{"id":394,"date":"2009-07-24T09:18:11","date_gmt":"2009-07-24T12:18:11","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/cretinas\/2009\/07\/paradoxo_de_sexta_36\/"},"modified":"2009-07-24T09:18:11","modified_gmt":"2009-07-24T12:18:11","slug":"paradoxo_de_sexta_36","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cretinas\/2009\/07\/24\/paradoxo_de_sexta_36\/","title":{"rendered":"Paradoxo de sexta (36)"},"content":{"rendered":"<p>O da semana passada foi um dos cl\u00e1ssicos paradoxos de Zeno escritos por Arist\u00f3teles &#8212; o que tenta demonstrar que \u00e9 imposs\u00edvel percorrer uma dist\u00e2ncia qualquer, porque isso implica percorrer um n\u00famero infinito de etapas intermedi\u00e1rias, e \u00e9 imposs\u00edvel cumprir um n\u00famero infinito de tarefas num tempo finito.<br \/>\nEsse paradoxo j\u00e1 foi atacado por v\u00e1rios \u00e2ngulos. O mais usado \u00e9 apontar a exist\u00eancia daquilo que os matem\u00e1ticos chamam de <em>s\u00e9ries infinitas convergentes<\/em> &#8212; isto \u00e9: uma soma de infinitos termos, tipo 0,5+0,25+0,125&#8230; de fato pode chegar a um resultado finito. No caso, 1.<br \/>\nMas esse argumento, por si s\u00f3, \u00e9 insatisfat\u00f3rio. Ele soa muito como uma mera reformula\u00e7\u00e3o do problema: Zeno nos diz que uma dist\u00e2ncia concreta qualquer pode ser quebrada em infinitas fra\u00e7\u00f5es. A s\u00e9rie convergente nos diz que infinitas fra\u00e7\u00f5es podem ser somadas para gerar ma dist\u00e2ncia concreta qualquer. So what?<br \/>\nO truque est\u00e1 em aplicar o argumento da s\u00e9rie convergente ao <em>tempo<\/em>: da mesma forma que uma curta dist\u00e2ncia finita pode ser dividida em infinitas etapas, cada uma menor que  anterior, um n\u00famero infinito de momentos, cada um menor que o anterior, <em>pode ser somado para gerar um intervalo de tempo finito<\/em>. Assim, prova-se que a afirma\u00e7\u00e3o final do paradoxo, &#8220;\u00e9 imposs\u00edvel cumprir um n\u00famero infinito de tarefas num tempo finito&#8221; \u00e9 falsa. Realizar uma infinidade de tarefas um tempo finito \u00e9 poss\u00edvel, se as tarefas puderem ser distribu\u00eddas ao longo de uma s\u00e9rie infinita, por\u00e9m convergente, de momentos.<br \/>\nO paradoxo desta semana \u00e9 o que eu chamo de <em>Paradoxo da Cria\u00e7\u00e3o Imperfeita<\/em>. \u00c9 um paradoxo teol\u00f3gico, e portanto s\u00f3 deve incomodar a quem acredita nessas coisas, mas ele \u00e9 t\u00e3o bem sacado que n\u00e3o resisti a apresent\u00e1-lo. Foi proposto pelo fil\u00f3sofo australiano John Leslie Mackie (1917-1981), um dos meus her\u00f3is intelectuais (seu livro a respeito de argumentos pr\u00f3 e contra a exist\u00eancia de Deus, <em>The Miracle of Theism<\/em>, \u00e9 um dos meus cl\u00e1ssicos pessoais).<br \/>\nEsse paradoxo \u00e9 uma tr\u00e9plica \u00e0 resposta padr\u00e3o dos te\u00edstas quanto \u00e0 exist\u00eancia de mal moral no mundo (o mal natural &#8212; enchentes, terremotos, v\u00edrus Ebola, etc &#8212; \u00e9 outro problema). &#8220;Mal moral&#8221; \u00e9 o mal que as pessoas fazem umas \u00e0s outras: roubo, estupro, assassinato, pura e simples crueldade psicol\u00f3gica&#8230;<br \/>\nA no\u00e7\u00e3o geral, no quadro te\u00edsta, \u00e9 que o mal moral \u00e9 o pre\u00e7o da liberdade. Deus quis nos fazer livres, e ter liberdade inclui a liberdade de fazer merda.<br \/>\n(H\u00e1 outras quest\u00f5es que daria para levantar, tipo por que a liberdade do assassino vale mais que a vida da v\u00edtima, mas n\u00e3o vamos entrar nisso aqui).<br \/>\nA quest\u00e3o que Mackie deixa \u00e9: \u00f3quei, Deus quis nos fazer livres. Por que ent\u00e3o ele n\u00e3o quis nos fazer <em>melhores<\/em>? Um ser humano que sempre fa\u00e7a a escolha moralmente certa ainda \u00e9 um ser humano livre. O fato de uma pessoa passar a vida inteira sem cometer um crime n\u00e3o a torna menos livre que um assaltante assassino.<br \/>\nO mal moral <em>potencial<\/em> pode se explicar com o fato de sermos livres, mas o mal moral <em>concreto<\/em> s\u00f3 se explica porque somos imperfeitos. Por que um Deus bom e onipotente criaria uma esp\u00e9cie deliberadamente defeituosa, que ele sabe (\u00e9 onisciente tamb\u00e9m) que vai ter de castigar depois?<br \/>\nCartas para a reda\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O da semana passada foi um dos cl\u00e1ssicos paradoxos de Zeno escritos por Arist\u00f3teles &#8212; o que tenta demonstrar que \u00e9 imposs\u00edvel percorrer uma dist\u00e2ncia qualquer, porque isso implica percorrer um n\u00famero infinito de etapas intermedi\u00e1rias, e \u00e9 imposs\u00edvel cumprir um n\u00famero infinito de tarefas num tempo finito. 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