{"id":302,"date":"2015-02-10T15:45:24","date_gmt":"2015-02-10T18:45:24","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/curupira\/?p=302"},"modified":"2015-02-10T15:45:24","modified_gmt":"2015-02-10T18:45:24","slug":"o-racionamento-e-suas-metaforas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/curupira\/2015\/02\/10\/o-racionamento-e-suas-metaforas\/","title":{"rendered":"O racionamento e suas met\u00e1foras"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/curupira\/wp-content\/uploads\/sites\/244\/2015\/02\/cantareira.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-0\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-306\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/curupira\/wp-content\/uploads\/sites\/244\/2015\/02\/cantareira.jpg\" alt=\"cantareira\" width=\"460\" height=\"305\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/curupira\/wp-content\/uploads\/sites\/244\/2015\/02\/cantareira.jpg 460w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/curupira\/wp-content\/uploads\/sites\/244\/2015\/02\/cantareira-300x199.jpg 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/curupira\/wp-content\/uploads\/sites\/244\/2015\/02\/cantareira-200x133.jpg 200w\" sizes=\"(max-width: 460px) 100vw, 460px\" \/><\/a><\/p>\n<p>O Canal Energia traz hoje uma <a href=\"http:\/\/www.canalenergia.com.br\/zpublisher\/materias\/Operacao_e_Manutencao.asp?id=105118\">not\u00edcia<\/a> sobre a avalia\u00e7\u00e3o da consultoria PSR de que a &#8220;aflu\u00eancia&#8221; em mar\u00e7o e abril ter\u00e1 de ser equivalente a 100% da m\u00e9dia para evitar que o risco de racionamento de energia el\u00e9trica no pa\u00eds chegue tamb\u00e9m a 100%. &#8220;Aflu\u00eancia&#8221;, no jarg\u00e3o dos barrageiros, significa \u00e1gua chegando dos rios nos reservat\u00f3rios das usinas hidrel\u00e9tricas no Sudeste e no Centro-Oeste, que s\u00e3o as caixas d&#8217;\u00e1gua do pa\u00eds. Salvo em hip\u00f3tese de interven\u00e7\u00e3o divina, a chance de que isso ocorra \u00e9 0%. Como Deus n\u00e3o existe (algo que \u00e9 facilmente demonstr\u00e1vel pela exist\u00eancia do Estado Isl\u00e2mico e do Eduardo Cunha), em algum momento entre o alala\u00f4 e o coelhinho da P\u00e1scoa o ministro Eduardo Braga aparecer\u00e1 em rede nacional de r\u00e1dio e televis\u00e3o anunciando que o gato caiu do telhado.<\/p>\n<p>A essa altura, e espero que antes de primeiro de abril, o governo paulista tamb\u00e9m j\u00e1 ter\u00e1 sido for\u00e7ado a vir a p\u00fablico dizer que, er&#8230;, vejam, vamos passar mesmo cinco dias sem e dois com \u00e1gua. O epicentro da ind\u00fastria e do agroneg\u00f3cio nacionais estar\u00e1, assim, privado de dois insumos vitais, cuja conserva\u00e7\u00e3o tem sido tratada, por essa mesma ind\u00fastria e por esse mesmo agroneg\u00f3cio, como uma &#8220;externalidade&#8221;. Num pa\u00eds que j\u00e1 estaria em <a href=\"http:\/\/www.bcb.gov.br\/pec\/GCI\/PORT\/readout\/R20150206.pdf\">crescimento zero <\/a>sem essa dupla pancada, o efeito de mais essa crise sobre infla\u00e7\u00e3o, empregos, seguran\u00e7a e estabilidade pol\u00edtica pode ser apenas imaginado. Eu \u00e9 que n\u00e3o queria ter cargo eletivo em 2015.<\/p>\n<p>Para que as vaz\u00f5es dos rios que alimentam os reservat\u00f3rios ficassem na m\u00e9dia em 2015, a esta\u00e7\u00e3o chuvosa que come\u00e7ou em outubro teria de ter tido precipita\u00e7\u00f5es muito acima da m\u00e9dia. Isso porque nem toda a \u00e1gua que cai do c\u00e9u vai para os rios; parte dela \u00e9 absorvida pelos solos, que est\u00e3o muito secos: lembre-se de que desde 2012 o Centro-Sul vem recebendo menos \u00e1gua do que deveria, o que fez o governo acionar termel\u00e9tricas f\u00f3sseis a rodo e de forma permanente para tentar evitar o apag\u00e3o inevit\u00e1vel, torcendo por um milagre. Numa <a href=\"http:\/\/www.observatoriodoclima.eco.br\/so-chuva-em-escala-amazonica-salvaria-cantareira-indicam-dados-do-governo-federal\">conta<\/a> feita pelo climatologista Carlos Nobre para o Sistema Cantareira, que poderia ser mais ou menos generalizada para o Sudeste, a precipita\u00e7\u00e3o teria de ser pelo menos 60% maior do que a m\u00e9dia entre fevereiro e abril para que os reservat\u00f3rios pudessem chegar ao fim de 2015 com o <em>volume morto<\/em> minimamente reencarnado.