{"id":310,"date":"2015-02-14T12:01:25","date_gmt":"2015-02-14T15:01:25","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/curupira\/?p=310"},"modified":"2015-02-14T12:01:25","modified_gmt":"2015-02-14T15:01:25","slug":"mostre-o-amor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/curupira\/2015\/02\/14\/mostre-o-amor\/","title":{"rendered":"Mostre o amor &#8211; mas antes mande o carv\u00e3o"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_314\" style=\"width: 630px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/curupira\/wp-content\/uploads\/sites\/244\/2015\/02\/mi9.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-0\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-314\" class=\"size-medium wp-image-314\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/curupira\/wp-content\/uploads\/sites\/244\/2015\/02\/mi9-620x413.jpg\" alt=\"Los Tres Amigos: Cameron (esq.), Clegg e Miliband (Dan Kitiwood\/Getty Images)\" width=\"620\" height=\"413\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-314\" class=\"wp-caption-text\">Los Tres Amigos: Cameron (esq.), Clegg e Miliband (Dan Kitiwood\/Getty Images)<\/p><\/div>\n<p>A IMPRENSA BRIT\u00c2NICA traz hoje uma hist\u00f3ria comovente: os tr\u00eas principais partidos pol\u00edticos do Reino Unido, os governistas Liberal (Thories) e Liberal-Democrata (Lib-Dem) e o oposicionista Trabalhista (Labour), assinaram um <a href=\"http:\/\/www.green-alliance.org.uk\/leaders_joint_climate_change_agreement.php\">compromisso conjunto <\/a>para transformar o combate \u00e0 mudan\u00e7a clim\u00e1tica mais uma vez numa pol\u00edtica de Estado. Juntos, os advers\u00e1rios se comprometeram a buscar um acordo clim\u00e1tico legalmente vinculante e que limite o aquecimento global a 2 graus Celsius; a trabalhar para ajustar o or\u00e7amento de carbono das ilhas brit\u00e2nicas, uma institui\u00e7\u00e3o do governo trabalhista, \u00e0 Lei de Mudan\u00e7a Clim\u00e1tica que os Thories fizeram de tudo para enfraquecer; e a banir para sempre das terras de Sua Majestade qualquer usina termel\u00e9trica a carv\u00e3o que n\u00e3o sequestre o pr\u00f3prio carbono &#8211; o que os ingleses chamam de &#8220;unabated coal&#8221;.<\/p>\n<p>O movimento, batizado de Green Alliance, \u00e9 incomum porque une o premi\u00ea David Cameron, que est\u00e1 num vale de popularidade, o vice-premi\u00ea Nick Clegg, um ex-darling da esquerda cujo pragmatismo em se juntar a Cameron talvez lhe tenha custado a carreira, e o poss\u00edvel futuro primeiro-ministro, o trabalhista Ed Miliband. Mal comparando, seria como de Dilma Rousseff, Marina Silva e A\u00e9cio Neves se juntassem para pedir o fim das hidrel\u00e9tricas na Amaz\u00f4nia (deixo ao leitor a tarefa de dizer quem \u00e9 esquerda e quem \u00e9 direita neste caso). Ele vem na esteira de uma campanha chamada Show the Love (&#8220;Mostre o Amor&#8221;), movida por uma coaliz\u00e3o de ONGs brit\u00e2nicas para celebrar o Dia dos Namorados, que no hemisf\u00e9rio Norte \u00e9 hoje. A campanha consiste em chamar aten\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o para lugares que as pessoas amam e que est\u00e3o amea\u00e7ados pela mudan\u00e7a do clima. Uma de suas principais pe\u00e7as \u00e9 um <a href=\"http:\/\/fortheloveof.org.uk\/\">v\u00eddeo fofo<\/a> no qual personalidades como o ator Stephen Fry recitam um soneto de Shakespeare.