{"id":33,"date":"2008-01-27T21:18:00","date_gmt":"2008-01-28T00:18:00","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/cretinas\/2008\/01\/tabula-rasa-dualismo-e-frankenstein\/"},"modified":"2008-01-27T21:18:00","modified_gmt":"2008-01-28T00:18:00","slug":"tabula-rasa-dualismo-e-frankenstein","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cretinas\/2008\/01\/27\/tabula-rasa-dualismo-e-frankenstein\/","title":{"rendered":"T\u00e1bula Rasa, Dualismo e Frankenstein"},"content":{"rendered":"<p>A oposi\u00e7\u00e3o de alguns acad\u00eamicos ao projeto de <a href=\"http:\/\/www.cib.org.br\/midia.php?ID=26380&amp;data=20080124\">estudar o funcionamento do c\u00e9rebro <\/a>de jovens homicidas parece mais uma reafirma\u00e7\u00e3o de tr\u00eas velhos mitos.<\/p>\n<p>O primeiro \u00e9 o da t\u00e1bula rasa &#8212; de que o ser humano nasce como uma &#8220;folha em branco&#8221;, e que tudo que faz, todos os erros que comete e todos os m\u00e9ritos que possa ter s\u00e3o fruto do meio em que vive e de suas rela\u00e7\u00f5es com outras pessoas.<\/p>\n<p>Essa vis\u00e3o, al\u00e9m de cientificamente fr\u00e1gil (como j\u00e1 bem mostrou <a href=\"http:\/\/pinker.wjh.harvard.edu\/\">Steve Pinker<\/a>) deixa aberta a curiosa quest\u00e3o de da onde, afinal, v\u00eam as condi\u00e7\u00f5es ambientais e os comportamentos das pessoas que determinam o conte\u00fado de cada mente originalmente vazia.<\/p>\n<p>O segundo \u00e9 o mito do dualismo: de que os fen\u00f4menos &#8220;mentais&#8221; s\u00e3o diferentes dos fen\u00f4menos &#8220;f\u00edsicos&#8221; de algum modo essencial; que \u00e9 imposs\u00edvel (<em>reducionista<\/em>) descrever, ou mesmo correlacionar, o que se passa no esp\u00edrito com o que ocorre no corpo. Quem diz isso, \u00e9 \u00f3bvio, nunca ficou corado (e nem, por falar nisso, teve ou presenciou uma ere\u00e7\u00e3o).<\/p>\n<p>O terceiro, e pior, \u00e9 o mito de Frankenstein: de que h\u00e1 coisas<em> que \u00e9 melhor n\u00e3o saber<\/em>. Tipo: se descobr\u00edssemos que todas as pessoas de olhos castanhos e que t\u00eam p\u00ealos nas orelhas s\u00e3o (digamos) homicidas em potencial, isso levaria a gulags, limpeza \u00e9tnica, injusti\u00e7as por atacado&#8230; logo, \u00e9 melhor ignorarmos esse tipo de informa\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p>Como portador de ambas as caracter\u00edsticas, eu talvez me sentisse tentado a concordar com o racioc\u00ednio, mas a obje\u00e7\u00e3o ignora, claro, que o conhecimento dispon\u00edvel e o que a sociedade decide fazer com ele s\u00e3o coisas distintas. N\u00e3o foi <em>a ci\u00eancia<\/em> que apagou Hiroshima do mapa, foi o governo de Harry S. Truman. E ignora, ainda, o fato de que, quando \u00e9 preciso tomar uma decis\u00e3o, \u00e9 sempre bom ter o m\u00e1ximo poss\u00edvel de informa\u00e7\u00e3o relevante a respeito.<\/p>\n<p>Como disse o ganhador do Nobel Peter Medawar, a miss\u00e3o da ci\u00eancia \u00e9 criar a oportunidade de tornar real tudo o que for poss\u00edvel. O que vamos fazer com as oportunidades que surgirem \u00e9 uma quest\u00e3o cabeluda, mas abrir m\u00e3o da miss\u00e3o \u00e9 covardia, na melhor das hip\u00f3teses &#8212; ou obscurantismo, na pior.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A oposi\u00e7\u00e3o de alguns acad\u00eamicos ao projeto de estudar o funcionamento do c\u00e9rebro de jovens homicidas parece mais uma reafirma\u00e7\u00e3o de tr\u00eas velhos mitos. 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