{"id":446,"date":"2009-10-23T07:37:55","date_gmt":"2009-10-23T10:37:55","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/cretinas\/2009\/10\/paradoxo_de_sexta_46\/"},"modified":"2009-10-23T07:37:55","modified_gmt":"2009-10-23T10:37:55","slug":"paradoxo_de_sexta_46","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cretinas\/2009\/10\/23\/paradoxo_de_sexta_46\/","title":{"rendered":"Paradoxo de sexta (46)"},"content":{"rendered":"<p>O de sexta passada, o da Onipot\u00eancia (na vers\u00e3o de Mackie) suscitou v\u00e1rias pontos interessantes de discuss\u00e3o, mas eu destaco dois que me pareceram os mais pertinentes \u00e0 quest\u00e3o imediata:<br \/>\n<em>1. Tudo depende de como se define onipot\u00eancia.<\/em><br \/>\n\u00c9 a\u00ed que reside a solu\u00e7\u00e3o cl\u00e1ssica de Tom\u00e1s de Aquino, que redefine onipot\u00eancia como a capacidade de fazer <em>tudo que n\u00e3o seja logicamente imposs\u00edvel<\/em>. Esse resultado parece satisfazer muita gente &#8212; o pr\u00f3prio Mackie, que escreveu um calhama\u00e7o de argumentos contra a exist\u00eancia de Deus, considerava-o aceit\u00e1vel &#8212; mas a mim, pelo menos, ele me parece capcioso, muito parecido com a Fal\u00e1cia do Verdadeiro Escoc\u00eas (&#8220;Nenhum escoc\u00eas \u00e9 ped\u00f3filo!&#8221; &#8220;Ei, mas o McCloud foi preso ontem em flagrante com uma menina de oito anos!&#8221; &#8220;Ah, ningu\u00e9m que fa\u00e7a uma barbaridade dessas \u00e9 um verdadeiro escoc\u00eas no cora\u00e7\u00e3o!&#8221;).<br \/>\nEnfim: se \u00e9 preciso redefinir um termo para excluir explicitamente os absurdos, isso, a meu ver, s\u00f3 refor\u00e7a a ideia de que o termo em si \u00e9 absurdo. Ao definir &#8220;quadrado&#8221;, por exemplo, n\u00e3o \u00e9 preciso acrescentar a ressalva de que &#8220;esta defini\u00e7\u00e3o exclui os c\u00edrculos&#8221;.<br \/>\n(Ali\u00e1s, essa \u00e9 uma sensa\u00e7\u00e3o que a maioria dos argumentos te\u00edstas me d\u00e1, a de que as defini\u00e7\u00f5es s\u00e3o postas numa c\u00e2mara de tortura e espancadas, esticadas, amputadas e marcadas a ferro quente at\u00e9 que digam o que o argumentador queria ouvir. A Suma Teol\u00f3gica \u00e9 bem assim&#8230;)<br \/>\n<em>2. O paradoxo fala de um ser onipotente gen\u00e9rico, n\u00e3o em Deus<\/em><br \/>\nEssa pode parecer uma distin\u00e7\u00e3o irrelevante, mas n\u00e3o \u00e9. Na verdade, o paradoxo \u00e9 muito mais danoso \u00e0 ideia judaico-crit\u00e3-isl\u00e2mica de deus (onipotente, onisciente, onibenevolente, criador do Universo, fonte das obriga\u00e7\u00f5es morais, merecedor de adora\u00e7\u00e3o, colecionador de prep\u00facios, advers\u00e1rios dos contraceptivos, coletor de d\u00edzimos, recompensador de homens-bomba, etc, etc) do que, digamos, a Zog, a criatura onipotente do Planeta W.<br \/>\nPrimeiro, porque ele revela uma incompatibilidade entre um criador onipotente e o livre-arb\u00edtrio das criaturas. Mackie tentou contornar isso pressupondo dois tipos de onipot\u00eancia, sendo a de Tipo I a capacidade infinita de agir, e a de Tipo II, a capacidade infinita de determinar as a\u00e7\u00f5es dos outros e as pr\u00f3prias. Ele poderia ent\u00e3o, valer-se da onipot\u00eancia Tipo II para abster-se de exercer controle sobre suas criaturas.<br \/>\nO argumento, no entanto, fica bem convoluto a partir desse ponto, e no fim a coisa acaba gerando inconsist\u00eancias. De novo.<br \/>\nOutro ponto \u00e9 que a pr\u00f3pria solu\u00e7\u00e3o de Aquino \u00e9 insatisfat\u00f3ria, quando aplicada a uma divindade criadora do Universo: bolas, se o cara criou tudo que existe, ele tamb\u00e9m criou as leis da l\u00f3gica. Como pode ser limitado por elas? A menos que as leis da l\u00f3gica sejam anteriores a ele e ele tenha de se submeter a elas. Mas, ent\u00e3o, elas (a) seriam mais poderosas que Deus e, (b) teriam de ter sido criadas antes dele. Por quem?<br \/>\nDe volta \u00e0 c\u00e2mara de tortura&#8230;<br \/>\nBom, vamos ao desta semana. Desta vez n\u00e3o trarei um paradoxo, mas um enigma leve, adaptado do mais recente livro de <a href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Ian_Stewart_(mathematician)\">Ian Stewart<\/a>:<br \/>\nSuponha que voc\u00ea \u00e9 um ladr\u00e3o que invadiu uma casa e achou uma c\u00f4moda com seis gavetas. No escuro, come\u00e7a a esvazi\u00e1-las, tentando, pelo tato e pelo feixe estreito de sua lanterna, encontrar algo de valor. De repente ouve um ru\u00eddo. O dono da casa voltou!<br \/>\nSendo um ladr\u00e3o rom\u00e2ntico, na tradi\u00e7\u00e3o cavalheiresca e n\u00e3o-violenta, voc\u00ea prefere fugir a confrontar sua v\u00edtima. Rapidamente, antes de voltar \u00e0 janela, voc\u00ea retorna o conte\u00fado \u00e0s gavetas &#8212; voc\u00ea havia feito seis pilhas no ch\u00e3o, uma para cada compartimento. Na pressa, no entanto, voc\u00ea simplesmente enfia uma pilha de conte\u00fado em cada gaveta ao acaso, sem se preocupar em devolver cada uma \u00e0 origem.<br \/>\nSaltando pela janela no instante em que as luzes se acendem no corredor, voc\u00ea se v\u00ea pensando em qual a chance de ter acertado, por pura sorte, a distribui\u00e7\u00e3o das pilhas entre as gavetas. E faz a si mesmo a seguinte pergunta: qual a probabilidade de eu ter errado uma gaveta s\u00f3?<br \/>\nAjude nosso amigo ladr\u00e3o a sanar esta d\u00favida cruel!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O de sexta passada, o da Onipot\u00eancia (na vers\u00e3o de Mackie) suscitou v\u00e1rias pontos interessantes de discuss\u00e3o, mas eu destaco dois que me pareceram os mais pertinentes \u00e0 quest\u00e3o imediata: 1. 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