{"id":269,"date":"2008-12-01T08:16:04","date_gmt":"2008-12-01T11:16:04","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/cretinas\/2008\/12\/razao-modo-de-usar\/"},"modified":"2008-12-01T08:16:04","modified_gmt":"2008-12-01T11:16:04","slug":"razao-modo-de-usar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cretinas\/2008\/12\/01\/razao-modo-de-usar\/","title":{"rendered":"Raz\u00e3o: modo de usar"},"content":{"rendered":"<p>Frase que volta e meia aparece em conversas com amigos religiosos: &#8216;Se voc\u00ea tivesse um plano perfeito, o que o impediria de matar seu vizinho?&#8217; O argumento n\u00e3o \u00e9 novo e est\u00e1 muito bem consagrado, por exemplo, no filme <em>Festim Diab\u00f3lico<\/em>, de Alfred Hitchcock. A id\u00e9ia geral \u00e9 a de que, sem algum tipo de cabide metaf\u00edsico &#8212; um mandamento divino ou coisa a sim &#8212; n\u00e3o h\u00e1 onde &#8220;pendurar&#8221; uma moralidade pessoal.<br \/>\nOu, o \u00fanico motivo <em>racional<\/em> para n\u00e3o cometer um crime \u00e9 o medo de puni\u00e7\u00e3o. Se esse medo for removido&#8230;<br \/>\nQuest\u00f5es assim mostram uma certa incompreens\u00e3o do que \u00e9, afinal, a racionalidade, motivo racional ou a\u00a0<em>raz\u00e3o<\/em>. Para entender do que estou falando, \u00e9 bom lembrara a distin\u00e7\u00e3o entre um argumento v\u00e1lido ou um argumento verdadeiro. Por exemplo, &#8220;Toda \u00e1rvore cresce com as ra\u00edzes para cima\/meu carro \u00e9 uma \u00e1rvore\/meu carro cresce com as ra\u00edzes para cima&#8221; \u00e9 v\u00e1lido, mas evidentemente falso.<br \/>\nA raz\u00e3o \u00e9 uma ferramenta. Digamos, como um serrote: pode cortar tanto mogno quanto um compensado vagabundo.<br \/>\nA melhor defini\u00e7\u00e3o sobre comportamento racional que j\u00e1 encontrei \u00e9 dos soci\u00f3logos Rodney Stark e William Bainbridge: <em>uma criatura dotada de objetivos e de cren\u00e7as sobre como alcan\u00e7\u00e1-los age racionalmente quando se comporta de forma consistente com essas cren\u00e7as em busca daqueles objetivos.<\/em><br \/>\nAssim, um sacerdote pag\u00e3o age racionalmente quando, em busca de chuva, sacrifica um touro para Zeus: afinal, ele acredita que Zeus \u00e9 o manda-chuva (literalmente) e que pode ser subornado com a ajuda de uma carca\u00e7a de touro. Logo&#8230;\u00a0<br \/>\nResumindo: a raz\u00e3o \u00e9 um instrumento que usamos para manipular nossas cren\u00e7as em busca de nossos objetivos. Se (a) nossas cren\u00e7as forem verdadeiras e (b) nossa aplica\u00e7\u00e3o da raz\u00e3o for correta, o objetivo tem uma bela chance de ser alcan\u00e7ado.<br \/>\nAssim, <em>a raz\u00e3o n\u00e3o diz o que voc\u00ea quer, ela s\u00f3 sugere a melhor forma de como conseguir, com base no que voc\u00ea sabe ou acredita que sabe<\/em>. Se o seu objetivo for s\u00f3 ter cren\u00e7as verdadeiras, a raz\u00e3o leva ao m\u00e9todo cient\u00edfico, mas esse \u00e9 apenas um objetivo poss\u00edvel. A escolha de objetivos \u00e9 muita vezes inconsciente, emocional, intuitiva. O homem \u00e9 um animal, moldado pela sele\u00e7\u00e3o natural e pelas press\u00f5es da sociedade em que vive. Suas metas nascem desses condicionamentos. Sem eles, n\u00e3o seria poss\u00edvel ter metas. Um ser de raz\u00e3o pura, incapaz de sentir fome, sede, amor, ambi\u00e7\u00e3o, etc., \u00e9 como o deus de Espinoza ou o asno de Buridan: uma massa inerte.<br \/>\nAssim, a id\u00e9ia de que o \u00fanico &#8216;motivo racional&#8217; para n\u00e3o matar algu\u00e9m \u00e9 o medo de puni\u00e7\u00e3o representa um erro conceitual: o \u00fanico &#8216;motivo racional&#8217; para se ter um ou outro objetivo \u00e9 se esse objetivo for um passo intermedi\u00e1rio na busca de um objetivo maior, cuja justificativa n\u00e3o ser\u00e1 racional, mas emocional, biol\u00f3gica, est\u00e9tica ou, at\u00e9 religiosa &#8212; a inquisi\u00e7\u00e3o, por exemplo, teve motivos perfeitamente racionais para matar muita gente.<br \/>\nAssim, por que o racionalista n\u00e3o mata o vizinho? <em>Porque n\u00e3o quer.<\/em>\u00a0Essa resposta, profundamente verdadeira, dificilmente satisfaz o argumentador religioso. &#8216;E se quisesse?&#8217;, \u00e9 a r\u00e9plica.<br \/>\nA\u00ed \u00e9 a hora de devolver a pergunta: por que o religioso n\u00e3o mata o vizinho? A resposta pode ser uma longa perora\u00e7\u00e3o sobre o valor intr\u00ednseco da vida humana como dom divino e etc e tal, mas no fim sempre cabe a tr\u00e9plica: &#8216;E se seu deus mandasse?&#8217;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Frase que volta e meia aparece em conversas com amigos religiosos: &#8216;Se voc\u00ea tivesse um plano perfeito, o que o impediria de matar seu vizinho?&#8217; O argumento n\u00e3o \u00e9 novo e est\u00e1 muito bem consagrado, por exemplo, no filme Festim Diab\u00f3lico, de Alfred Hitchcock. 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