{"id":276,"date":"2014-04-29T23:37:51","date_gmt":"2014-04-30T02:37:51","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/curupira\/?p=276"},"modified":"2014-04-29T23:37:51","modified_gmt":"2014-04-30T02:37:51","slug":"um-cinco-estrelas-na-antartida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/curupira\/2014\/04\/29\/um-cinco-estrelas-na-antartida\/","title":{"rendered":"Um cinco-estrelas na Ant\u00e1rtida"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/curupira\/wp-content\/uploads\/sites\/244\/2014\/04\/co\u0301pia-de-ferrazproj.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-0\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-283\" alt=\"co\u0301pia de ferrazproj\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/curupira\/wp-content\/uploads\/sites\/244\/2014\/04\/co\u0301pia-de-ferrazproj.jpg\" width=\"598\" height=\"343\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/curupira\/wp-content\/uploads\/sites\/244\/2014\/04\/co\u0301pia-de-ferrazproj.jpg 598w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/curupira\/wp-content\/uploads\/sites\/244\/2014\/04\/co\u0301pia-de-ferrazproj-300x172.jpg 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/curupira\/wp-content\/uploads\/sites\/244\/2014\/04\/co\u0301pia-de-ferrazproj-200x115.jpg 200w\" sizes=\"(max-width: 598px) 100vw, 598px\" \/><\/a><\/p>\n<p>COME\u00c7OU ONTEM em Bras\u00edlia algo que pode ser descrito sem exagero como a maior reuni\u00e3o de condom\u00ednio do mundo: os 61 pa\u00edses que administram os 13 milh\u00f5es de quil\u00f4metros quadrados do continente ant\u00e1rtico, \u00fanica por\u00e7\u00e3o de terras no mundo ocupada sem derramamento de sangue (humano), juntaram-se para uma confer\u00eancia de dez dias. Nesse per\u00edodo, diplomatas, burocratas de governo, militares e cientistas debater\u00e3o quest\u00f5es que v\u00e3o de normas de preserva\u00e7\u00e3o ambiental at\u00e9 o impacto do crescente turismo ant\u00e1rtico sobre os pinguins.<\/p>\n<p>\u00c9 a primeira vez que Bras\u00edlia sedia uma reuni\u00e3o do ATCM (sigla em ingl\u00eas para Conselho Consultivo do Tratado da Ant\u00e1rtida) desde a cria\u00e7\u00e3o do secretariado do tratado, no come\u00e7o da d\u00e9cada passada. Sem muito o que exibir \u00e0 guisa de cart\u00e3o de visitas, o Brasil apostou no futuro: est\u00e1 tentando convencer os vizinhos do pr\u00e9dio de como ficar\u00e1 sensacional a reforma que est\u00e1 fazendo no seu apartamento. No caso, de como ficar\u00e1 linda a nova Esta\u00e7\u00e3o Ant\u00e1rtica Comandante Ferraz, principal instala\u00e7\u00e3o brasileira no continente, prevista para entrar em opera\u00e7\u00e3o em 2016.<\/p>\n<p>A Marinha, respons\u00e1vel pela log\u00edstica do Programa Ant\u00e1rtico Brasileiro, tratou de organizar um showroom da nova esta\u00e7\u00e3o. E showroom \u00e9 a palavra: uma exibi\u00e7\u00e3o no sagu\u00e3o do Centro de Conven\u00e7\u00f5es Brasil-21 (o mesmo que recebeu Barack Obama), com direito a modeletes de tailleur guiando os (rarefeitos) visitantes e a uma visita virtual \u00e0 nova esta\u00e7\u00e3o, numa proje\u00e7\u00e3o em v\u00e1rias telas na qual o espectador se sente realmente no local. Um desavisado realmente poderia achar que est\u00e1 numa propaganda para investidores de um projeto de novo hotel cinco estrelas em fase de capta\u00e7\u00e3o de recursos.<\/p>\n<p>No Autocad, a Ferraz do futuro \u00e9 de fato um espet\u00e1culo: m\u00f3dulos compridos assentados sobre pilotis imensos, 15 sa\u00eddas independentes para facilitar a evacua\u00e7\u00e3o em caso de inc\u00eandio, geradores e\u00f3licos fornecendo energia. Me incomodou o fato de a visita virtual come\u00e7ar pelo refeit\u00f3rio e terminar pelos laborat\u00f3rios &#8211; afinal, \u00e9 um programa cient\u00edfico, ou n\u00e3o? Mas isso sou eu. O projeto, feito por um grupo de jovens arquitetos de Curitiba, \u00e9 classe mundial e teve pitacos \u00e0 vontade da comunidade cient\u00edfica, que costuma queixar-se de nunca ser ouvida pelo pessoal da Marinha. Se houve um saldo positivo no tr\u00e1gico inc\u00eandio que destruiu a esta\u00e7\u00e3o em fevereiro de 2012 e matou duas pessoas, este foi a mobiliza\u00e7\u00e3o criada no Programa Ant\u00e1rtico em torno da reconstru\u00e7\u00e3o. A retomada uniu as duas culturas que convivem em sobreposi\u00e7\u00e3o de estados no Proantar sem nunca se misturarem de verdade, os acad\u00eamicos e os militares. Foi bonito de ver.