{"id":11,"date":"2012-08-02T17:53:44","date_gmt":"2012-08-02T20:53:44","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/curupira\/?p=11"},"modified":"2012-08-02T17:53:44","modified_gmt":"2012-08-02T20:53:44","slug":"os-sectarios-os-pe-virado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/curupira\/2012\/08\/02\/os-sectarios-os-pe-virado\/","title":{"rendered":"Os sect\u00e1rios e os do p\u00e9 virado"},"content":{"rendered":"<p>FAZ EXATOS DOIS ANOS que eu recebi o primeiro convite do Carlos Hotta para cometer um blog que discutisse meio ambiente no Brasil. Eram tempos interessantes no pa\u00eds: o debate sobre o C\u00f3digo Florestal pegava fogo no Congresso e a elei\u00e7\u00e3o presidencial era disputada por uma ambientalista &#8212; mas todo mundo sabia que quem iria levar seria sua ant\u00edtese. Eram tamb\u00e9m tempos interessantes para mim: sa\u00eda ap\u00f3s seis anos da editoria de Ci\u00eancia da <em>Folha de S. Paulo<\/em> para voltar a Bras\u00edlia, minha savana de origem, justamente para acompanhar mais de perto o debate ambiental.<\/p>\n<p>A combina\u00e7\u00e3o n\u00e3o deu certo na \u00e9poca por raz\u00f5es contratuais. Mas os tempos ficaram interessantes mais uma vez, ent\u00e3o c\u00e1 estamos: bem-vindos ao Curupira.<\/p>\n<p>Este blog empresta seu nome da criatura m\u00edtica de p\u00e9s virados que, no imagin\u00e1rio caboclo, funciona como uma esp\u00e9cie de fiscal do Ibama: imp\u00f5e quotas de ca\u00e7a, pro\u00edbe o abate de filhotes e f\u00eameas prenhes, pune quem desmata al\u00e9m do necess\u00e1rio. O curupira, por\u00e9m, \u00e9 mais pedag\u00f3gico que o Ibama: em vez de uma multa que o infrator jamais pagar\u00e1, imp\u00f5e-lhe como castigo a loucura: perder-se ou desaparecer na mata.<\/p>\n<p>Assemelha-se nisso a outro dem\u00f4nio do desenvolvimento sustent\u00e1vel, a sanguin\u00e1ria caipora (do tupi kaa-pora, ou &#8220;morador do mato&#8221;), cujas hist\u00f3rias, contadas pela minha bab\u00e1 nos j\u00e1 long\u00ednquos anos 80, nunca falharam em me fazer pensar duas vezes antes de estilingar um passarinho ou entrar no mato. Cheguei a considerar esta figura medonha para o t\u00edtulo do blog, mas lembrei-me de um detalhe: a caipora, como alguns fiscais do Ibama, \u00e9 corromp\u00edvel. Basta o cidad\u00e3o botar um fumo de rolo numa pedra e ela esquece sua &#8220;job description&#8221; e alivia para o criminoso. Fiquemos, pois, com o curupira.<\/p>\n<p>Escrevo este blog convicto de que alguma coisa se perdeu na discuss\u00e3o sobre meio ambiente na sociedade brasileira. Ao mesmo tempo em que o C\u00f3digo Florestal e a confer\u00eancia de Copenhague trouxeram a tem\u00e1tica para o hor\u00e1rio nobre do debate p\u00fablico, culminando numa elei\u00e7\u00e3o presidencial, criou-se uma polariza\u00e7\u00e3o est\u00fapida entre &#8220;ambientalistas&#8221; e &#8220;ruralistas&#8221; ou entre &#8220;ambientalistas&#8221; e &#8220;desenvolvimentistas&#8221;, como se a defesa do meio ambiente fosse uma quest\u00e3o ideol\u00f3gica ou partid\u00e1ria, como se nela houvesse &#8220;dois lados&#8221;.<\/p>\n<p>Essa bestagem fez v\u00edtimas tanto \u00e0 esquerda quanto \u00e0 direita no Brasil. Na esquerda, como o demonstrou a abertura das Olimp\u00edadas de Londres, a defesa do meio ambiente \u00e9 enxergada como &#8220;marinismo&#8221;, &#8220;oportunismo eleitoral&#8221; ou &#8220;fantasia&#8221;. Quando acaba o argumento, \u00e9 um &#8220;instrumento de domina\u00e7\u00e3o dos pa\u00edses ricos, que j\u00e1 desmataram tudo&#8221; etc. Coisas que a gente espera da esquerda, que vive mesmo de pregar r\u00f3tulos nos outros.<\/p>\n<p>Mas a direita, pelo menos neste pa\u00eds, costumava pensar com um tico mais de sofistica\u00e7\u00e3o. E virou modinha entre os &#8220;intelectuais de direita&#8221;, com o perd\u00e3o do oximoro, atacar a defesa do meio ambiente como sendo um instrumento de domina\u00e7\u00e3o do mundo da&#8230; esquerda! Assim, falam do &#8220;aquecimentismo global&#8221; como uma conspira\u00e7\u00e3o anticapitalista, sem mencionar entre as fileiras &#8220;aquecimentistas&#8221; (como nunca se cansou de lembrar meu amigo <a href=\"http:\/\/www.folha.com\/teoriadetudo\">Rafael Garcia<\/a>) not\u00f3rios comunistas como Angela Merkel e Nicolas Sarkozy. Quando acaba o argumento, usam o mesm\u00edssimo tigre de papel da esquerda: os &#8220;pa\u00edses ricos&#8221; e as &#8220;ONGs estrangeiras&#8221;. Que pregui\u00e7a.