{"id":7,"date":"2007-12-25T17:25:00","date_gmt":"2007-12-25T20:25:00","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/cretinas\/2007\/12\/deus\/"},"modified":"2007-12-25T17:25:00","modified_gmt":"2007-12-25T20:25:00","slug":"deus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cretinas\/2007\/12\/25\/deus\/","title":{"rendered":"Deus"},"content":{"rendered":"<p>J\u00e1 que este \u00e9 um blogue sobre id\u00e9ias cretinas, vamos come\u00e7ar com a maior de todas &#8212; o te\u00edsmo. Esta postagem certamente n\u00e3o tentar\u00e1 exaurir os argumentos contra a exist\u00eancia de Deus, j\u00e1 que isso \u00e9 tarefa para livros inteiros (fortemente recomendados: <a href=\"http:\/\/www.amazon.com\/Miracle-Theism-Arguments-Against-Existence\/dp\/019824682X\/ref=pd_bbs_sr_1?ie=UTF8&amp;s=books&amp;qid=1198614416&amp;sr=8-1\">&#8220;Miracle of Theism&#8221;<\/a> e <a href=\"http:\/\/www.amazon.com\/Atheism-Case-Against-Skeptics-Bookshelf\/dp\/087975124X\/ref=pd_bbs_sr_1?ie=UTF8&amp;s=books&amp;qid=1198614488&amp;sr=8-1\">&#8220;The Case Against God&#8221;<\/a>), mas tentar\u00e1 apresentar, rapidamente, uma &#8220;rationale&#8221; para que se possa considerar essa suposta exist\u00eancia uma id\u00e9ia cretina.<\/p>\n<p>Antes de mais nada, vamos reconhecer que &#8220;Deus&#8221; \u00e9 uma palavra pra l\u00e1 de el\u00e1stica: \u00e9 poss\u00edvel, prov\u00e1vel at\u00e9, que dois crentes de um mesmo credo n\u00e3o consigam concordar quanto aos detalhes daquilo em que, de fato, acreditam. Para simplificar, vou assumir tr\u00eas conjuntos de defini\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<ol>\n<li><span style=\"font-weight: bold\">Deus como met\u00e1fora:<\/span> coisas do tipo &#8220;Deus \u00e9 amor&#8221;, &#8220;Deus \u00e9 a esperan\u00e7a no cora\u00e7\u00e3o dos homens&#8221;, &#8220;Deus \u00e9 o instinto para fazer o bem&#8221;. Pessoalmente, prefiro dizer que amor \u00e9 amor, esperan\u00e7a \u00e9 esperan\u00e7a, propens\u00e3o para o bem \u00e9 propens\u00e3o para o bem, e ponto. Ningu\u00e9m precisa da palavrinha &#8220;Deus&#8221; aqui.<\/li>\n<li><span style=\"font-weight: bold\">Deus como o Universo: <\/span>\u00e9 o que chamo de Deus de Spinoza-Einstein, dois pensadores que viam na totalidade do cosmo, ou no conjunto das leis da ci\u00eancia, ou na coer\u00eancia dessas leis, algo para chamar de Deus. Ok, eu poderia chamar as leis da ci\u00eancia de Olavo Br\u00e1s Martins dos Guimar\u00e3es Bilac, e da\u00ed? Esse Deus tamb\u00e9m n\u00e3o me diz respeito.<\/li>\n<li><span style=\"font-weight: bold\">Deus como o criador, causa primeira, sustent\u00e1culo e administrador do Universo, onipotente, onipresente, onisciente, infintamente bom, fonte da \u00e9tica e da moral, salvador e juiz da humanidade, digno de respeito, venera\u00e7\u00e3o e adora\u00e7\u00e3o:<\/span>   este cara \u00e9 a id\u00e9ia cretina. Ou, expandindo o racioc\u00ednio: ele ou n\u00e3o existe, ou \u00e9 irrelevante.<\/li>\n<\/ol>\n<p>A quest\u00e3o fundamental, claro, \u00e9 de evid\u00eancia. Digo, quem afirma que o Universo foi criado por uma intelig\u00eancia onipotente e infinitamente bondosa (&#8220;onibenevolente&#8221; parece ser a palavra) deve ter evid\u00eancias, sinais de onipot\u00eancia de onibenevol\u00eancia para mostrar, como Sherlock Holmes ao apontar um suspeito.<\/p>\n<p>Mas a evid\u00eancia que temos no mundo n\u00e3o \u00e9 de benevol\u00eancia, muito pelo contr\u00e1rio: temos o que os fil\u00f3sofos chamam de &#8220;evid\u00eancia do mal&#8221; (os te\u00f3logos chamam de &#8220;problema do mal&#8221;, porque para eles \u00e9 um problema). Se Deus \u00e9 infinitamente bom e infinitamente poderoso e criou e atua no mundo, ent\u00e3o temos de concluir que tsunamis, a aids, o c\u00e2ncer, o terremoto que atingiu Minas Gerais e matou uma menininha, isso tudo sem falar no sofrimento sem fim do mundo animal &#8212; a dor das f\u00eameas no parto, a fome que leva o  predador a matar a presa, o medo e a dor da presa, as doen\u00e7as, parasitoses e tudo mais &#8212; s\u00e3o atos de bondade.