<\/p>\n<p>Acontece que uma s\u00e9rie de d\u00favidas come\u00e7aram a pairar sobre o futuro da esta\u00e7\u00e3o. A mais imediata \u00e9 se o calend\u00e1rio ser\u00e1 cumprido ou se Ferraz est\u00e1 destinada ser constru\u00e7\u00e3o e j\u00e1 ru\u00edna, a exemplo do Ve\u00edculo Lan\u00e7ador de Sat\u00e9lites. As obras deveriam come\u00e7ar no pr\u00f3ximo ver\u00e3o, mas a licita\u00e7\u00e3o de R$ 145 milh\u00f5es aberta pela Marinha terminou sem interessados, como <a href=\"http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ciencia\/2014\/02\/1417764-licitacao-para-reconstruir-base-na-antartida-termina-interessados.shtml\">revelou em fevereiro Giuliana Miranda<\/a> na Folha de S.Paulo. Fontes ligadas ao projeto me apontaram em mar\u00e7o que a raz\u00e3o alegada pelas empresas foi o pre\u00e7o baixo do metro quadrado, US$ 12 mil. Projetos na Ant\u00e1rtida, devido aos riscos log\u00edsticos, costumam custar bem mais do que isso &#8212; at\u00e9 US$ 20 mil o metro quadrado. Uma nova licita\u00e7\u00e3o, internacional, dever\u00e1 ser aberta pela Secretaria da Comiss\u00e3o Interministerial para os Recursos do Mar, que pilota o Proantar. O custo estimado do novo projeto passa da R$ 175 milh\u00f5es. Por mais que os militares sejam organizados, eles ter\u00e3o de comer um dobrado para vencer o cipoal burocr\u00e1tico brasileiro e botar a licita\u00e7\u00e3o na rua (com todos os quilos de certid\u00f5es e tradu\u00e7\u00f5es de certid\u00f5es que um processo desse tipo exige) at\u00e9 junho. Depois disso, como \u00e9 ano eleitoral, o governo fica proibido de celebrar contratos. E a\u00ed leia mais em 2015.<\/p>\n<p>Mas espere um minuto: R$ 175 milh\u00f5es, voc\u00ea disse? E haver\u00e1 dinheiro? Outra d\u00favida fundamental. Ano que vem, como sabemos, ser\u00e1 ano de ajuste fiscal, e do brabo. N\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil imaginar uma situa\u00e7\u00e3o na qual programas cient\u00edficos e de defesa sejam mantidos respirando por aparelhos. O Programa Ant\u00e1rtico pertence a essas duas infelizes categorias que costumam ser alvejadas pelo Planejamento no primeiro corte. Veja o caso do VLS-1, que tamb\u00e9m passou por um inc\u00eandio (muito maior e muito mais custoso em vidas que o de Ferraz) em 2003 e at\u00e9 hoje, uma d\u00e9cada depois, n\u00e3o foi finalizado. Nesse \u00ednterim, o design do foguete ficou obsoleto e o Minist\u00e9rio da Ci\u00eancia e Tecnologia tentou bypassar a Aeron\u00e1utica, que desenvolvia o VLS, apostando suas fichas (e sua grana) num desastrado projeto de coopera\u00e7\u00e3o com a Ucr\u00e2nia, aquela prov\u00edncia rebelde da R\u00fassia que est\u00e1 para ser reincorporada. O VLS, programa de import\u00e2ncia estrat\u00e9gica inquestion\u00e1vel, \u00e9 constru\u00e7\u00e3o e j\u00e1 ru\u00edna, como diria Caetano. Ferraz corre o mesmo risco?<\/p>\n<p>Diante disso, alguns membros do Proantar j\u00e1 come\u00e7am a se perguntar se n\u00e3o seria melhor baixar a bola da nova esta\u00e7\u00e3o. Uma ideia seria manter no s\u00edtio de Ferraz uma esta\u00e7\u00e3o-puxadinho, na forma dos M\u00f3dulos Ant\u00e1rticos Emergenciais (MAE), produzidos pela empresa canadense Weatherhaven. Os MAE s\u00e3o cont\u00eaineres mobiliados montados no ver\u00e3o de 2013 e que come\u00e7aram neste ver\u00e3o a receber pesquisadores. Hoje eles est\u00e3o montados no antigo heliponto de Ferraz, que sobreviveu ao inc\u00eandio. Eu dormi uma noite neles em mar\u00e7o, a convite do Minist\u00e9rio da Ci\u00eancia, Tecnologia e Inova\u00e7\u00e3o. Eles s\u00e3o assim:<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/curupira\/wp-content\/uploads\/sites\/244\/2014\/04\/maefrente.