<\/p>\n<p>A alian\u00e7a suprapartid\u00e1dia brit\u00e2nica deve ser comemorada, j\u00e1 que o Reino Unido tem sido tradicionalmente uma das principais vozes a defender o aumento de ambi\u00e7\u00e3o no combate ao aquecimento global. Essa lideran\u00e7a se perdeu entre os governos de Gordon Brown e David Cameron, e fez muita falta. Com os bret\u00f5es querendo mostrar servi\u00e7o, seus vizinhos e eternos rivais gauleses ganham um respaldo importante para pressionar por um acordo no fim do ano em Paris.<\/p>\n<p>Acontece que em pol\u00edtica nada vem de gra\u00e7a. A promessa dos l\u00edderes partid\u00e1rios do Reino Unido de se livrar do carv\u00e3o ocorre num contexto em que a chapa desse combust\u00edvel f\u00f3ssil j\u00e1 estava esquentando de qualquer forma. Como quase tudo em pol\u00edtica, o an\u00fancio s\u00f3 foi feito porque n\u00e3o traz custo nenhum a nenhum dos tr\u00eas.<\/p>\n<p>H\u00e1 d\u00e9cadas a Europa vem fazendo movimentos para se livrar do carv\u00e3o mineral. Primeiro por causa da decad\u00eancia da minera\u00e7\u00e3o no Reino Unido, onde as camadas sedimentares do Carbon\u00edfero v\u00eam sendo exploradas intensamente desde que James Watt inventou sua m\u00e1quina a vapor. O carv\u00e3o causa chuva \u00e1cida, o smog que matou gente a rodo em Londres no s\u00e9culo passado e o aquecimento da Terra. Os europeus s\u00e3o l\u00edderes em tecnologias de energia renov\u00e1vel. T\u00eam desde os anos 1990 um programa de com\u00e9rcio de emiss\u00f5es por termel\u00e9tricas (sim, o Protocolo de Kyoto rendeu frutos interessantes). Para eles, estava claro que havia limites ao futuro do carv\u00e3o.<\/p>\n<p>Isso foi acelerado com a tecnologia do fraturamento hidr\u00e1ulico para extrair g\u00e1s de folhelhos nos Estados Unidos. A partir de 2005 ou 2006, o agora famoso &#8220;shale gas&#8221; (que muita gente ainda insiste em traduzir como &#8220;g\u00e1s de xisto&#8221;) fez o pre\u00e7o do g\u00e1s natura despencar nos EUA. O resultado foi a substitui\u00e7\u00e3o do carv\u00e3o na gera\u00e7\u00e3o de energia, por raz\u00f5es puramente mercadol\u00f3gicas. A participa\u00e7\u00e3o do carv\u00e3o caiu de quase 40% para 24% na matriz el\u00e9trica americana. E tocou o sino da morte para esse mineral que tantas alegrias e tristezas nos deu desde o s\u00e9culo 18: Barack Obama, amparado pelo &#8220;shale gas&#8221;, decidiu regular as emiss\u00f5es de usinas t\u00e9rmicas nos EUA para desestimular a entrada de novas usinas a carv\u00e3o na rede.<\/p>\n<p>O carv\u00e3o mineral foi virando um mico para investidores. Os excedentes dos EUA e da Europa come\u00e7aram a ir para a \u00c1sia, em especial \u00cdndia e China. Mas a\u00ed foi a vez de os chineses botarem suas turbinas e\u00f3licas e seus pain\u00e9is solares no mercado, anunciando um compromisso de pico e decl\u00ednio de suas emiss\u00f5es em 2030. A China ainda responder\u00e1 pela fatia do le\u00e3o das 9 bilh\u00f5es de toneladas de carv\u00e3o que ser\u00e3o consumidas no planeta at\u00e9 2019, segundo a Ag\u00eancia Internacional de Energia. Mas a partir da pr\u00f3xima d\u00e9cada a situa\u00e7\u00e3o desse combust\u00edvel tende a mudar. Sinal disso \u00e9 que o fundo soberano da Noruega, montado com dinheiro de petr\u00f3leo, j\u00e1<a href=\"http:\/\/www.theguardian.com\/environment\/2015\/feb\/05\/worlds-biggest-sovereign-wealth-fund-dumps-dozens-of-coal-companies\"> anunciou desinvestimento em 32 mineradoras de carv\u00e3o<\/a>.