{"id":471,"date":"2010-01-18T06:42:11","date_gmt":"2010-01-18T09:42:11","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/cretinas\/2010\/01\/sos_liberdade_de_expressao\/"},"modified":"2010-01-18T06:42:11","modified_gmt":"2010-01-18T09:42:11","slug":"sos_liberdade_de_expressao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cretinas\/2010\/01\/18\/sos_liberdade_de_expressao\/","title":{"rendered":"SOS liberdade de express\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>Um espectro assombra o pa\u00eds: o espectro da relativiza\u00e7\u00e3o da liberdade de express\u00e3o e informa\u00e7\u00e3o. N\u00e3o se trata, no entanto, de um esp\u00edrito novo, mas de uma assombra\u00e7\u00e3o antiga, quase um membro da fam\u00edlia, o nosso fantasma de Canterville particular.<br \/>\nEst\u00e1 presente, por exemplo, na criminaliza\u00e7\u00e3o da &#8220;apologia do crime&#8221;; aparece nas leis e propostas de lei, supostamente bem-intencionadas, proibindo express\u00f5es de &#8220;preconceito&#8221;, &#8220;ofensa&#8221; e &#8220;discrimina\u00e7\u00e3o&#8221; contra grupos, reais ou imaginados, dentro da sociedade; consubstancia-se na decis\u00e3o recente do STF que mant\u00e9m aberta a possibilidade de censura pr\u00e9via \u00e0 imprensa; e ganha corpo no novo Plano Nacional de Direitos Humanos, em cujo cap\u00edtulo sobre liberdade de express\u00e3o, numa manobra de novil\u00edngua digna de Orwell, o verbo &#8220;coibir&#8221; aparece quatro vezes, e onde se pede a ado\u00e7\u00e3o de medidas judiciais contra a defesa da pena de morte &#8212; como se discutir a legisla\u00e7\u00e3o penal de repente virasse crime.<br \/>\nEstamos, como sociedade, embarcados num processo tr\u00e1gico onde quem se sente ofendido ou contrariado por uma opini\u00e3o ou informa\u00e7\u00e3o n\u00e3o adota mais as sa\u00eddas cl\u00e1ssicas que existem desde tempos imemoriais &#8212; ofender de volta, contra-argumentar &#8212; mas prefere chamar o advogado e a pol\u00edcia.<br \/>\nA sociedade brasileira parece ter se esquecido de que, <em>do mesmo modo que pornografia e mau gosto s\u00e3o o pre\u00e7o da liberdade art\u00edstica, opini\u00f5es repugnantes s\u00e3o o pre\u00e7o da livre circula\u00e7\u00e3o de ideias, que deveria ser um valor fundamental<\/em>. Se n\u00e3o pelo fato de que a livre express\u00e3o \u00e9 um direito b\u00e1sico, pelo simples fato de que a luz do dia \u00e9, sempre, o melhor desinfetante.<br \/>\nClaro, <em>liberdade de express\u00e3o<\/em> n\u00e3o \u00e9 o mesmo que <em>liberdade de a\u00e7\u00e3o<\/em>. At\u00e9 mesmo a lei brasileira reconhece uma distin\u00e7\u00e3o entre apologia do crime e o crime em si. Liberdade de express\u00e3o tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 liberdade de incita\u00e7\u00e3o: uma coisa \u00e9 (a) escrever um artigo dizendo que os blogueiros de ci\u00eancia s\u00e3o uma ra\u00e7a inferior e parasitas da sociedade, outra \u00e9 (b) montar um com\u00edcio para juntar uma turba e sair \u00e0 ca\u00e7a deles para linch\u00e1-los.<br \/>\nAlgu\u00e9m poderia argumentar que &#8220;b&#8221; \u00e9 consequ\u00eancia l\u00f3gica de &#8220;a&#8221;,  logo se &#8220;b&#8221; \u00e9 proibido, &#8220;a&#8221; tamb\u00e9m deveria ser. Mas isso n\u00e3o \u00e9 verdade: se quem acredita em &#8220;a&#8221; n\u00e3o tiver meios de ventilar suas ideias, a no\u00e7\u00e3o de que os blogueiros s\u00e3o uma praga para a sociedade n\u00e3o ser\u00e1 contestada publicamente e crescer\u00e1 \u00e0s escondidas, o que s\u00f3 torna a ocorr\u00eancia de &#8220;b&#8221; ainda mais prov\u00e1vel.<br \/>\nRepassando os quatro argumentos de John Stuart Mill em defesa da liberdade de express\u00e3o, que continuam t\u00e3o v\u00e1lidos hoje quanto duzentos anos atr\u00e1s:<br \/>\n<em><br \/>\n1. Uma opini\u00e3o proibida pode acabar se mostrando verdadeira; afinal, ningu\u00e9m \u00e9 infal\u00edvel;<br \/>\n2. Mesmo errada, a opini\u00e3o proibida pode conter uma verdade parcial, e \u00e9 apenas pela colis\u00e3o entre a opini\u00e3o consensual da sociedade &#8212; que raramente est\u00e1 de todo correta &#8212; e alternativas a ela \u00e9 que a verdade mais completa tem alguma chance de surgir;<br \/>\n3. Mesmo se a opini\u00e3o consensual da sociedade for a verdade mais perfeita e completa, a menos que seja duramente atacada e defendida, ser\u00e1 sustentada apenas como mais um preconceito, com pouca compreens\u00e3o de sua base racional;<br \/>\n4. O pr\u00f3prio significado da verdade corre o risco de se perder quando ela, protegida de todo tipo de contesta\u00e7\u00e3o, se transforma em dogma.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um espectro assombra o pa\u00eds: o espectro da relativiza\u00e7\u00e3o da liberdade de express\u00e3o e informa\u00e7\u00e3o. N\u00e3o se trata, no entanto, de um esp\u00edrito novo, mas de uma assombra\u00e7\u00e3o antiga, quase um membro da fam\u00edlia, o nosso fantasma de Canterville particular. 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