00e1ria: A partir de uma premissa falsa ou de uma contradi\u00e7\u00e3o, pode-se concluir qualquer coisa. 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