<\/p>\n<p>At\u00e9 aqui, por\u00e9m, Giorgio, nada no comportamento desta triste temporada nos permite antever o dil\u00favio manauara que o amazonense* Eduardo Braga e seus eletrocratas esperam que caia nas latitudes mais altas do pa\u00eds. Como indicam dados de um assustador <a href=\"http:\/\/www.cemaden.gov.br\/cantareira\/relatorio-sistema-cantareira-05-02-2015.php\">relat\u00f3rio do Cemaden<\/a> (Centro de Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais) sobre a situa\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Paulo, as chuvas de outubro a dezembro foram 40% menores que a m\u00e9dia hist\u00f3rica. Janeiro foi seco, apesar das enchentes em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Muita gente tem corrido a apontar o dedo para Dilma e Alckmin: dizem que os dois s\u00e3o desonestos, mentirosos, p\u00e9ssimos planejadores, empurraram o racionamento com a barriga para poder faturar a elei\u00e7\u00e3o e negaram-se a adiantar um programa de economia de energia que poderia ou n\u00e3o ter-lhes custado os novos mandatos, mas que teria poupado o pa\u00eds de uma conta que vir\u00e1 salgada em 2015 porque ser\u00e1 cobrada toda \u00e0 vista. Tudo isso \u00e9 verdade, e espero que PT e PSDB, para usar a frase c\u00e9lebre do meu amigo Z\u00e9 Dirceu, &#8220;apanhem nas ruas e nas urnas&#8221;. S\u00f3 que isso n\u00e3o \u00e9 toda a verdade. O que o apag\u00e3o-secad\u00e3o de 2015 traduz \u00e9 uma incapacidade dos governos de lidar com uma nova realidade clim\u00e1tica no pa\u00eds. E tamb\u00e9m simboliza, numa escala menor, a op\u00e7\u00e3o errada que o mundo fez ao n\u00e3o agir contra as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas enquanto o custo da a\u00e7\u00e3o era manej\u00e1vel.<\/p>\n<p><strong>O ERRO \u00c9 MAIS EMBAIXO<\/strong><\/p>\n<p>Dilma e Alckmin foram induzidos a erro por uma quest\u00e3o de &#8220;mindset&#8221;, por assim dizer. Ocorre que o planejamento energ\u00e9tico e de abastecimento no Brasil segue uma tradi\u00e7\u00e3o de gera\u00e7\u00f5es de hidr\u00f3logos que professam a f\u00e9 no chamado estado estacion\u00e1rio de vaz\u00e3o. Trata-se de um conhecimento emp\u00edrico segundo o qual tudo aquilo que se observou no passado tamb\u00e9m se aplica ao presente e ao futuro. Tirando uma seca extrema ou outra, que se repetem de tantos em tantos anos, ou um ano de extremo de chuva ou outro, que tamb\u00e9m se repetem de tantos em tantos anos, os rios brasileiros pulsam com const\u00e2ncia quase matem\u00e1tica, registrada em d\u00e9cadas e d\u00e9cadas de observa\u00e7\u00f5es meticulosas de r\u00e9guas de n\u00edvel, guardadas em antigos alfarr\u00e1bios. O clima, para essa escola de pensamento, \u00e9 algo dado e constante. Com oscila\u00e7\u00f5es, mas constante. \u00c9 por esse credo que rezam alguns hidr\u00f3logos do Centro de Pesquisas em Energia El\u00e9trica da Eletrobras, interlocutores privilegiados do pessoal que decide as coisas no governo.<\/p>\n<p>O erro dessa turma tem sido ignorar que o pr\u00f3prio fundamento sobre o qual suas observa\u00e7\u00f5es se baseiam &#8211; a const\u00e2ncia do clima &#8211; n\u00e3o vale mais. As mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, que ainda s\u00e3o objeto de controv\u00e9rsia entre pesquisadores do Cepel, mandaram o estado estacion\u00e1rio para o vinagre. Os planejadores de energia n\u00e3o enxergaram isso porque as lentes pelas quais eles olham o mundo, os rios e a chuva n\u00e3o foram feitas para detectar os tons em geral sutis da mudan\u00e7a clim\u00e1tica. Faltou-lhes preparo epistemol\u00f3gico. Da\u00ed nunca terem dado bola para os alertas do IPCC, por exemplo &#8211; que, justi\u00e7a seja feita, tamb\u00e9m t\u00eam muita incerteza sobre o total de precipita\u00e7\u00e3o no Brasil ao longo deste s\u00e9culo, embora o sinal de temperatura modelado e verificado nas \u00faltimas d\u00e9cadas seja inequ\u00edvoco.