{"id":138,"date":"2012-11-20T21:27:04","date_gmt":"2012-11-21T00:27:04","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/curupira\/?p=138"},"modified":"2012-11-20T21:27:04","modified_gmt":"2012-11-21T00:27:04","slug":"ultimo-heroi-vitoriano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/curupira\/2012\/11\/20\/ultimo-heroi-vitoriano\/","title":{"rendered":"O \u00faltimo her\u00f3i vitoriano"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_139\" style=\"width: 470px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/curupira\/wp-content\/uploads\/sites\/244\/2012\/11\/jenkins3.r.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-0\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-139\" class=\"size-full wp-image-139\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/curupira\/wp-content\/uploads\/sites\/244\/2012\/11\/jenkins3.r.jpg\" alt=\"\" width=\"460\" height=\"296\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/curupira\/wp-content\/uploads\/sites\/244\/2012\/11\/jenkins3.r.jpg 460w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/curupira\/wp-content\/uploads\/sites\/244\/2012\/11\/jenkins3.r-300x193.jpg 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/curupira\/wp-content\/uploads\/sites\/244\/2012\/11\/jenkins3.r-200x129.jpg 200w\" sizes=\"(max-width: 460px) 100vw, 460px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-139\" class=\"wp-caption-text\">Farish e um de seus filhotes, o &#8220;Tiktaalik roseae&#8221; (Foto Boston Globe)<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>AS QUARTAS-FEIRAS do gelado segundo semestre de 2003 eram dia de acordar cedo. Eu deixava minha filha no ponto de \u00f4nibus e atravessava Cambridge, invariavelmente atrasado e invariavelmente animado, para escutar um homem de bigode, colete bege e gravata falar sobre ossos de animais extintos. Era dia das aulas de paleontologia de vertebrados de Farish Jenkins Jr., o \u00faltimo naturalista vitoriano, morto no fim de semana retrasado aos 72 anos.<\/p>\n<p>O quadro-negro invariavelmente trazia algum dinossauro ou cinodonte desenhado a giz nos m\u00ednimos detalhes. Cada curva do molar trobosf\u00eanico, cada v\u00e9rtebra fundida dos saur\u00edsquios, cada ossinho da mand\u00edbula dos r\u00e9pteis em sua transforma\u00e7\u00e3o no que s\u00e3o hoje nossos ossos do ouvido. Passei meses imaginando como Farish conseguia executar desenhos anat\u00f4micos \u00e0 perfei\u00e7\u00e3o no olho. Algu\u00e9m me segredou que o professor madrugava no museu &#8212; e contava com o aux\u00edlio secreto de um retroprojetor. Tudo antes de os alunos chegarem, momento em que Farish j\u00e1 tinha caf\u00e9 e donuts prontos para a classe de alunos de p\u00f3s (nem todos superinteressados nos processod do tornozelo do <em>Deinonichus<\/em>). Um mestre do espet\u00e1culo.<\/p>\n<p>Obviamente eu n\u00e3o tinha forma\u00e7\u00e3o alguma em paleobiologia, em biologia ou em qualquer outra coisa. Jenkins me aceitou como ouvinte mesmo assim. Adorava jornalistas, e tinha um carinho especial pelos nerds do MIT que se interessavam por ci\u00eancia. &#8220;Voc\u00eas n\u00e3o s\u00e3o 171 de forma alguma! S\u00e3o gente s\u00e9ria e esfor\u00e7ada.&#8221; N\u00e3o vou discutir com um professor de Harvard.<\/p>\n<p>Quando n\u00e3o estava fascinando seus alunos ou xingando o ent\u00e3o reitor Larry Summers, a quem s\u00f3 se referia como &#8220;bully&#8221;, Farish vivia la vida loca. Nos ver\u00f5es, alugava um helic\u00f3ptero e partia com colaboradores e o curador de vertebrados do museu, Chuck Schaff, para algum fim de mundo do \u00c1rtico, onde o grupo acampava por um m\u00eas ou mais em total isolamento, atr\u00e1s de f\u00f3sseis interessantes. O grupo precisava andar armado e montar turnos de vigia 24 horas por dia, por causa de ursos polares. Uma vez, exausto, Chuck atirou numa amea\u00e7adora forma branca que se aproximava das barracas. Felizmente errou &#8212; era uma lebre.<\/p>\n<p>Em uma dessas expedi\u00e7\u00f5es polares, na ilha de Ellesmere, no Canad\u00e1, Farish e seu ex-aluno Neil Shubin, e o aluno de Shubin Ted Daeschler, encontraram seu f\u00f3ssil mais interessante: um peixe do Per\u00edodo Devoniano que traz o primeiro sinal daquilo que vieram a se tornar as patas dos tetr\u00e1podes (como n\u00f3s). O grupo batizou o bichinho de <em>Tiktaalik<\/em>, uma palavra inu\u00edte. Tive o prazer de <a href=\"http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha\/ciencia\/ult306u587862.shtml\">apertar a m\u00e3o do <em>Tiktaalik<\/em><\/a> em 2009, no laborat\u00f3rio de Shubin na Universidade de Chicago. Foi quando soube que Farish adoecera e j\u00e1 n\u00e3o viajaria ao \u00c1rtico com o grupo naquele ver\u00e3o. Shubin estava transtornado.<\/p>\n<p>Voltei a ter not\u00edcias de meu ex-professor em 2010, por obra e gra\u00e7a de <a href=\"http:\/\/folha.com\/teoriadetudo\">Rafael Garcia<\/a>, que visitou seu laborat\u00f3rio e me mandou uma foto. Trocamos e-mails. Farish parecia ter envelhecido 30 anos, mas mantinha a fleuma. Minha \u00faltima lembran\u00e7a dele \u00e9 dessa jovialidade, mesmo &#8212; agora sei &#8212; terminalmente doente.<\/p>\n<p>Farish Jenkins era, ele mesmo, um f\u00f3ssil, um esp\u00e9cime \u00fanico, hol\u00f3tipo sem par\u00e1tipo. Era um pol\u00edmata, que lecinava anatomia humana al\u00e9m de paleontologia. Um naturalista \u00e0 moda antiga no meio de um mundo dominado por bi\u00f3logos moleculares. Como Charles Darwin, gostava de fazer experimentos malucos para observar fen\u00f4menos (gostava de colocar animais para correr em esteiras para entender como f\u00f3sseis se movimentariam). Nas horas vagas, cultivava ma\u00e7\u00e3s numa fazenda em New Hampshire, onde fabricava com a mulher a melhor cidra do mundo, que ele mesmo engarrafava e rotulava. O espumante era obrigat\u00f3rio em brindes de final de semestre, em plena sala de aula e em plena luz do dia, para horror dos caretas americanos. Farish Jenkins Jr. n\u00e3o tinha paci\u00eancia para caretices.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; AS QUARTAS-FEIRAS do gelado segundo semestre de 2003 eram dia de acordar cedo. 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