{"id":369,"date":"2009-06-22T08:47:23","date_gmt":"2009-06-22T11:47:23","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/cretinas\/2009\/06\/teoria_dos_jogos_e_o_jeitinho\/"},"modified":"2009-06-22T08:47:23","modified_gmt":"2009-06-22T11:47:23","slug":"teoria_dos_jogos_e_o_jeitinho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cretinas\/2009\/06\/22\/teoria_dos_jogos_e_o_jeitinho\/","title":{"rendered":"Teoria dos Jogos e o &#8216;jeitinho&#8217;"},"content":{"rendered":"<p>Neste fim de semana, passei a noite de sexta pra s\u00e1bado num hotel de SP. No mesmo lugar havia uma conven\u00e7\u00e3o de m\u00e9dicos &#8212; a fila do check-in era de quase uma hora, por conta do influxo maci\u00e7o de doutores. Bom, quando chegou a minha vez, perguntei ao balconista qual o melhor hor\u00e1rio para tomar caf\u00e9 no dia seguinte, j\u00e1 que os m\u00e9dicos certamente iriam lotar o restaurante quando descessem em massa.<br \/>\nO simp\u00e1tico rapaz atr\u00e1s do balc\u00e3o disse que a conven\u00e7\u00e3o de m\u00e9dicos (patrocinada, ao que parece, pela Novartis)  tinha um evento previsto fora do hotel, com sa\u00edda marcada para as 8h. Programei-me, ent\u00e3o, para descer para o caf\u00e9 por volta das 8h05, quando os m\u00e9dicos j\u00e1 deveriam ter limpado a \u00e1rea.<br \/>\nVoc\u00ea certamente j\u00e1 adivinhou o que aconteceu: o restaurante ainda estava lotado de m\u00e9dicos, que informavam uns aos outros que o \u00f4nibus ainda ia esperar &#8220;mais um pouquinho&#8221;; acho que saiu, no fim, l\u00e1 pelas 9h.<br \/>\nO que me p\u00f4s para pensar nos pobres coitados que tinham acordado cedo para estar de caf\u00e9 tomado e dentes escovados a tempo de pegar o \u00f4nibus na hora estipulada na v\u00e9spera, 8h. Deviam estar se sentindo os maiores trouxas da gal\u00e1xia.<br \/>\nEm termos de teoria dos jogos, essa \u00e9 a situa\u00e7\u00e3o cl\u00e1ssica onde uma quebra na coopera\u00e7\u00e3o entre os jogadores segue sem puni\u00e7\u00e3o, de forma que quem se esfor\u00e7ou para jogar direito fica com o \u00f4nus do esfor\u00e7o empenhado, mas n\u00e3o colhe b\u00f4nus nenhum.<br \/>\nSimula\u00e7\u00f5es matem\u00e1ticas (e experimentos e a hist\u00f3ria) mostram que quando &#8220;aproveitadores&#8221; contumazes seguem impunes, os cooperadores ou desistem de fazer as coisas direito ou s\u00e3o extintos da popula\u00e7\u00e3o, at\u00e9 que a coletividade chegue a 100% de aproveitadores &#8212; quando tudo, obviamente, desmorona.<br \/>\n(Qualquer semelhan\u00e7a com o Congresso Nacional \u00e9 mera coincid\u00eancia).<br \/>\nFilosofando um pouco, parece-me que a toler\u00e2ncia com o aproveitador \u00e9 parte do fen\u00f4meno conhecido genericamente como &#8220;jeitinho brasileiro&#8221;.<br \/>\nPercebo que este \u00e9 o ponto, neste tipo de artigo, onde o autor come\u00e7a a esbravejar pedindo pena de morte para quem cospe na rua. N\u00e3o vou fazer isso, mas propor uma reflex\u00e3o sobre um fen\u00f4meno cultural interessante: a tend\u00eancia nacional de inverter o &#8220;\u00f4nus da inconveni\u00eancia&#8221;. Ou: parece que entre n\u00f3s o chato \u00e9 quem insiste para que as normas sociais sejam observadas, n\u00e3o quem abusa do tempo e da paci\u00eancia de quem tenta agir direito. Por que ser\u00e1?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Neste fim de semana, passei a noite de sexta pra s\u00e1bado num hotel de SP. No mesmo lugar havia uma conven\u00e7\u00e3o de m\u00e9dicos &#8212; a fila do check-in era de quase uma hora, por conta do influxo maci\u00e7o de doutores. 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