{"id":441,"date":"2009-10-15T09:52:45","date_gmt":"2009-10-15T12:52:45","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/cretinas\/2009\/10\/desigualdade_de_bell\/"},"modified":"2009-10-15T09:52:45","modified_gmt":"2009-10-15T12:52:45","slug":"desigualdade_de_bell","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cretinas\/2009\/10\/15\/desigualdade_de_bell\/","title":{"rendered":"Desigualdade de Bell"},"content":{"rendered":"<p>Mec\u00e2nica qu\u00e2ntica \u00e9 um dom\u00ednio especialmente frustrante para o jornalismo cient\u00edfico: n\u00e3o importa o quanto os resultados desse campo sejam relevantes, fundamentais ou universais (o funcionamento da tela do seu computador, por exemplo, \u00e9 um fen\u00f4meno qu\u00e2ntico), dificilmente haver\u00e1 espa\u00e7o suficiente no jornal para explicar a coisa toda direito.<br \/>\nSomando-se isso \u00e0s vastas hordas de charlat\u00e3es que se aproveitam de distor\u00e7\u00f5es dos conceitos desse campo para faturar alto, o resultado \u00e9 desolador. N\u00e3o \u00e9 de se estranhar, portanto, que um resultado recente da f\u00edsica qu\u00e2ntica, importante tanto conceitual quanto tecnologicamente, tenha passado quase em branco: a detec\u00e7\u00e3o de uma viola\u00e7\u00e3o da desigualdade de Bell num circuito macrosc\u00f3pico.<br \/>\nDesembara\u00e7ando os poliss\u00edlabos,  isso quer dizer que uma daquelas propriedades malucas dos fen\u00f4menos qu\u00e2nticos (tipo, o resultado da medi\u00e7\u00e3o depender da forma como a observa\u00e7\u00e3o \u00e9 realizada) foi comprovada num sistema grande o bastante para ser visto a olho nu.<br \/>\nIsso \u00e9 importante porque representa (mais) uma prova de conceito de que os computadores qu\u00e2nticos podem ser vi\u00e1veis na pr\u00e1tica (afinal, voc\u00ea n\u00e3o vai querer na sua casa um computador que s\u00f3 pode ser consertado se o t\u00e9cnico tiver um microsc\u00f3pio de el\u00e9trons, certo?).<br \/>\nO resultado est\u00e1 na <a href=\"http:\/\/www.physorg.com\/news172936800.html\">Nature de 24 de setembro<\/a>.<br \/>\nMas a alma da coisa, ao menos para mim, n\u00e3o \u00e9 a possibilidade tecnol\u00f3gica, e sim a tal da viola\u00e7\u00e3o da Desigualdade de Bell. Essa viola\u00e7\u00e3o representa um choque filos\u00f3fico t\u00e3o grande quanto foram a Relatividade ou os Teoremas de G\u00f6del, mas recebeu muito menos aten\u00e7\u00e3o do p\u00fablico em geral.<br \/>\nA desigualdade em si \u00e9 bem simples, e representa uma afirma\u00e7\u00e3o bastante corriqueira sobre propriedades de conjuntos.<br \/>\nImagine o conjunto de todos os blogueiros do Science Blogs Brasil. Agora, divida-o em tr\u00eas subconjuntos n\u00e3o mutuamente excludentes (digamos, os blogueiros com mais de 60 quilos, os blogueiros vegetarianos e os blogueiros do sexo feminino).<br \/>\nAgora, vamos chamar o primeiro conjunto de Q, o segundo de V, e o terceiro, F. E vamos adotar a conven\u00e7\u00e3o de que &#8220;()&#8221; significam &#8220;n\u00famero de&#8221;. Assim, (Q) significa &#8220;o n\u00famero de blogueiros com mais de 60 quilos&#8221;. E &#8220;~&#8221; significa a aus\u00eancia de uma propriedade. Assim, V ~F representa o conjunto de blogueiros vegetarianos que n\u00e3o s\u00e3o mulheres.<br \/>\nAinda comigo?<br \/>\nO que a Desigualdade de Bell diz \u00e9 que:<br \/>\n(Q ~V)+(V ~F) &gt;= (Q ~F).