{"id":315,"date":"2009-03-25T09:04:39","date_gmt":"2009-03-25T12:04:39","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/cretinas\/2009\/03\/telefone_no_banheiro\/"},"modified":"2009-03-25T09:04:39","modified_gmt":"2009-03-25T12:04:39","slug":"telefone_no_banheiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cretinas\/2009\/03\/25\/telefone_no_banheiro\/","title":{"rendered":"Telefone no banheiro?"},"content":{"rendered":"<p>Ser\u00e1 que \u00e9 verdade que entrar no banheiro aumenta a probabilidade de o telefone tocar?<br \/>\nEsse parece ser um caso cl\u00e1ssico do <em>vi\u00e9s de disponibilidade<\/em>, a tend\u00eancia psicol\u00f3gica que temos de nos lembrar de eventos salientes (o n\u00famero de vezes em que fomos perturbados no banheiro pelo som distante do aparelho tocando na sala) e deixar de lado o n\u00famero, provavelmente muito maior, de vezes em que (a) usamos o banheiro sem sermos interrompidos ou (b) o telefone toca enquanto estamos fazendo alguma outra coisa.<br \/>\nO ideal para resolver a quest\u00e3o seria realizar ma s\u00e9rie de experimentos controlados e contar quantas vezes o telefone toca enquanto nossos volunt\u00e1rios est\u00e3o no banheiro e comparar com a frequ\u00eancia correspondente a outras atividades (fazendo um lanche, tomando caf\u00e9, blogando&#8230; ). Como \u00e9 improv\u00e1vel  que a Fapesp venha a financiar um projeto assim, apelemos para a segunda melhor coisa: uma estimativa num\u00e9rica com valores chutados.<br \/>\nSuponhamos que um ser humano adulto, da parte do planeta onde as pessoas t\u00eam acesso a telefones e banheiros, passe cerca de uma hora di\u00e1ria realizando atividades que ocorrem em banheiros &#8212; da satisfa\u00e7\u00e3o das necessidades fisiol\u00f3gicas a coisas como tomar banho, pentear os cabelos, escovar os dentes, etc.<br \/>\nNeste ponto, algu\u00e9m poderia surgir com a obje\u00e7\u00e3o sexista de que as mulheres tenderiam a puxar a m\u00e9dia para cima, mas vou ignorar isso.<br \/>\nE o telefone, quando toca? Pode tocar a qualquer hora, mas \u00e9 razo\u00e1vel supor que a maioria das liga\u00e7\u00f5es ocorra numa faixa de 13 horas, digamos que das 9h \u00e0s 22h, ou de pouco depois do in\u00edcio do hor\u00e1rio comercial at\u00e9 o \u00faltimo momento onde ainda \u00e9 educado ligar para os amigos para dar um ol\u00e1.<br \/>\nBem, ent\u00e3o telefonemas podem ocorrer durante cerca de 55% do dia, e uma pessoa m\u00e9dia passa 4% do dia no banheiro. A chance desses 4% estarem inclu\u00eddos na mesma faixa dos 55% \u00e9 bem alta &#8212; a maioria das pessoas, afinal, n\u00e3o molha a cama. Vamos supor que seja 100%, s\u00f3 para efeito de argumento.<br \/>\nO pr\u00f3ximo ponto \u00e9 estimar quantos telefonemas uma pessoa recebe ao longo das 13 horas de &#8220;concentra\u00e7\u00e3o&#8221;. Provavelmente \u00e9 mais de 1 e menos de 100 (a menos que voc\u00ea seja um corretor da bolsa), o que, fazendo uma m\u00e9dia geom\u00e9trica, d\u00e1 10. Dez telefonemas ao longo de 13 horas sugere uma m\u00e9dia di\u00e1ria de (apenas!) 3 horas sem nenhum telefonema. Logo, a chance de uma pessoa escolher uma hora para ir ao banheiro na qual o telefone n\u00e3o vai tocar \u00e9 de 3 em 13, ou 23%. Isso significa que h\u00e1 77% de chance de o telefone tocar durante uma hora em que voc\u00ea estar\u00e1 no banheiro!<br \/>\nOpa, opa, opa. Uma coisa \u00e9 a mesma <em>hora<\/em> (intervalo de 60 minutos), outra \u00e9 o mesmo <em>instante<\/em>. Numa mesma hora, digamos, das 14h \u00e0s 15h, \u00e9 perfeitamente poss\u00edvel que voc\u00ea v\u00e1 ao banheiro, fa\u00e7a o que precisa fazer e depois volte \u00e0 sua mesa (ou \u00e0 sala, ou ao quarto) e s\u00f3 ent\u00e3o o telefone toque. Isso porque a hora passada no banheiro que estimamos \u00e9, na verdade, uma soma do tempo no chuveiro ou na pia com as visitas aleat\u00f3rias ao mict\u00f3rio e ao vaso. S\u00f3 muito raramente essa &#8220;hora&#8221; ocupar\u00e1, de fato, uma \u00fanica hora cont\u00ednua.