{"id":414,"date":"2009-08-21T08:51:24","date_gmt":"2009-08-21T11:51:24","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/cretinas\/2009\/08\/paradoxo_de_sexta_40\/"},"modified":"2009-08-21T08:51:24","modified_gmt":"2009-08-21T11:51:24","slug":"paradoxo_de_sexta_40","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cretinas\/2009\/08\/21\/paradoxo_de_sexta_40\/","title":{"rendered":"Paradoxo de sexta (40)"},"content":{"rendered":"<p>Quanto ao da semana passada: como foi desvendado logo no primeiro coment\u00e1rio, a solu\u00e7\u00e3o depende, apenas, de uma aplica\u00e7\u00e3o direta da f\u00f3rmula pra calcular a probabilidade de se obter &#8220;k&#8221; sucessos em &#8220;n&#8221; tentativas, onde cada tentativa individual tem uma probabilidade &#8220;p&#8221;, previamente conhecida.<br \/>\nE a resposta \u00e9, mesmo, 8%.<br \/>\nClaro, o fato desse resultado ser matematicamente correto n\u00e3o o torna, \u00e0 primeira vista, menos contraintuitivo. Afinal, a probabilidade de uma moeda qualquer cair cara \u00e9 50%, logo em 100 moedas, 50 deveriam&#8230; O que h\u00e1 de errado nesse racioc\u00ednio?<br \/>\nImagine que voc\u00ea jogue quatro moedas para o alto, e n\u00e3o 100, e queria saber qual a chance de <em>exatamente duas<\/em> ca\u00edrem cara. Bom, chamando cAra de A e cOroa de O temos:<br \/>\nAAAA<br \/>\nAAAO<br \/>\nAAOO *<br \/>\nAOOO<br \/>\nOOOO<br \/>\nOOOA<br \/>\nOOAA *<br \/>\nOAAA<br \/>\nOAAO *<br \/>\nOAOA *<br \/>\nAOOA *<br \/>\nAOAO *<br \/>\nAOAA<br \/>\nAAOA<br \/>\nOOAO<br \/>\nOAOO<br \/>\nPerceba que s\u00e3o 6 combina\u00e7\u00f5es em 16 resultados poss\u00edveis, o que \u00e9 bem menos que a metade: cerca de 37%. E este \u00e9 o ponto:  conforme aumenta o n\u00famero de tentativas, o n\u00famero de diferentes resultados poss\u00edveis tamb\u00e9m cresce. Quando se chega a 100, o n\u00famero de formas de <em>n\u00e3o<\/em> se obter metade das moedas viradas para um lado e a outra metade virada par o outro \u00e9 simplesmente gigantesco.<br \/>\nNo entanto, a probabilidade de se obter 50 caras em 100 lan\u00e7amentos ainda \u00e9 a maior probabilidade individual nessa situa\u00e7\u00e3o. A probabilidade de se obter algo fora da faixa de 40 a 60 \u00e9 virtualmente zero.<br \/>\nPara esta semana, eu estava pensando em mergulhar nos meus alfarr\u00e1bios e incun\u00e1bulos em busca de um problema de probabilidade bem cabeludo, mas a\u00ed deparei-me com a campanha <a href=\"http:\/\/www.hellofromearth.net\/\">Hello from Earth<\/a>, que est\u00e1 coletando mensagens para serem transmitidas ao espa\u00e7o a partir de um radiotelesc\u00f3pio australiano. A transmiss\u00e3o ter\u00e1 pot\u00eancia suficiente para chamar a aten\u00e7\u00e3o de qualquer Projeto SETI que esteja em opera\u00e7\u00e3o na dire\u00e7\u00e3o do feixe, ao longo de v\u00e1rios milhares de anos-luz.<br \/>\nIsso me fez lembrar de que muita gente, incluindo pesos-pesados como Jared Diamond, acha est\u00fapida a ideia de tentar comunica\u00e7\u00e3o com outras esp\u00e9cies inteligentes &#8212; n\u00e3o porque a probabilidade de sucesso \u00e9 baixa, mas porque <em>n\u00e3o \u00e9 zero<\/em>.<br \/>\nA hist\u00f3ria da Terra nos ensina, afinal, que sempre que duas culturas entram em contato, a que for tecnologicamente menos sofisticada acaba esmagada ou escravizada pela pela que for mais.<br \/>\nDa\u00ed, o que chamo de <em>Paradoxo dos Povos Primitivos<\/em> (sei que soa politicamente incorreto, mas n\u00e3o resisti a usar tr\u00eas &#8220;P&#8221;s). Trata-se de dois argumentos aparentemente convincentes, mas que levam a conclus\u00f5es opostas.<br \/>\nArgumento 1: Toda cultura existente s\u00f3 existe porque \u00e9 capaz de dar a seus membros os meios para sobreviver no ambiente em que vivem e emprestar significado a suas vidas (se n\u00e3o fosse assim, darwinianamente, essas culturas j\u00e1 se teriam extinguido). Al\u00e9m disso, toda cultura \u00e9 como uma obra de arte, um produto \u00fanico da criatividade humana. Logo, o contato da nossa civiliza\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica com povos materialmente  menos sofisticados deve ser evitado, para que as culturas sejam preservadas. Afinal, o que nossa civiliza\u00e7\u00e3o faz por n\u00f3s \u00e9 exatamente o que a cultura deles faz por eles: fornecer meios de sobreviv\u00eancia e sentido. Nenhuma \u00e9 melhor que a outra. Qualquer interfer\u00eancia seria, al\u00e9m de indevida, arrogante.<br \/>\nArgumento 2. O argumento 1 reduz seres humanos a animais num zool\u00f3gico. Devemos ficar de fora, observando enquanto xam\u00e3s cometem sacrif\u00edcios humanos para fazer chover e crian\u00e7as morrem  de doen\u00e7as que poderiam ser evitadas se suas m\u00e3es lavassem as m\u00e3os com sab\u00e3o? Temos o direito de condenar uma popula\u00e7\u00e3o inteira ao analfabetismo, priv\u00e1-la da soma total das conquistas do restante da humanidade &#8212; m\u00fasica, ci\u00eancia, literatura, cinema? Da possibilidade de empresta novos sentidos a suas vidas &#8212; da oportunidade de serem m\u00e9dicos, engenheiros, escritores, monges budistas, padres? Ao n\u00e3o interferir, n\u00e3o estamos sendo arrogantes, preservando-os para nosso pr\u00f3prio deleite e privando-os da liberdade de escolha?<br \/>\nApresentados os argumentos, deixo quest\u00e3o final: supondo que uma civiliza\u00e7\u00e3o mais avan\u00e7ada que a nossa detecte o sinal &#8220;Hello from Earth&#8221; &#8212; voc\u00ea preferiria que eles se alinhassem com o argumento 1 ou com o 2?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quanto ao da semana passada: como foi desvendado logo no primeiro coment\u00e1rio, a solu\u00e7\u00e3o depende, apenas, de uma aplica\u00e7\u00e3o direta da f\u00f3rmula pra calcular a probabilidade de se obter &#8220;k&#8221; sucessos em &#8220;n&#8221; tentativas, onde cada tentativa individual tem uma probabilidade &#8220;p&#8221;, previamente conhecida. E a resposta \u00e9, mesmo, 8%. 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