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-1\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img decoding=\"async\" class=\"alignnone  wp-image-281\" alt=\"maefrente\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/curupira\/wp-content\/uploads\/sites\/244\/2014\/04\/maefrente-620x465.jpg\" width=\"478\" height=\"358\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/curupira\/wp-content\/uploads\/sites\/244\/2014\/04\/maefrente-620x465.jpg 620w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/curupira\/wp-content\/uploads\/sites\/244\/2014\/04\/maefrente-300x225.jpg 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/curupira\/wp-content\/uploads\/sites\/244\/2014\/04\/maefrente-1024x768.jpg 1024w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/curupira\/wp-content\/uploads\/sites\/244\/2014\/04\/maefrente-768x576.jpg 768w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/curupira\/wp-content\/uploads\/sites\/244\/2014\/04\/maefrente-1536x1152.jpg 1536w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/curupira\/wp-content\/uploads\/sites\/244\/2014\/04\/maefrente-2048x1536.jpg 2048w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/curupira\/wp-content\/uploads\/sites\/244\/2014\/04\/maefrente-200x150.jpg 200w\" sizes=\"(max-width: 478px) 100vw, 478px\" \/><\/a><\/p>\n<p>E s\u00e3o razoavelmente decentes por dentro tamb\u00e9m:<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/curupira\/wp-content\/uploads\/sites\/244\/2014\/04\/maesdentro-e1398823233854.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-2\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img decoding=\"async\" class=\"alignnone  wp-image-282\" alt=\"maesdentro\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/curupira\/wp-content\/uploads\/sites\/244\/2014\/04\/maesdentro-e1398823233854-620x826.jpg\" width=\"366\" height=\"487\" \/><\/a><\/p>\n<p>Considerando que algo entre 70% e 90% dos projetos de pesquisa do Proantar acontecem fora da esta\u00e7\u00e3o, em navios, acampamentos ou nos m\u00f3dulos Criosfera instalados no interior do continente, em tese seria poss\u00edvel manter a pesquisa funcionando nos MAE indefinidamente. A ci\u00eancia polar brasileira ficou muito maior que Ferraz. Os m\u00f3dulos foram feitos para durar cinco anos, mas a engenheira Nath\u00e1lia Guimar\u00e3es, da Weatherhaven, que esteve comigo na esta\u00e7\u00e3o em mar\u00e7o, disse que a experi\u00eancia tem demonstrado que eles duram o dobro. O programa polar canadense mant\u00e9m uma esta\u00e7\u00e3o no \u00c1rtico feita de m\u00f3dulos Weatherheaven sem a menor crise. Ser\u00e1 que n\u00f3s precisamos de um cinco-estrelas quando os puxadinhos resolvem? N\u00e3o seria mais s\u00e1bio usar essa grana, ou o peda\u00e7o dela que vier, para reformar navios, comprar avi\u00f5es novos (os H\u00e9rcules da FAB est\u00e3o pedindo penico) ou at\u00e9 montar uma segunda base em outro lugar?<\/p>\n<p>Se o Proantar fosse um programa 100% civil e Ferraz fosse uma esta\u00e7\u00e3o na qual meia d\u00fazia de cientistas passassem tr\u00eas meses por ano e fossem embora depois, definitivamente n\u00e3o haveria necessidade de gastar tanto por t\u00e3o pouca ci\u00eancia. Acontece que a natureza do programa brasileiro demanda que dez militares passem o ano inteiro vivendo ali. E, companheiro, um ano com banheiros de cortina de lona e sem espa\u00e7os privados deve ser dureza. A Marinha tamb\u00e9m acha que qualquer coisa menor que uma base permanente &#8220;de alvenaria&#8221; em Ferraz fragilizaria o Brasil geopoliticamente diante dos demais membros do Tratado da Ant\u00e1rtida. O argumento faz sentido, mas acho que vergonha maior seria bater o bumbo que estamos batendo no ATCM e n\u00e3o conseguirmos cumprir a promessa da nova esta\u00e7\u00e3o depois. O que ser\u00e1 que os contribuintes t\u00eam a dizer a esse respeito?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>COME\u00c7OU ONTEM em Bras\u00edlia algo que pode ser descrito sem exagero como a maior reuni\u00e3o de condom\u00ednio do mundo: os 61 pa\u00edses que administram os 13 milh\u00f5es de quil\u00f4metros quadrados do continente ant\u00e1rtico, \u00fanica por\u00e7\u00e3o de terras no mundo ocupada sem derramamento de sangue (humano), juntaram-se para uma confer\u00eancia de dez dias. 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