{"id":287,"date":"2009-01-14T07:39:09","date_gmt":"2009-01-14T10:39:09","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/cretinas\/2009\/01\/metafisica-e-ortografia\/"},"modified":"2009-01-14T07:39:09","modified_gmt":"2009-01-14T10:39:09","slug":"metafisica-e-ortografia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cretinas\/2009\/01\/14\/metafisica-e-ortografia\/","title":{"rendered":"Metaf\u00edsica e ortografia"},"content":{"rendered":"<p>Sempre impliquei um pouco com a id\u00e9ia, relativamente comum mesmo entre cientistas, de que a compreensibilidade da natureza &#8212; isto \u00e9, o fato de que \u00e9 poss\u00edvel, por meio de observa\u00e7\u00f5es, descobrir leis naturais, elaborar teorias, prever o comportamento futuro do mundo &#8212; seria um &#8220;dogma metaf\u00edsico&#8221; da ci\u00eancia. Ou, em outras palavras: que \u00e9 algo que \u00e9 preciso aceitar &#8220;por f\u00e9&#8221;, sem justificativa, algo t\u00e3o arbitr\u00e1rio quanto, digamos, acreditar em deus.\u00a0<br \/>\nMinha implic\u00e2ncia vem do fato, que a mim me parece \u00f3bvio, de que, embora a pressuposi\u00e7\u00e3o de que o universo \u00e9 intelig\u00edvel seja, mesmo, necess\u00e1ria para <em>dar in\u00edcio<\/em> \u00e0 atividade cient\u00edfica, essa pressuposi\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 mais dogm\u00e1tica que, digamos, a exist\u00eancia do \u00e9ter lumin\u00edfero ou do flog\u00edsitico: uma id\u00e9ia \u00fatil, um ponto de partida conveniente mas que pode, eventualmente, vir a ser descartado.<br \/>\nSe for descartado a ci\u00eancia acaba, mas e da\u00ed? Talvez a \u00faltima descoberta cient\u00edfica seja a de que a ci\u00eancia, a partir de um certo ponto, \u00e9 imposs\u00edvel. \u00a0Frustrante, sem d\u00favida, mas perfeitamente conceb\u00edvel (embora muito pouco plaus\u00edvel).<br \/>\nO fato \u00e9 que a inteligibilidade do mundo <em>vem se confirmando<\/em>. Ao pressup\u00f4-la, o cientista \u00e9 como o homem que, andando numa noite escura e aproximando-se do lugar onde sabe que h\u00e1 um abismo, diz a si mesmo: &#8220;Suponho que h\u00e1 uma ponte \u00e0 frente&#8221;. Ele pode at\u00e9 dar o primeiro passo sobre a ponte como um ato de f\u00e9; mas se ela n\u00e3o estiver ali, ele vai cair. O fato de a ci\u00eancia n\u00e3o ter ca\u00eddo (ainda) no caos permite supor que a ponte se estende ainda por alguns metros adiante. Dado o primeiro passo, os seguintes n\u00e3o s\u00e3o sustentados por f\u00e9 ou por dogma, e sim por um piso muito concreto.<br \/>\nNo entanto, nos debates em torno do tema, sempre me vi incapaz de oferecer um exemplo que convencesse os defensores da id\u00e9ia de que a ci\u00eancia tem base dogm\u00e1tica de que seria poss\u00edvel detectar &#8220;o fim da ci\u00eancia&#8221;. Ser\u00e1 que o dogma simplesmente n\u00e3o impeliria os cientistas cada vez mais \u00e1 frente, levando \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de teorias cada vez mais malucas e cada vez menos eficientes, a impor regularidades baseadas em <em>wishful thinking<\/em> e leis imagin\u00e1rias ao caos?<br \/>\nBom, achei o exemplo de ci\u00eancia imposs\u00edvel:<em> a reforma ortogr\u00e1fica da l\u00edngua portuguesa!<\/em><br \/>\nOrtografia n\u00e3o \u00e9 uma ci\u00eancia mas, em teoria, poderia ser um modelo de objeto de estudo: um conjunto de algoritmos que permite escrever palavras dentro da norma culta da l\u00edngua. Cientificamente &#8212; por observa\u00e7\u00e3o, dedu\u00e7\u00e3o, formula\u00e7\u00e3o e teste de hip\u00f3teses &#8212; deveria ser poss\u00edvel descobrir esses algoritmos, como um cientista descobre as leis da natureza.<br \/>\nO fato, no entanto, \u00e9 que o aparente algoritmo ortogr\u00e1fico \u00e9 uma ilus\u00e3o: ele funciona at\u00e9 certo ponto, e em seguida se perde em exce\u00e7\u00f5es, d\u00favidas, no gosto pessoal dos autores. Microonda virou micro-onda porque o pseudo-algoritmo diz que o h\u00edfen deve separra duas vogais iguais no encontro de prexifo (micro) e raiz (onda). Mas preexistir n\u00e3o vira pre-existir, continua como era.<br \/>\nEnfim: o Universo poderia ser como a nova ortografia do portugu\u00eas: a conserva\u00e7\u00e3o da energia poderia ser t\u00e3o arbitr\u00e1ria como micro-ondas e peexistir. Mas n\u00e3o \u00e9.\u00a0<br \/>\nPelo menos, n\u00e3o at\u00e9 onde sabemos&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sempre impliquei um pouco com a id\u00e9ia, relativamente comum mesmo entre cientistas, de que a compreensibilidade da natureza &#8212; isto \u00e9, o fato de que \u00e9 poss\u00edvel, por meio de observa\u00e7\u00f5es, descobrir leis naturais, elaborar teorias, prever o comportamento futuro do mundo &#8212; seria um &#8220;dogma metaf\u00edsico&#8221; da ci\u00eancia. 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