{"id":239,"date":"2008-10-20T09:32:47","date_gmt":"2008-10-20T12:32:47","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/cretinas\/2008\/10\/quem-tem-medo-da-eugenia\/"},"modified":"2008-10-20T09:32:47","modified_gmt":"2008-10-20T12:32:47","slug":"quem-tem-medo-da-eugenia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cretinas\/2008\/10\/20\/quem-tem-medo-da-eugenia\/","title":{"rendered":"Quem tem medo da eugenia?"},"content":{"rendered":"<p>\u00d3quei, a palavra carrega uma carga ideol\u00f3gica terr\u00edvel. A id\u00e9ia de controlar conscientemente as caracter\u00edsticas de uma gera\u00e7\u00e3o futura de seres humanos, sempe que aplicada em larga escala, foi usada em nome de pol\u00edticas autorit\u00e1rias e preconceituosas.\u00a0<br \/>\nMas essa forma &#8212; autorit\u00e1ria e preconceituosa &#8212; \u00e9 a <em>\u00fanica<\/em> forma em que o conceito pode ser usado? Autoritarismo e preconceito s\u00e3o caracter\u00edsticas <em>essenciais <\/em>da eugenia, ou se ligaram a ela por mero acidente hist\u00f3rico?<br \/>\n\u00a0Eu diria que \u00e9 perfeitamente poss\u00edvel separar uma coisa da outra. Por exemplo: muitas pr\u00e1ticas adotadas de forma corriqueira por gestantes mais bem informadas, como evitar tabaco e \u00e1lcool ou usar suplementos de \u00e1cido f\u00f3lico, podem muito bem ser consideradas &#8220;eug\u00eanicas&#8221; (e s\u00f3 n\u00e3o s\u00e3o chamadas assim, suponho, para evitar a associa\u00e7\u00e3o com a eugenia autorit\u00e1ria de triste mem\u00f3ria).<br \/>\nQual seria a diferen\u00e7a &#8212; al\u00e9m da de grau &#8212; entre o cuidado informado da m\u00e3e durante a gesta\u00e7\u00e3o e o cuidado informado dos pais na composi\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica do embri\u00e3o?<br \/>\nHoje em dia, a medicina j\u00e1 d\u00e1 aos pais algum controle sobre a vida intra-uterina do filho.<br \/>\nOs mesmos pais, ali\u00e1s, que sempre tiveram amplo controle sobre a vida extra-uterina: escolhem qual ser\u00e1 a religi\u00e3o da crian\u00e7a, em que escola vai estudar, quais pratos vai comer. Al\u00e9m disso, sempre coube aos pais escolher que genes ela ter\u00e1: optar por um parceiro para gerar um filho \u00e9 um c\u00e1lculo eug\u00eanico, ainda que relizado, de forma inconsciente, por horm\u00f4nios e codificado em regras sociais.<br \/>\n\u00a0\u00a0Ent\u00e3o, o que h\u00e1 de errado com o passo al\u00e9m &#8212; permitir aos pais que escolham n\u00e3o s\u00f3 o &#8220;pool&#8221; gen\u00e9tico gen\u00e9rico da onde a crian\u00e7a sair\u00e1 (que \u00e9, afinal, o genoma somado dos c\u00f4njuges) mas que selecionem genes espec\u00edficos?<br \/>\nAcho que existem tr\u00eas temores envolvidos a\u00ed: o primeiro \u00e9 uma forma de determinismo gen\u00e9tico, o medo de que, se for poss\u00edvel escolher cada gene, ser\u00e1 poss\u00edvel fabricar zumbis, criar crian\u00e7as que n\u00e3o ser\u00e3o mais que reflexos despersonalizados das expectativas dos pais. Mas me parece que a intera\u00e7\u00e3o entre gene e ambiente \u00e9 um pouco complexa de mais para permitir isso.<br \/>\nO segundo \u00e9 o temor da mercantiliza\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a: ela deixaria de ser vista como um novo ser humano e pasaria a ser encarada como uma mercadoria, encomendada, fabricada e paga. MInhas d\u00favidas nesse caso s\u00e3o (a) ser\u00e1 que j\u00e1 n\u00e3o chegamos de fato a esse ponto, mesmo <em>sem<\/em> eugenia? e (b) se essa vis\u00e3o mercantil se traduz em algo ruim para a crian\u00e7a: beb\u00eas\u00a0desejados s\u00e3o recebidos com amor, n\u00e3o importa a matriz ideol\u00f3gica que presidiu sua concep\u00e7\u00e3o.<br \/>\nO terceiro, claro, \u00e9 o medo de &#8220;brincar de Deus&#8221;. Se as pessoas come\u00e7arem a ter os filhos que <em>desejam<\/em>, e n\u00e3o os filhos que <em>Deus manda<\/em>, isso n\u00e3o ser\u00e1 um pecado horr\u00edvel?<br \/>\n\u00c9 dessa terceira obje\u00e7\u00e3o que surge, a meu ver, o mais forte argumento a favor de uma vers\u00e3o individualizada, n\u00e3o-preconceituosa e n\u00e3o-autorit\u00e1ria (mas talvez mercantil) eugenia: na senten\u00e7a acima, &#8220;Deus&#8221; pode muito bem ser substitu\u00eddo por &#8220;acaso&#8221;. No fim, ou a concep\u00e7\u00e3o de um novo ser humano est\u00e1 sob o controle de algu\u00e9m, ou est\u00e1 ao sabor do acaso. Se esse &#8220;algu\u00e9m&#8221; forem os pais &#8212; e n\u00e3o o Estado ou o Dr. Mengele &#8212; como isso pode ser <em>pior<\/em> que o acaso?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00d3quei, a palavra carrega uma carga ideol\u00f3gica terr\u00edvel. 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