{"id":261,"date":"2008-11-19T08:16:16","date_gmt":"2008-11-19T11:16:16","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/cretinas\/2008\/11\/cartesianos-do-mundo-uni-vos\/"},"modified":"2008-11-19T08:16:16","modified_gmt":"2008-11-19T11:16:16","slug":"cartesianos-do-mundo-uni-vos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cretinas\/2008\/11\/19\/cartesianos-do-mundo-uni-vos\/","title":{"rendered":"Cartesianos do mundo, uni-vos!"},"content":{"rendered":"<p>N\u00e3o sei se \u00e9 trauma da minha forma\u00e7\u00e3o acad\u00eamica &#8212; em Comunica\u00e7\u00e3o Social, no in\u00edcio dos anos 90 &#8212; mas hoje me dia toda vez que ou\u00e7o a palavra &#8220;paradigma&#8221;, tenho uma rea\u00e7\u00e3o semelhante \u00e0 atribu\u00edda a Hermann G\u00f6ring quando o marechal nazista ouvia &#8220;cultura&#8221;. Com a desvantagem de que n\u00e3o ando armado.\u00a0<br \/>\nAquela foi uma \u00e9poca onde o legal era grokar (com o perd\u00e3o do nerdismo) coisas como &#8220;<a href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Holistic\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">holismo<\/a>&#8220;, &#8220;<a href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Systems_theory\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">teoria geral dos sistemas<\/a>&#8221; e o trabalho de <a href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Thomas_Kuhn\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Thomas Kuhn<\/a> sobre revolu\u00e7\u00f5es cient\u00edficas, tudo isso nas vers\u00f5es devidamente infladas e distorcidas de gente como <a href=\"http:\/\/www.fritjofcapra.net\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Fritjof Kapra<\/a> e piores e visto, claro, pela lente estreita do marxismo ing\u00eanuo da academia, \u00a0onde ter senso cr\u00edtico era, basicamente, n\u00e3o criticar o professor mas falar mal de todo o resto.<br \/>\nEu me lembro de ter achado isso tudo muito estranho &#8212; certa vez, durante um <em>rant<\/em>\u00a0de uma professora marxista-freudiana (devia ser astr\u00f3loga tamb\u00e9m, acho) sobre como a ci\u00eancia \u00e9 um discurso de reafirma\u00e7\u00e3o do patriarcado opressor burgu\u00eas, perguntei-me qual seria o subtexto opressor, machista e pequeno-burgu\u00eas da <a href=\"\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Bhaskara\" target=\"_self\" rel=\"noopener noreferrer\">f\u00f3mula de Bhaskara<\/a>. Talvez o &#8220;sobre 2a&#8221; insinue uma <em>men\u00e0ge<\/em> onde duas mulheres t\u00eam papel subalterno?<br \/>\nEnfim&#8230; Naquela \u00e9poca, a pior ofensa que se podia fazer a algu\u00e9m &#8212; pior que &#8220;feio&#8221;, &#8220;bobo&#8221; ou &#8220;malufista&#8221; &#8212; era &#8220;cartesiano&#8221;.\u00a0<br \/>\nJuro que demorei a entender direito o que estava dando a\u00a0<a href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Ren\u00e9_Descartes\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Descartes<\/a> essa m\u00e1 reputa\u00e7\u00e3o. Digo, ningu\u00e9m l\u00e1 estava falando mal dos argumentos sofr\u00edveis que ele ofereceu para demonstrar a exist\u00eancia de deus; nem do dualismo radical mente-corpo que ele defendeu e que desencaminhou a psicologia por s\u00e9culos; nem mesmo de sua teoria dos v\u00f3rtices, uma tentativa mal-sucedida de explicar a for\u00e7a da gravidade.<br \/>\nSer\u00e1 que o pessoal de Humanas era t\u00e3o ruim em matem\u00e1tica que detestava a Geometria Anal\u00edtica?<br \/>\nN\u00e3o: o problema com Descartes era o <em>M\u00e9todo<\/em>. O fil\u00f3sofo franc\u00eas havia proposto um m\u00e9todo para resolver problemas complicados que, em resumo, era o seguinte: divida-o em problemas mais simples; resolva cada problema simples separadamente; fa\u00e7a uma revis\u00e3o para ver se n\u00e3o deixou escapar nada; junte as solu\u00e7\u00f5es simples.<br \/>\nA id\u00e9ia anticartesiana, nesse sentido, era a de que campos como a ecologia, a fisiologia e a administra\u00e7\u00e3o de empresas (ou pa\u00edses) vinham demonstrando que existem problemas que n\u00e3o podem ser subdivididos dessa forma. Que era preciso haver uma abordagem totalizante &#8212; &#8220;sistem\u00e1tica&#8221; ou &#8220;hol\u00edstica&#8221;.<br \/>\nEssa cr\u00edtica at\u00e9 que faz sentido mas, como tudo que desperta entusiasmo, pode ser levada longe demais: porque, mesmo em abordagens hol\u00edsticas, n\u00e3o h\u00e1 como escapar, de vez, do m\u00e9todo cartesiano: a pr\u00f3pria defini\u00e7\u00e3o do que \u00e9 um problema representa um recorte da realidade. Voc\u00ea est\u00e1 dividindo o universo, que \u00e9 El Gran Problem\u00f3n, em problemas menores e resolvendo-os, um de cada vez: uma coisa \u00e9 a estrutura interna do Sol; outra, os padr\u00f5es de migra\u00e7\u00e3o dos pinguins da Ant\u00e1rtida. E esses s\u00e3o dois problemas obviamente ligados, j\u00e1 que os pinguins reagem ao clima.<br \/>\nOutro problema do anticartesianismo radical \u00e9 que ele destr\u00f3i qualquer chance de inteligibilidade e, at\u00e9, de a\u00e7\u00e3o: se tudo est\u00e1 ligado a tudo e tudo \u00e9 importante para tudo, o \u00fanico jeito de fazer algo \u00e9 entendendo tudo, e como n\u00e3o d\u00e1 pra entender tudo, o melhor \u00e9 n\u00e3o fazer nada. O resultado \u00e9 um vago misticismo e a cren\u00e7a de que qualquer id\u00e9ia, por mais cretina que seja, deve ser \u00a0&#8220;v\u00e1lida&#8221;.<br \/>\nA solu\u00e7\u00e3o, claro, n\u00e3o \u00e9 abandonar o m\u00e9todo cartesiano, mas aplic\u00e1-lo de forma prudente e consciente. Problemas <em>precisam<\/em> ser divididos em partes. \u00a0Mas quem os divide deve precaver-se para n\u00e3o fazer o corte errado &#8212; e para n\u00e3o se esquecer do passo crucial do <em>M\u00e9todo<\/em>: uma revis\u00e3o, para ter certeza de que n\u00e3o ficou nada para tr\u00e1s.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o sei se \u00e9 trauma da minha forma\u00e7\u00e3o acad\u00eamica &#8212; em Comunica\u00e7\u00e3o Social, no in\u00edcio dos anos 90 &#8212; mas hoje me dia toda vez que ou\u00e7o a palavra &#8220;paradigma&#8221;, tenho uma rea\u00e7\u00e3o semelhante \u00e0 atribu\u00edda a Hermann G\u00f6ring quando o marechal nazista ouvia &#8220;cultura&#8221;. 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