{"id":167,"date":"2013-02-25T08:11:59","date_gmt":"2013-02-25T11:11:59","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/curupira\/?p=167"},"modified":"2013-02-25T08:11:59","modified_gmt":"2013-02-25T11:11:59","slug":"na-pista-com-marina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/curupira\/2013\/02\/25\/na-pista-com-marina\/","title":{"rendered":"Na pista com Marina"},"content":{"rendered":"<p>MARINA caminha depressa, quase correndo. Veste uma camisa laranja e traz uma bolsinha de nylon a tiracolo, dessas que a gente ganha de brinde em eventos. \u00c9 domingo, amea\u00e7a chover e a Estrada Parque do Lago Norte, nome oficial da &#8220;Principal&#8221;, est\u00e1 vazia. De bicicleta, fa\u00e7o pouco esfor\u00e7o para acompanh\u00e1-la, mas estaria em maus len\u00e7\u00f3is se estivesse a p\u00e9. Um vigor not\u00e1vel para a figura franzina e adoentada que eu j\u00e1 vi andar apoiada numa bengala, anos atr\u00e1s, quando se batia contra desmatadores, hidrel\u00e9tricas e outros paladinos do desenvolvimento do Brasil.<\/p>\n<p>Faz oito dias que ela deu a largada para outro tipo de marcha ol\u00edmpica: no s\u00e1bado anterior, depois de dois anos de costura, lan\u00e7ara a <a href=\"http:\/\/http:\/\/brasilemrede.com.br\/\">Rede Sustentabilidade<\/a>, partido que espera tornar oficial para disputar as elei\u00e7\u00f5es presidenciais de 2014. Sai de casa com bolos de fichas de assinaturas de apoio. N\u00e3o sobra nenhum.<\/p>\n<p>Tem sido divertido observar os palpites dos analistas pol\u00edticos de Bras\u00edlia em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Rede. Sem saber como abordar uma estrat\u00e9gia pol\u00edtica que pode dar 100% errado, mas que tem o m\u00e9rito ineg\u00e1vel de pensar fora da caixa (ou DO caixa), os comentaristas t\u00eam apostado em que Marina &#8220;ter\u00e1 dificuldades&#8221; (oh!), &#8220;maiores que as do PSD, j\u00e1 que \u00e9 uma amea\u00e7a virtual a Dilma em 2014&#8221; (uh!). Houve quem ironizasse a autodefini\u00e7\u00e3o da Rede como um partido &#8220;nem de direita, nem de esquerda&#8221;, comparando-a inevitavelmente \u00e0 declara\u00e7\u00e3o de Golberto Kassab quando do lan\u00e7amento do PSD (a esse prop\u00f3sito, vale a pena ler a coluna de Eug\u00eanio Bucci na \u00faltima edi\u00e7\u00e3o da \u00c9poca). O coronel do PSB, Roberto Amaral, logo quem, chamou o partido de &#8220;fundamentalista&#8221; e &#8220;autorit\u00e1rio&#8221;. Outros sa\u00fadam o partido por ser diferente, mas <a href=\"http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/fsp\/opiniao\/93274-marina-e-o-suco-do-bem.shtml\">criticam-no justamente por ser t\u00e3o diferente. <\/a> Outros, ainda, dizem que tudo isso de construir uma proposta pol\u00edtica de baixo para cima \u00e9 &#8220;teatro&#8221; ou &#8220;cortina de fuma\u00e7a&#8221;.<\/p>\n<p>\u00c9, pode ser. Ou poderia ser caso Marina e seus seguidores tivessem algum poder em risco ou se outro capital ela possu\u00edsse al\u00e9m de quase 20 milh\u00f5es de votos. A Rede pode arriscar qualquer formato porque n\u00e3o tem nada, absolutamente nada a perder. Lembra, neste sentido, uma outra agremia\u00e7\u00e3o &#8220;grassroots&#8221; fundada por oper\u00e1rios e intelectuais nos anos 1980 e cuja hist\u00f3ria n\u00f3s j\u00e1 conhecemos. Seria interessante ver o que diziam os analistas pol\u00edticos na \u00e9poca sobre as perspectivas de poder daquele partido.<\/p>\n<p>&#8220;Quando eu dizia que era um partido para defender o meio ambiente as pessoas aderiam na hora&#8221;, conta Marina, sobre a panfletagem que fizera na v\u00e9spera na Feira do Guar\u00e1, uma esp\u00e9cie de Mercado Municipal de Bras\u00edlia. Compara a rea\u00e7\u00e3o do p\u00fablico \u00e0 not\u00f3ria falta de interesse da m\u00eddia pela tem\u00e1tica ambiental (veja bem, \u00e9 ela quem est\u00e1 dizendo). No ato, um pequeno constrangimento: o ex-amigo Jorge Viana, com quem Marina rompeu publicamente em 2011, na \u00e9poca da vota\u00e7\u00e3o do C\u00f3digo Florestal no Senado, estava l\u00e1 comendo pastel e recusou-se a assinar pela cria\u00e7\u00e3o da Rede.