<br \/>\nOu: o total de blogueiros com mais de 60 quilos de ambos os sexos, excluindo-se os vegetarianos, mais o total de blogueiros vegetarianos, menos as mulheres que porventura mantenham esse tipo de dieta, \u00e9 maior ou igual que o total de blogueiros com mais de 60 quilos que n\u00e3o s\u00e3o mulheres.<br \/>\nIsso pode n\u00e3o parecer, assim, l\u00e1 muito autoevidente, mas se voc\u00ea pensar um pouco vai concluir que a rela\u00e7\u00e3o expressa na desigualdade \u00e9 uma verdade l\u00f3gica t\u00e3o necess\u00e1ria quanto, digamos, A ou ~A.<br \/>\nPior: que \u00e9 v\u00e1lida para qualquer sistema de tr\u00eas subconjuntos n\u00e3o mutuamente excludentes de um conjunto maior. No conjunto dos brasileiros, por exemplo, Q, V e F poderiam ser o total de eleitores do Lula, o total de torcedores do N\u00e1utico e o total de loiros de olhos azuis, respectivamente.<br \/>\nNa mec\u00e2nica qu\u00e2ntica, no entanto, a desigualdade \u00e9 consistentemente <em>violada<\/em>.<br \/>\nN\u00e3o est\u00e1 chocado ainda?<br \/>\nRepetindo: um fato l\u00f3gico necess\u00e1rio, uma propriedade intr\u00ednseca dos conjuntos, simplesmente <em>n\u00e3o se aplica<\/em> quando esses conjuntos representam propriedades de part\u00edculas subat\u00f4micas. Experimento ap\u00f3s experimento, a propor\u00e7\u00e3o prevista por pura l\u00f3gica n\u00e3o se confirma na pr\u00e1tica. (<a href=\"http:\/\/faraday.physics.utoronto.ca\/PVB\/Harrison\/BellsTheorem\/Flash\/Mermin\/Mermin.html\">Aqui h\u00e1 um tutorial animado sobre o assunto<\/a>).<br \/>\nIsso \u00e9 quase como dizer que foi descoberto um canto do universo onde 2+2=23.765.982.<br \/>\nUma explica\u00e7\u00e3o poss\u00edvel pra a viola\u00e7\u00e3o \u00e9 que as part\u00edculas, em princ\u00edpio, n\u00e3o pertencem a nenhum subconjunto, n\u00e3o at\u00e9 que sejam medidas. Como uma caixa onde haja, digamos, coisas quadradas, coisas vermelhas e coisas de pl\u00e1stico, mas onde cada objeto s\u00f3 assume as caracter\u00edsticas de cor, forma e material quando \u00e9 retirado de l\u00e1.<br \/>\n(Advert\u00eancia: ao contr\u00e1rio do que o seu guru qu\u00e2ntico favorito pode ter dito, &#8220;medi\u00e7\u00e3o&#8221; n\u00e3o \u00e9 o mesmo que &#8220;observa\u00e7\u00e3o por uma entidade consciente&#8221;. O contato com um f\u00f3ton pode muito bem contar como uma medi\u00e7\u00e3o, mesmo que n\u00e3o haja nenhum olho na vizinhan\u00e7a para captar o f\u00f3ton; sim, a \u00e1rvore <strike>cai<\/strike> faz barulho ao cair, mesmo sem ningu\u00e9m pra ouvi-la)<br \/>\nOutras explica\u00e7\u00f5es envolvem comunica\u00e7\u00e3o acima da velocidade da luz, envio de sinais para o passado ou a divis\u00e3o do universo em multiversos cada vez que uma medi\u00e7\u00e3o \u00e9 feita. Ou alguma outra coisa.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mec\u00e2nica qu\u00e2ntica \u00e9 um dom\u00ednio especialmente frustrante para o jornalismo cient\u00edfico: n\u00e3o importa o quanto os resultados desse campo sejam relevantes, fundamentais ou universais (o funcionamento da tela do seu computador, por exemplo, \u00e9 um fen\u00f4meno qu\u00e2ntico), dificilmente haver\u00e1 espa\u00e7o suficiente no jornal para explicar a coisa toda direito. 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