{"id":314,"date":"2009-03-23T08:38:09","date_gmt":"2009-03-23T11:38:09","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/cretinas\/2009\/03\/logica_ciencia_a_cidadania\/"},"modified":"2009-03-23T08:38:09","modified_gmt":"2009-03-23T11:38:09","slug":"logica_ciencia_a_cidadania","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cretinas\/2009\/03\/23\/logica_ciencia_a_cidadania\/","title":{"rendered":"L\u00f3gica, ci\u00eancia a cidadania"},"content":{"rendered":"<p>Quando comecei no jornalismo, l\u00e1 se v\u00e3o uns 20 anos, eu era um rep\u00f3rter gen\u00e9rico: cobri assalto a posto e gasolina, enchente em favela, fiz a ronda do vel\u00f3rio (ei, a coluna de obitu\u00e1rios n\u00e3o se escreve sozinha!) mas, no fim, acabei estacionando na cobertura de pol\u00edtica, onde passei uns dois ou tr\u00eas anos, e que abandonei desiludido e de est\u00f4mago virado.<br \/>\nPor favor, n\u00e3o imagine que isso significa que tenha me tornado um defensor fan\u00e1tico do voto nulo ou coisa assim. As alternativas dispon\u00edveis ao processo democr\u00e1tico (que sempre pode ser aperfei\u00e7oado, \u00e9 claro) s\u00e3o ditadura ou guerra civil, e nenhuma delas \u00e9 mais atraente do que o que temos.<br \/>\nO que me fez perder o gosto por pol\u00edtica &#8212; atividade que hoje encaro como um rem\u00e9dio amargo, coisa necess\u00e1ria mas nem por isso agrad\u00e1vel &#8212; foi a profunda, generalizada e descarada <em>desonestidade intelectual<\/em> dos participantes: o discurso pol\u00edtico \u00e9 uma fonte inesgot\u00e1vel de de fal\u00e1cias e de non-sequiturs, onde o esp\u00edrito de torcida organizada esmaga qualquer pretens\u00e3o de respeito \u00e0 verdade, \u00e0 l\u00f3gica ou \u00e0 intelig\u00eancia do ouvinte.<br \/>\nUm pol\u00edtico falando talvez seja a ep\u00edtome daquilo que o fil\u00f3sofo americano<a href=\"http:\/\/press.princeton.edu\/titles\/7929.html\"> Harry Frankfurt<\/a> definiu como <em>bullshiter<\/em>: algu\u00e9m que n\u00e3o liga se o que diz \u00e9 verdade ou mentira, e s\u00f3 se importa com a fun\u00e7\u00e3o das palavras como ferramentas manipuladoras de emo\u00e7\u00e3o.<br \/>\nCuriosamente, a mesma sensibilidade que me afastou da pol\u00edtica me aproximou da ci\u00eancia: a\u00ed est\u00e1 uma atividade onde os participantes n\u00e3o s\u00e3o perfeitos &#8211; a ra\u00e7a humana como um todo est\u00e1 muito longe disso &#8211; mas onde as regras do debate inteligente e honesto s\u00e3o respeitadas (ou, ao menos, onde s\u00e3o <em>mais<\/em> respeitadas do que em qualquer outro tipo de empreendimento que eu conhe\u00e7a).<br \/>\nDei esta volta toda para chegar \u00e0 recente <a href=\"http:\/\/www.estadao.com.br\/nacional\/not_nac341725,0.htm\">onda de esc\u00e2ndalos no Senado<\/a>, que degenerou rapidamente em uma s\u00e9rie de <em>tu quoque<\/em> &#8211; a fal\u00e1cia de tentar se defender de uma acusa\u00e7\u00e3o n\u00e3o produzindo argumentos relevantes ou evid\u00eancias idem, mas dizendo que o acusador tamb\u00e9m tem culpa no cart\u00f3rio. Como se um assassino, digamos, n\u00e3o pudesse ser testemunha ocular de um assalto, ou vice-versa.<br \/>\nO que me p\u00f4s a pensar: se as pessoas em geral estivessem mais familiarizadas com as regras do discurso l\u00f3gico e da pr\u00e1tica cient\u00edfica, elas provavelmente n\u00e3o engoliriam esse tipo de jogo de cena. Se os jornalistas que cobrem pol\u00edtica tamb\u00e9m tivessem esse tipo de familiaridade, talvez conseguissem ser mais incisivos. Darwinianamente, isso poderia vir a gerar pol\u00edticos melhores.<br \/>\nEssa familiaridade, claro, tem de vir da educa\u00e7\u00e3o. E o mais engra\u00e7ado (ou triste) \u00e9 que o potencial j\u00e1 est\u00e1 l\u00e1.<br \/>\nO primeiro livro de ci\u00eancias em que estudei, acho que na 4\u00aa s\u00e9rie do prim\u00e1rio, dedicava um cap\u00edtulo inteiro a tentar convencer as crian\u00e7as, por meio de argumentos e experimentos, de que o ar existe. Do alto de minha sabedoria infantil, achei aquilo uma bobagem: <em>\u00e9 claro<\/em> que o ar existe. Para qu\u00ea discutir isso? O professor tamb\u00e9m n\u00e3o ajudou muito: passou por cima dos argumentos, n\u00e3o realizou nenhum dos experimentos e simplesmente nos remeteu ao question\u00e1rio de 10 perguntas ao final do cap\u00edtulo.<br \/>\nHoje, entendo que aquele cap\u00edtulo era uma ferramenta para estimular o ceticismo e o senso cr\u00edtico, para ajudar a moldar uma perspectiva cient\u00edfica do mundo. Pena que o professor tenha optado por n\u00e3o us\u00e1-la &#8211; fossem quais fossem seus motivos &#8211; e tenha tudo acabado em um question\u00e1rio bobo de 10 perguntas para decorar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando comecei no jornalismo, l\u00e1 se v\u00e3o uns 20 anos, eu era um rep\u00f3rter gen\u00e9rico: cobri assalto a posto e gasolina, enchente em favela, fiz a ronda do vel\u00f3rio (ei, a coluna de obitu\u00e1rios n\u00e3o se escreve sozinha!) mas, no fim, acabei estacionando na cobertura de pol\u00edtica, onde passei uns dois ou tr\u00eas anos, e [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":545,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":[],"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[],"class_list":["post-314","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-geral"],"jetpack_featured_media_url":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cretinas\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/314","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cretinas\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cretinas\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cretinas\/wp-json\/wp\/v2\/users\/545"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cretinas\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=314"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cretinas\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/314\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cretinas\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=314"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cretinas\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=314"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cretinas\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=314"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}