<\/p>\n<p>A incerteza agora \u00e9 o novo normal. Isso \u00e9 uma p\u00e9ssima not\u00edcia para tomadores de decis\u00e3o, mas \u00e9 preciso quantific\u00e1-la e inclu\u00ed-la no planejamento. &#8220;N\u00e3o gosto de falar em seguran\u00e7a h\u00eddrica, porque d\u00e1 ideia de previsibilidade. Prefiro falar em gest\u00e3o de risco&#8221;, diz o hidr\u00f3logo Francisco Assis, da Universidade Federal do Cear\u00e1.<\/p>\n<p>Talvez o drama que aflorar\u00e1 no Brasil nas pr\u00f3ximas semanas e meses ensine alguma coisa aos formuladores de pol\u00edticas p\u00fablicas sobre a realidade da mudan\u00e7a clim\u00e1tica e a necessidade de gerenciar riscos. A <a href=\"http:\/\/g1.globo.com\/economia\/noticia\/2015\/02\/governo-estuda-financiar-producao-de-energia-em-casas-e-no-comercio.html\">proposta de financiar a compra de pain\u00e9is solares<\/a> para gera\u00e7\u00e3o dom\u00e9stica de energia \u00e9 uma dessas boas medidas que chegam tarde, se chegarem. Mas antes tarde do que nunca. O problema \u00e9 se ano que vem a chuva voltar a normalizar e a li\u00e7\u00e3o do apag\u00e3o-secad\u00e3o de 2015 for esquecida, como foi a do apag\u00e3o de 2001, sem uma mudan\u00e7a no software mental dos planejadores de \u00e1gua e energia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>* Sim, manauaras, eu sei que ele \u00e9 nascido no Par\u00e1. Mas ele \u00e9 problema de voc\u00eas.<\/p>\n<p>&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;-<\/p>\n<p>PS: Depois de um longo per\u00edodo de inatividade, este blog retorna. N\u00e3o sei com que frequ\u00eancia ainda, mas certamente maior do que a de 2014.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Canal Energia traz hoje uma not\u00edcia sobre a avalia\u00e7\u00e3o da consultoria PSR de que a &#8220;aflu\u00eancia&#8221; em mar\u00e7o e abril ter\u00e1 de ser equivalente a 100% da m\u00e9dia para evitar que o risco de racionamento de energia el\u00e9trica no pa\u00eds chegue tamb\u00e9m a 100%. &#8220;Aflu\u00eancia&#8221;, no jarg\u00e3o dos barrageiros, significa \u00e1gua chegando dos rios [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":495,"featured_media":306,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":[],"footnotes":""},"categories":[2],"tags":[],"class_list":["post-302","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-geral"],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/curupira\/wp-content\/uploads\/sites\/244\/2015\/02\/cantareira.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/curupira\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/302","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/curupira\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/curupira\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/curupira\/wp-json\/wp\/v2\/users\/495"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/curupira\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=302"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/curupira\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/302\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/curupira\/wp-json\/wp\/v2\/media\/306"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/curupira\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=302"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/curupira\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=302"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/curupira\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=302"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}