{"id":104,"date":"2012-11-07T10:46:04","date_gmt":"2012-11-07T13:46:04","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/curupira\/?p=104"},"modified":"2012-11-07T10:46:04","modified_gmt":"2012-11-07T13:46:04","slug":"questao-indigena-mistificacao-ruralista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/curupira\/2012\/11\/07\/questao-indigena-mistificacao-ruralista\/","title":{"rendered":"Carl Sagan Guarani-Kaiow\u00e1"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/curupira\/wp-content\/uploads\/sites\/244\/2012\/11\/carlsagansmile31hj.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-0\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-113\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/curupira\/wp-content\/uploads\/sites\/244\/2012\/11\/carlsagansmile31hj.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"254\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/curupira\/wp-content\/uploads\/sites\/244\/2012\/11\/carlsagansmile31hj.jpg 500w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/curupira\/wp-content\/uploads\/sites\/244\/2012\/11\/carlsagansmile31hj-300x152.jpg 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/curupira\/wp-content\/uploads\/sites\/244\/2012\/11\/carlsagansmile31hj-200x102.jpg 200w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><\/p>\n<p>CARL SAGAN (1934-1996) entrou na minha vida duas vezes. A primeira foi quando eu era crian\u00e7a e passava as manh\u00e3s vendo <em>Cosmos<\/em> na Globo (ainda n\u00e3o tinham inventado o Show da Xuxa &#8212; de fato, desconfio que a pr\u00f3pria ainda estava naquela fase &#8220;50 Tons de Cinza&#8221; <em>avant la lettre<\/em>). Sagan era t\u00e3o carism\u00e1tico que eu conseguia me manter atento ao programa mesmo sem entender nada. At\u00e9 hoje, 30 anos depois, me lembro de sua explica\u00e7\u00e3o para o efeito Doppler, que prontamente sa\u00ed repetindo em ocasi\u00f5es sociais, para afli\u00e7\u00e3o de minha m\u00e3e. A segunda vez foi no come\u00e7o da d\u00e9cada passada, quando enfim li seu cl\u00e1ssico <em>O Mundo Assombrado pelos Dem\u00f4nios<\/em>. Se houve um \u00fanico livro que mudou completamente minha vida foi essa b\u00edblia do ceticismo e do pensamento cr\u00edtico.<\/p>\n<p>Nesta semana, nerds, ateus e c\u00e9ticos do mundo inteiro comemoram a Semana Sagan, marcada pelo anivers\u00e1rio do cientista, dia 9 de novembro. Este blog resolveu prestar uma homenagem a Sagan relembrando uma de suas maiores contribui\u00e7\u00f5es \u00e0 humanidade: o &#8220;baloney detection kit&#8221;, ou &#8220;kit de detec\u00e7\u00e3o de balelas&#8221;, numa tradu\u00e7\u00e3o benevolente.<\/p>\n<p>Trata-se de uma se\u00e7\u00e3o de <em>O Mundo Assombrado pelos Dem\u00f4nios<\/em> na qual Sagan resume fal\u00e1cias argumentativas comuns e explica como desarm\u00e1-las. \u00c9 uma esp\u00e9cie de micromanual de bolso do ceticismo, ferramenta fundamental para cientistas, mas tamb\u00e9m jornalistas e, na verdade, qualquer pessoa que precise avaliar proposi\u00e7\u00f5es, de qualquer tipo. O kit funciona especialmente bem com proposi\u00e7\u00f5es de pol\u00edticos, que precisam o tempo todo sustentar argumentos contradit\u00f3rios entre si.<\/p>\n<p>A saraivada de artigos antiind\u00edgenas que tem tomado as p\u00e1ginas de opini\u00e3o dos jornais nas \u00faltimas semanas, quando estourou a &#8220;nova&#8221; crise guarani em Mato Grosso do Sul, presta-se bem ao escrut\u00ednio pelo kit de Sagan. Dois textos merecem aten\u00e7\u00e3o especial por terem sido escritos por uma missivista especialmente inteligente, a presidente da CNA (Confedera\u00e7\u00e3o da Agricultura e Pecu\u00e1ria do Brasil), a tamb\u00e9m senadora K\u00e1tia Abreu (PSD-TO). Em suas duas \u00faltimas colunas na Folha de S.Paulo, K\u00e1tia <a href=\"http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/fsp\/mercado\/74356-ate-abuso-tem-limite.shtml\">ataca primeiro a AGU<\/a> (Advocacia-Geral da Uni\u00e3o), por ter suspendido uma portaria para l\u00e1 de controversa que atropelava os direitos ind\u00edgenas em v\u00e1rias inst\u00e2ncias, depois a Funai, a <a href=\"http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/fsp\/mercado\/75767-a-tragedia-da-funai.shtml\">quem acusa de fomentar conflitos <\/a>no campo.<\/p>\n<p>Quem acompanhou o debate sobre o C\u00f3digo Florestal no Congresso reconhecer\u00e1 em ambos os artigos semelhan\u00e7as mais do que casuais com os pontos de fala da bancada ruralista naquela ocasi\u00e3o. Aqui tamb\u00e9m se fala de &#8220;inseguran\u00e7a jur\u00eddica&#8221;, &#8220;pequenos agricultores&#8221;, &#8220;soberania nacional&#8221; e da sempre presente amea\u00e7a das &#8220;ONGs internacionais&#8221;. Os textos jogam \u00e0 vontade com estat\u00edsticas, escondendo por tr\u00e1s de grandes n\u00fameros (12,64% do Brasil para 517 mil \u00edndios versus 39,2% do Brasil para 16,5 milh\u00f5es de agricultures) realidades regionais d\u00edspares, uma t\u00e1tica ret\u00f3rica j\u00e1 comentada <a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/curupira\/2012\/10\/novo-racismo-brasileiro\/\">aqui <\/a>e brilhantemente desmontada na pr\u00f3pria Folha por <a href=\"http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/fsp\/opiniao\/75748-muita-terra-pouco-indio.shtml\">Marcelo Leite<\/a>.