<\/p>\n<p>\u00c9 claro que as pot\u00eancias carvoeiras n\u00e3o v\u00e3o deixar isso barato e j\u00e1 est\u00e3o dando um jeito de resolver o problema delas &#8211; mandando os ativos encalhados para o Terceiro Mundo, como sempre. Nas \u00faltimas semanas, ambientalistas na Europa descobriram um plano infal\u00edvel na UE para exportar tecnologia de carv\u00e3o para pa\u00edses africanos (link aqui t\u00e3o logo eu o encontre). Do jeito que anda, o Brasil daqui a pouco estar\u00e1 na lista.<\/p>\n<p>O governo brasileiro, como se sabe, tem apostado em termel\u00e9tricas a g\u00e1s e \u00f3leo para tentar mitigar o risco de racionamento causado pela falta de \u00e1gua nos reservat\u00f3rios das hidrel\u00e9tricas. Do ponto de vista l\u00f3gico, a pr\u00e1tica tem tanto sentido quanto o costume sul-africano de estuprar uma virgem para curar a infec\u00e7\u00e3o por HIV.<\/p>\n<p>No impulso de &#8220;diversificar a matriz&#8221;, o novo mantra da eletrocracia nacional para garantir &#8220;seguran\u00e7a energ\u00e9tica&#8221;, o <a href=\"http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/opiniao\/2014\/12\/1557773-carlos-rittl-estagflacao-climatica.shtml\">governo deu para tr\u00e1s<\/a> na promessa de fechar o Brasil ao carv\u00e3o mineral. Aumentou pre\u00e7os m\u00ednimos para permitir que o combust\u00edvel se tornasse competitivo nos leil\u00f5es e deu subs\u00eddios para permitir que os projetos de carv\u00e3o se viabilizassem. Com cada vez mais carv\u00e3o barato e indesejado circulando pelo mundo e cada vez menos \u00e1gua nos reservat\u00f3rios das hidrel\u00e9tricas brasileiras, a tend\u00eancia \u00e9 que o carv\u00e3o cres\u00e7a e se multipllique na matriz nacional, como sugerem Carlos Rittl e Ricardo Baitelo <a href=\"http:\/\/epoca.globo.com\/colunas-e-blogs\/blog-do-planeta\/noticia\/2015\/02\/por-que-o-seu-ar-condicionado-resfria-o-ar-mas-besquenta-atmosferab.html\">neste artigo<\/a>.<\/p>\n<p>Para evitar que isso aconte\u00e7a \u00e9 preciso regula\u00e7\u00e3o. Uma meta para emiss\u00f5es do setor de energia em Paris, aliada a um imposto sobre carbono, ajudaria a direcionar a tal diversifica\u00e7\u00e3o para o lado das fontes renov\u00e1veis. O Brasil n\u00e3o comemora o dia dos namorados em fevereiro &#8211; nem precisa do carv\u00e3o que podem querer nos empurrar de presente nesta data t\u00e3o amorosa.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A IMPRENSA BRIT\u00c2NICA traz hoje uma hist\u00f3ria comovente: os tr\u00eas principais partidos pol\u00edticos do Reino Unido, os governistas Liberal (Thories) e Liberal-Democrata (Lib-Dem) e o oposicionista Trabalhista (Labour), assinaram um compromisso conjunto para transformar o combate \u00e0 mudan\u00e7a clim\u00e1tica mais uma vez numa pol\u00edtica de Estado. 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