{"id":237,"date":"2008-10-15T10:52:35","date_gmt":"2008-10-15T13:52:35","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/cretinas\/2008\/10\/provas-de-inexistencia\/"},"modified":"2008-10-15T10:52:35","modified_gmt":"2008-10-15T13:52:35","slug":"provas-de-inexistencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cretinas\/2008\/10\/15\/provas-de-inexistencia\/","title":{"rendered":"Provas de inexist\u00eancia"},"content":{"rendered":"<p>Quando uma pessoa atinge um certo grau de sofistica\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica, ela se convence de que \u00e9 imposs\u00edvel provar que alguma coisa n\u00e3o existe. Quando essa sofistica\u00e7\u00e3o aumenta um pouco mais, ela se convence de que estava errada.<br \/>\nEm primeiro lugar, porque a pr\u00f3pria senten\u00e7a &#8220;\u00e9 imposs\u00edvel provar que alguma coisa n\u00e3o existe&#8221; \u00e9 uma afirma\u00e7\u00e3o de inexist\u00eancia &#8212; no caso, de que n\u00e3o existe prova de que alguma coisa n\u00e3o existe. E, se n\u00e3o existe prova, em que essa afirma\u00e7\u00e3o se baseia?<br \/>\nEm segundo lugar, porque toda afirma\u00e7\u00e3o \u00e9 a nega\u00e7\u00e3o de uma nega\u00e7\u00e3o: afirmar que a atmosfera atual do planeta Terra cont\u00e9m oxig\u00eanio \u00e9 o mesmo que dizer que n\u00e3o existe algo que (a) seja atmosfera atual do planeta Terra e que (b) n\u00e3o contenha oxig\u00eanio.<br \/>\nEm terceiro, provas de inexist\u00eancia abundam: na postagem anterior, mostrei uma prova de que n\u00e3o existe um n\u00famero racional que seja a raiz quadrada de 2; tamb\u00e9m h\u00e1 provas de que n\u00e3o existe um m\u00e9todo para dividir um \u00e2ngulo em tr\u00eas partes iguais usando apenas uma r\u00e9gua n\u00e3o-graduada e compasso; de que n\u00e3o existe uma f\u00f3rmula gen\u00e9rica para resolver equa\u00e7\u00f5es de grau cinco (ou maior) e, claro, a prova do \u00daltimo Teorema de Fermat demonstra que \u00e9 imposs\u00edvel encontrar um valor de &#8220;x&#8221;, maior que 2, que satisfa\u00e7a a equa\u00e7\u00e3o a<sup>x<\/sup>+b<sup>x<\/sup>=c<sup>x<\/sup> .<br \/>\nTodos os exemplos que citei acima v\u00eam da l\u00f3gica e da matem\u00e1tica, as chamadas ci\u00eancias <em>dedutivas<\/em> &#8212; que progridem atrav\u00e9s da manipula\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica de s\u00edmbolos e defini\u00e7\u00f5es.\u00a0Algu\u00e9m poderia argumentar que a impossibilidade de se provar inexist\u00eancias se aplica, na verdade, \u00e0s ci\u00eancias <em>indutivas<\/em>, as que progridem a partir da observa\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica da natureza.\u00a0<br \/>\nMas \u00e9 importante notar que, ao mesmo tempo em que esse argumento invoca uma distin\u00e7\u00e3o entre dois dom\u00ednios da ci\u00eancia, ele tenta impor um conceito particular de <em>prova<\/em>\u00a0&#8212; o dedutivo &#8212; ao dom\u00ednio indutivo.<br \/>\nBolas, se h\u00e1 h\u00e1 tipos diferentes de <em>ci\u00eancia<\/em>, ent\u00e3o h\u00e1 que se aceitar que existem tamb\u00e9m tipos diferentes de <em>prova<\/em>. A id\u00e9ia de que s\u00f3 as provas dedutivas s\u00e3o v\u00e1lidas \u00e9 um preconceito, possivelmente vindo da filosofia &#8212; j\u00e1 que o exerc\u00edcio filos\u00f3fico \u00e9 principalmente dedutivo.<br \/>\nPode-se argumentar que uma prova indutiva oferece <em>menos certeza<\/em> que uma dedutiva; mas a indu\u00e7\u00e3o ainda assim \u00e9 capaz de gerar prova <em>al\u00e9m da d\u00favida razo\u00e1vel.<\/em>\u00a0Por exemplo, as leis da f\u00edsica provam, al\u00e9m de qualquer tipo de d\u00favida razo\u00e1vel, que o Sol n\u00e3o explodir\u00e1 amanh\u00e3. Minha experi\u00eancia pessola demonstra, al\u00e9m de qalquer d\u00favida razo\u00e1vel, que n\u00e3o serei devorado pelo Grande Crocodilo do Nilo esta noite.<br \/>\nAl\u00e9m disso, as leis da probabilidade mostram que \u00e9 poss\u00edvel acumular um volume de observa\u00e7\u00f5es grande o suficiente para gerar qualquer grau de certeza que se queira, ainda que abaixo de 100%.\u00a0<br \/>\nProvas al\u00e9m da d\u00favida razo\u00e1vel podem se mostrar erradas? Sim. Mas elas s\u00e3o boas o suficiente &#8212; t\u00eam de ser &#8212; para guiar as decis\u00f5es humanas. A alternativa \u00e9 um estado permanente de paralisia e indecis\u00e3o, um agnosticismo universal e intoler\u00e1vel.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando uma pessoa atinge um certo grau de sofistica\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica, ela se convence de que \u00e9 imposs\u00edvel provar que alguma coisa n\u00e3o existe. 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