<\/p>\n<p>Claro, essa conclus\u00e3o perverte o pr\u00f3prio sentido da palavra &#8220;bondade&#8221;. Ser &#8220;bom&#8221; vira uma outra coisa. Nessa acep\u00e7\u00e3o, at\u00e9 um torturador pode ser &#8220;bom&#8221;: ele castiga o corpo para salvar a alma. Esta \u00e9, creio, a intui\u00e7\u00e3o sinistra por tr\u00e1s de inquisi\u00e7\u00f5es e homens-bomba.<\/p>\n<p>Uma r\u00e9plica poss\u00edvel \u00e9 de que a bondade de Deus est\u00e1 para al\u00e9m da nossa compreens\u00e3o. Que ele \u00e9 bom, mas de um jeito que n\u00e3o estamos preparados para entender. Pondo de lado a quest\u00e3o de por que o onipotente n\u00e3o nos fez um pouco mais espertos (o que <span style=\"font-style: italic\">poderia<\/span> fazer &#8212; onipot\u00eancia, ahn?), isso gera um novo problema:  falar de Deus passa a ser imposs\u00edvel se as palavras, aplicadas a ele, assumem um significado que n\u00e3o \u00e9 o delas mesmas. Um sentido novo, misterioso.<\/p>\n<p>Deus passa a ser incognosc\u00edvel. Mas tudo que nos toca pode ser conhecido, se n\u00e3o  completamente, ao menos na extens\u00e3o e dura\u00e7\u00e3o do contato, do toque em si.  Se n\u00e3o podemos saber nada de Deus, ent\u00e3o ele n\u00e3o tem como nos tocar; \u00e9 como se n\u00e3o existisse. Veredicto: Se existe e \u00e9 &#8220;bom&#8221;, Deus \u00e9 irrelevante.<\/p>\n<p>E quanto \u00e0 onipot\u00eancia? E se Deus n\u00e3o for bom, mas existir e for o Criador Todo-Poderoso? De novo: qual a evid\u00eancia da a\u00e7\u00e3o de um ente onipotente no Universo? H\u00e1 quem cite a adapta\u00e7\u00e3o cuidadosa das formas de vida a seus nichos como prova de design, de um plano. Ser\u00e1 que nunca ocorreu a essas pessoa que adapta\u00e7\u00e3o \u00e9 um sinal de limita\u00e7\u00e3o? Digo, aves s\u00e3o aerodin\u00e2micas, peixes s\u00e3o hidrodin\u00e2micos, as formas algongadas adaptadas ao deslocamento em seus meios respectivos. <\/p>\n<p>Mas se fossem produto de um criador onipotente, por que os peixes n\u00e3o seriam cubos e as aves, esferas? O engenheiro que cria um projeto \u00e9 obrigado a levar em considera\u00e7\u00e3o limita\u00e7\u00f5es de material, energia e as leis da F\u00edsica, da\u00ed a necessidade de design. Repetindo: o design \u00e9 necess\u00e1rio apenas porque o engenheiro n\u00e3o tem recursos infinitos a seu dispor e precisa se curvar \u00e0s leis na Natureza.<\/p>\n<p>Por qual motivo, ent\u00e3o, as cria\u00e7\u00f5es de um ser onipotente precisariam de design?<\/p>\n<p>Veredicto: A id\u00e1eia de um criador onipontente \u00e9 uma id\u00e9ia cretina.<\/p>\n<p>Ah, um P.S. sobre a quest\u00e3o da causa primeira &#8212; a no\u00e7\u00e3o de que o Universo precisa ter sido causado por algo ou algu\u00e9m, para evitar uma rergress\u00e3o infinita de causas. Antes de mais nada, note-se que n\u00e3o h\u00e1 como ligar logicamente a &#8220;causa primeira&#8221; a um ser onipotente, onipresente, bom, fonte da obriga\u00e7\u00e3o moral, digno de adora\u00e7\u00e3o, etc., etc. Em segundo lugar: qual o problema com regress\u00f5es infinitas? Terceiro: se regress\u00f5es infinitas realmente s\u00e3o um problema e tudo precisa mesmo de uma causa, ent\u00e3o quem &#8220;causou&#8221; Deus?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>J\u00e1 que este \u00e9 um blogue sobre id\u00e9ias cretinas, vamos come\u00e7ar com a maior de todas &#8212; o te\u00edsmo. 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