<br \/>\nBem, ent\u00e3o: h\u00e1 77% de chance de o telefone tocar numa hora em que voc\u00ea tamb\u00e9m precisar\u00e1 ir ao banheiro. Qual a chance de haver uma sobreposi\u00e7\u00e3o de eventos, dentro dessa hora?<br \/>\nSuponha que voc\u00ea gaste 20 minutos no chuveiro (n\u00e3o deveria, \u00e9 um desperd\u00edcio de \u00e1gua, mas v\u00e1 l\u00e1). Vinte minutos s\u00e3o 33% de uma hora, ent\u00e3o a probabilidade acumulada \u00e9 de 33% de 77%, ou 25%. H\u00e1 uma estimativa de que as pessoas dedicam cerca de 15 minutos di\u00e1rios \u00e0s necessidades fisiol\u00f3gicas. Ent\u00e3o, a chance de o telefone tocar nesse intervalo \u00e9 de 25% (um quarto de hora) de 77%, ou 19%.<br \/>\nJ\u00e1 a chance de o telefone tocar enquanto voc\u00ea estiver se dedicando a atividades sanit\u00e1rias sortidas (escovando os dentes, lavando o rosto, penteando o cabelo) \u00e9 de 41% (a porcentagem da &#8220;hora de banheiro&#8221; ocupada pelos 25 minutos restantes) de 77%, ou 31%.<br \/>\nE qual a chance de o telefone tocar quando voc\u00ea <em>n\u00e3o<\/em> estiver no banheiro? Bom, isso \u00e9 a chance de ele <em>n\u00e3o<\/em> tocar durante o banho (75%), <em>nem<\/em> durante o per\u00edodo das necessidades mais urgentes (81%) e <em>sequer<\/em> na hora de escovar os dentes ou usar o secador de cabelo (69%). O acumulado total \u00e9 de de 42%. Ou seja, h\u00e1 quase 60% de chance de que, sim, o telefone toque enquanto voc\u00ea est\u00e1 no banheiro&#8230;<br \/>\nAlgo errado nisso, n\u00e3o? Digo, se fosse verdade, seis de cada dez telefonemas ocorreriam enquanto o destinat\u00e1rio est\u00e1 passando fio dental, na ducha ou com as cal\u00e7as arriadas. Muito esquisito.<br \/>\nO erro talvez esteja em considerar as &#8220;atividades sortidas&#8221; como sendo um bloco s\u00f3lido de 25 minutos&#8230; E n\u00e3o, como seria mais correto, como eventos mais curtos, espalhados ao longo das 13 horas de telefone ativo.<br \/>\nDiluindo 25 minutos aos longo de 13 horas, temos 2 minutos por hora: uma probabilidade de 3% de que, dado um instante qualquer, a pessoa esteja no banheiro para  lavar as m\u00e3os ou delinear os olhos. Fazendo 3% de 77% (probabilidade de a hora ser uma hora de telefonema) temos 2%.<br \/>\nCom essa corre\u00e7\u00e3o, a probabilidade geral de voc\u00ea ir ao banheiro sem ser incomodado pelo telefone sobe de 41% para 59%.<br \/>\nD\u00e1 para reduzir ainda mais isso, diluindo os 15 minutos de necessidades fisiol\u00f3gicas da mesma forma (o que n\u00e3o faz l\u00e1 tanto sentido: talvez o melhor fosse dividir esse bloco de 15 em dois blocos de sete e meio ou tr\u00eas de cinco, mas a\u00ed a conta ficaria um pouco complicada demais&#8230; tipo, de quantas maneiras diferentes \u00e9 poss\u00edvel extrair cinco minutos consecutivos, apenas tr\u00eas vezes, de um bloco de 13 horas? <em>Eu<\/em> n\u00e3o quero calcular isso).<br \/>\nEnt\u00e3o&#8230;quinze por 13 \u00e9 1,15 minuto por hora, ou 1,9%. A probabilidade final, levando os 77% de chance de a hora ser uma hora de telefonema, \u00e9 de 1,4%. E a chance global de voc\u00ea poder ir ao banheiro <em>sem ser incomodado<\/em> pela campainha dispara a 72%. Ou: cerca de dois telefonemas de cada dez ir\u00e3o encontr\u00e1-lo, em m\u00e9dia, no WC.<br \/>\n<strong>NOTA IMPORTANTE:<\/strong><br \/>\nEsse c\u00e1lculo todo n\u00e3o passa de um chute produzido para fins de entretenimento. N\u00e3o deve ser levado a s\u00e9rio. O autor n\u00e3o se responsabiliza por danos ou preju\u00edzos causados pelo uso dos resultados apresentados no mundo dos neg\u00f3cios ou na vida pessoal\/afetiva de ningu\u00e9m!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ser\u00e1 que \u00e9 verdade que entrar no banheiro aumenta a probabilidade de o telefone tocar? 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