<\/p>\n<p>Um eixo argumentativo, por\u00e9m, merece aten\u00e7\u00e3o especial, porque delineia a nova linha de ataque da CNA e da bancada ruralista contra os ind\u00edgenas: a de que o problema do \u00edndio, na verdade, n\u00e3o \u00e9 falta de terra, \u00e9 desassist\u00eancia. Escreve K\u00e1tia Abreu, em &#8220;ctrl+c ctrl+v&#8221; de um texto publicado dias antes pelo presidente da Federa\u00e7\u00e3o da Agricultura de MS:<\/p>\n<blockquote><p>\u00c9 simplifica\u00e7\u00e3o irreal e equivocada resumir o drama pelo qual passam os 170 \u00edndios da etnia guarani-kaiow\u00e1 a uma simples demanda por terra. As car\u00eancias dos \u00edndios, inclusive os que hoje ocupam dois hectares de uma fazenda no Mato Grosso do Sul, s\u00e3o muito mais amplas. Falar em terra \u00e9 tirar o foco da realidade e justificar a inoper\u00e2ncia do poder p\u00fablico.<\/p><\/blockquote>\n<p>A excelente revista Amanh\u00e3, do Globo, publicou ontem que a CNA lan\u00e7ar\u00e1 na semana que vem uma pesquisa mostrando as mazelas dos \u00edndios, que v\u00e3o al\u00e9m da terra. Repete-se o padr\u00e3o de comportamento em torno do C\u00f3digo Florestal: encomendar estudos para dar um verniz cient\u00edfico a uma posi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Mais do que isso, por\u00e9m, o argumento incorre em dois problemas saganianos cl\u00e1ssicos.<\/p>\n<p>Primeiro, ignora a <strong>Navalha de Occam<\/strong>, segundo a qual, se existem v\u00e1rias explica\u00e7\u00f5es concorrentes para um mesmo problema, a mais simples tende a ser a correta. Quem, como eu, j\u00e1 andou pelas terras kaiow\u00e1s, sabe que existe um problema fundamental de car\u00eancia de territ\u00f3rio e superpopula\u00e7\u00e3o das &#8220;reservas&#8221;. Os \u00edndios passam a depender de assist\u00eancia do governo (que n\u00e3o chega, causando mortes por desnutri\u00e7\u00e3o, alcoolismo e suic\u00eddios) porque n\u00e3o t\u00eam como se sustentar em ilhas territoriais min\u00fasculas, sem ca\u00e7a e arrendadas a pre\u00e7o de banana para plantadores de soja (frequentemente \u00e9 a op\u00e7\u00e3o que sobra). Sem poder subsistir na terra, o guarani \u00e9 levado \u00e0 changa nas destilarias, o que refor\u00e7a o ciclo de desagrega\u00e7\u00e3o social &#8212; embora eu n\u00e3o ache que a cana seja a culpada pelo drama dos kaiow\u00e1s, como acusa o document\u00e1rio pop <em>\u00c0 Sombra de um Del\u00edrio Verde<\/em>.<\/p>\n<p>O outro problema saganiano da argumenta\u00e7\u00e3o \u00e9 apresentar uma <strong>dicotomia falsa<\/strong> entre terra e outros problemas sabidamente existentes. Sagan chama isso de <strong>exclus\u00e3o do meio-termo<\/strong>. \u00c9 mais ou menos como quando um pol\u00edtico diz que tirar dinheiro de um programa qualquer criado por seu advers\u00e1rio permitiria construir &#8220;x casas populares&#8221;. As op\u00e7\u00f5es frequentemente n\u00e3o podem ser, e n\u00e3o s\u00e3o, excludentes.<\/p>\n<p>O fato de os \u00edndios estarem desassistidos, desnutridos e doentes e precisarem de aux\u00edlio do governo (e tamb\u00e9m, por que n\u00e3o, de alguma simpatia da sociedade &#8220;civilizada&#8221;, algo de que definitivamente n\u00e3o gozam em Mato Grosso do Sul) n\u00e3o lhes anula uma demanda leg\u00edtima pelo reconhecimento de terras que s\u00e3o <em>deles<\/em>. E que, no caso de Mato Grosso do Sul, foram-lhes arrancadas em tempos recentes pelo pr\u00f3prio governo para serem entregues ao &#8220;setor produtivo&#8221;. E cuja devolu\u00e7\u00e3o, convenhamos, n\u00e3o vai exatamente quebrar o pa\u00eds: as \u00e1reas guaranis j\u00e1 demarcadas, lembra Marcelo Leite, correspondem 0,4% do territ\u00f3rio de MS. Somadas, s\u00e3o menores que a cidade de S\u00e3o Paulo. Segundo <em>O Globo<\/em>, s\u00f3 os canaviais ocupam no Estado uma \u00e1rea equivalente a 4,3 cidades de S\u00e3o Paulo. Mais uma vez, \u00e9 preciso colocar as coisas em perspectiva.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>CARL SAGAN (1934-1996) entrou na minha vida duas vezes. A primeira foi quando eu era crian\u00e7a e passava as manh\u00e3s vendo Cosmos na Globo (ainda n\u00e3o tinham inventado o Show da Xuxa &#8212; de fato, desconfio que a pr\u00f3pria ainda estava naquela fase &#8220;50 Tons de Cinza&#8221; avant la lettre). 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