<\/p>\n<p>Emplacar o meio ambiente como agenda unificadora da sociedade \u00e9 o segundo desafio da Rede. Quando ministra, Marina tentou disseminar essa &#8220;transversalidade&#8221; da quest\u00e3o no governo, mas foi transversalizada no meio do caminho por Dilma Rousseff e os governadores da Amaz\u00f4nia e eventualmente for\u00e7ada a fazer uma inflex\u00e3o civilizat\u00f3ria para fora do gabinete. O diabo \u00e9 que n\u00e3o existe um filho da m\u00e3e neste pa\u00eds, nem o parlamentar tocantinense mais amigo da motosserra, que seja declaradamente contra o tal &#8220;meio ambiente&#8221;. Muitas empresas entendem que o &#8220;meio ambiente&#8221;, ou melhor, a &#8220;sustentabilidade&#8221;, \u00e9 parte importante do seu neg\u00f3cio. No m\u00ednimo, ajuda a poupar recursos (e dinheiro) e fazer uma boa figura com o consumidor. O biscoito esfarela na hora de colocar par\u00e2metros na &#8220;sustentabilidade&#8221;, palavra que Hobsbawm sabiamente apontou como &#8220;convenientemente sem sentido&#8221;.<\/p>\n<p>Nem a Rede sabe ainda que par\u00e2metros s\u00e3o esses. Aparantemente eles come\u00e7am nas regras de financiamento: n\u00e3o se aceitar\u00e1 doa\u00e7\u00e3o de empresas de &#8220;cigarro, bebida, armas e agrot\u00f3xicos&#8221;. O corte, como bem apontaram meu ex-colega Fernando Rodrigues e meu correligion\u00e1rio <a href=\"http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/fsp\/opiniao\/94997-bom-mocismo-diafano.shtml\">H\u00e9lio Schwartsman<\/a>, n\u00e3o faz o menor sentido. Cigarro e bebida eu consigo entender. Mas armas e agrot\u00f3xicos? No limite, a ind\u00fastria b\u00e9lica colabora com a sustentabilidade devido ao alto conte\u00fado tecnol\u00f3gico de seus produtos, gerando emprego de qualidade e reduzindo a press\u00e3o sobre os recursos naturais (\u00e9 esse o tipo de desenvolvimento ao qual Marina aspira). Os sat\u00e9lites que a ent\u00e3o ministra usou com sucesso para fiscalizar o desmatamento na Amaz\u00f4nia em tempo real s\u00e3o subprodutos de um complexo industrial-militar. Racioc\u00ednio an\u00e1logo vale para os agrot\u00f3xicos: eu tamb\u00e9m preferiria passar sem eles, mas \u00e9 preciso antes combinar com os insetos. Do contr\u00e1rio, estamos condenando a agricultura a baixa produtividade e extensa ocupa\u00e7\u00e3o de terras. Fora, claro, que empreiteiras e bancos est\u00e3o fora da peneira. O capitalismo \u00e9 cruel. O ideal seria aceitar doa\u00e7\u00f5es apenas de pessoas f\u00edsicas, mas a Rede n\u00e3o iria muito longe desse jeito.<\/p>\n<p>O terceiro desafio da Rede \u00e9 de origem metaf\u00edsica. Marina \u00e9 uma religiosa cercada de ateus. N\u00e3o esconde que \u00e9 contra o aborto, o que lhe rendeu uma extensa parcela dos votos evang\u00e9licos em 2010. Nunca perguntei a ela o que acha do casamento gay, mas desconfio que seja contra. A Rede est\u00e1 condenada a tergiversar sobre os dois temas durante a campanha. Mas quem n\u00e3o o fez? Nem Barack Obama firmou posi\u00e7\u00e3o sobre o casamento gay (o aborto j\u00e1 \u00e9 legal em v\u00e1rios Estados dos EUA) no primeiro mandato &#8212; deixou para sair do arm\u00e1rio depois de reeleito.<\/p>\n<p>O primeiro e maior problema do novo partido, claro, \u00e9 virar partido. Aqui fica clar\u00edssimo que 2014 j\u00e1 come\u00e7ou. Os dois maiores amea\u00e7ados pela Rede, PT e o condom\u00ednio PDSB-DEM (com Marina puxando votos dos insatisfeitos com lulismo \u00e0 esquerda e Eduardo Campos puxando os \u00e0 direita, n\u00e3o sobra muita coisa para A\u00e9cio Neves), articulam na C\u00e2mara uma mudan\u00e7a nas regras de cria\u00e7\u00e3o de partidos pol\u00edticos. Marina n\u00e3o seria beneficiada pela regra que permite a um parlamentar em exerc\u00edcio do mandato mudar de partido, da qual gozou o PSD. Aposto e ganho como o PSD apoiar\u00e1 amplamente a mudan\u00e7a na lei.<\/p>\n<p>&#8220;O Supremo deve ter algo a dizer sobre isso&#8221;, pondera Marina, enquanto dispara pela Principal.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>MARINA caminha depressa, quase correndo. Veste uma camisa laranja e traz uma bolsinha de nylon a tiracolo, dessas que a gente ganha de brinde em eventos. \u00c9 domingo, amea\u00e7a chover e a Estrada Parque do Lago Norte, nome oficial da &#8220;Principal&#8221;, est\u00e1 vazia. 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