<\/p>\n<p>Sempre t\u00e3o orgulhosa de sua independ\u00eancia de pensamento, a direita no Brasil acabou papagaiando o mais tosco fundamentalismo norte-americano, que conseguiu transformar a ci\u00eancia numa quest\u00e3o de crer ou n\u00e3o crer. \u00c9 preciso fazer uma pausa para a reflex\u00e3o e lembrar, como diz o cientista americano Tom Lovejoy, que &#8220;conserva\u00e7\u00e3o&#8221; e &#8220;conservador&#8221; t\u00eam a mesma etimologia.<\/p>\n<p>Os ambientalistas exageram? Dimais da conta. Erram sempre que deixam de lado evid\u00eancias e usam argumentos religiosos. Um exemplo \u00e9 a maneira irracional como boa parte do movimento ambientalista tratou os transg\u00eanicos &#8212; demonizando a tecnologia em vez de olhar caso a caso. Outro \u00e9 a rea\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m at\u00e1vica \u00e0 energia nuclear. Em ambos os casos, o ambientalismo se afasta de quem deveria ser sua maior aliada, a ci\u00eancia, e aferra a um vago princ\u00edpio da precau\u00e7\u00e3o, cuja aplica\u00e7\u00e3o absoluta \u00e9 imposs\u00edvel.<\/p>\n<p>Mas talvez os ambientalistas sejam, no fim das contas, o setor menos sect\u00e1rio da sociedade. Evid\u00eancia disso \u00e9 a coisa mais bonita que j\u00e1 se escreveu sobre o assunto no Brasil:<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;Todos t\u00eam direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem comum de uso do povo e essencial \u00e0 sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder P\u00fablico o dever de defend\u00ea-lo e preserv\u00e1-lo para as presentes e futuras gera\u00e7\u00f5es.&#8221;<\/p><\/blockquote>\n<p>Este \u00e9 o &#8220;caput&#8221; do Artigo 225 da Constitui\u00e7\u00e3o de 88 e ser\u00e1 o mantra deste blog. Como o curupira, os constituintes n\u00e3o escolheram &#8220;lados&#8221;. Tinham objetivos mais altos em mente.<\/p>\n<p>PS: Foi apertar o bot\u00e3o de &#8220;publicar&#8221; e eu lembrei que o Scienceblogs Brasil <em>j\u00e1 tem<\/em> uma Caipora. Ou melhor, uma <a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/caapora\">Caapora<\/a>, dos zo\u00f3logos Luciano Moreira Lima, Rafael Marcondes e Guilherme Terra (que vai entrar na minha lista de apt\u00f4nimos), a quem pe\u00e7o desculpas por um quase-pl\u00e1gio involunt\u00e1rio e por eventuais ofensas \u00e0 sua entidade mitol\u00f3gica. Vou me lembrar de levar um rolo de fumo na pr\u00f3xima vez que for fazer uma trilha.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>FAZ EXATOS DOIS ANOS que eu recebi o primeiro convite do Carlos Hotta para cometer um blog que discutisse meio ambiente no Brasil. Eram tempos interessantes no pa\u00eds: o debate sobre o C\u00f3digo Florestal pegava fogo no Congresso e a elei\u00e7\u00e3o presidencial era disputada por uma ambientalista &#8212; mas todo mundo sabia que quem iria [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":495,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":[],"footnotes":""},"categories":[2],"tags":[],"class_list":["post-11","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-geral"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/curupira\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/curupira\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/curupira\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/curupira\/wp-json\/wp\/v2\/users\/495"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/curupira\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/curupira\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/curupira\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/curupira\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/curupira\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}