{"id":417,"date":"2017-10-15T21:12:33","date_gmt":"2017-10-16T00:12:33","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/curupira\/?p=417"},"modified":"2017-10-15T21:12:33","modified_gmt":"2017-10-16T00:12:33","slug":"e-2017-e-culpa-de-quem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/curupira\/2017\/10\/15\/e-2017-e-culpa-de-quem\/","title":{"rendered":"E 2017, \u00e9 culpa de quem?"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/curupira\/wp-content\/uploads\/sites\/244\/2017\/10\/WhatsApp-Image-2017-10-15-at-21.14.17.jpeg\" data-rel=\"lightbox-image-0\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-418\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/curupira\/wp-content\/uploads\/sites\/244\/2017\/10\/WhatsApp-Image-2017-10-15-at-21.14.17.jpeg\" alt=\"WhatsApp Image 2017-10-15 at 21.14.17\" width=\"406\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/curupira\/wp-content\/uploads\/sites\/244\/2017\/10\/WhatsApp-Image-2017-10-15-at-21.14.17.jpeg 406w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/curupira\/wp-content\/uploads\/sites\/244\/2017\/10\/WhatsApp-Image-2017-10-15-at-21.14.17-277x300.jpeg 277w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/curupira\/wp-content\/uploads\/sites\/244\/2017\/10\/WhatsApp-Image-2017-10-15-at-21.14.17-300x325.jpeg 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/curupira\/wp-content\/uploads\/sites\/244\/2017\/10\/WhatsApp-Image-2017-10-15-at-21.14.17-185x200.jpeg 185w\" sizes=\"(max-width: 406px) 100vw, 406px\" \/><\/a><\/p>\n<p>QUANDO CHOVEU EM BRAS\u00cdLIA na semana de 20 de setembro, eu comemorei em vez de xingar o engarrafamento. At\u00e9 que enfim um ano em que as chuvas come\u00e7aram quase na \u00e9poca de costume, ap\u00f3s mais de 110 dias de seca. Juntando isso com um inverno em que fez frio tamb\u00e9m como antigamente, parecia que o ano seria enfim normal \u2013 ap\u00f3s os malabarismos clim\u00e1ticos de 2015, quando em vez de esta\u00e7\u00e3o chuvosa tivemos uma onda de calor de 45 dias que quebrou todos os recordes, e de 2016, quando o inverno durou uma semana.<\/p>\n<p>Pelo visto, comemorei cedo demais. Entre 22 de setembro e 16 de outubro n\u00e3o caiu uma gota d\u2019\u00e1gua no DF. Em vez disso, tivemos um repeteco em miniatura da onda de calor de 2015, com temperaturas da casa dos 35 graus de dia e 26 \u00e0 noite (a m\u00e1xima recorde da cidade foi 36,5<sup>o<\/sup>C, batida em 2015). Depois de eu escrever a primeira vers\u00e3o deste texto, a imprensa confirmou <a href=\"http:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/app\/noticia\/cidades\/2017\/10\/15\/interna_cidadesdf,633773\/termometros-marcam-37-3-c-mais-alta-temperatura-ja-registrada-no-df.shtml\">que o domingo (15) superou os dois recordes de 2015, com 37,3<sup>o<\/sup>C<\/a> medidos pelo Instituto Nacional de Meteorologia em \u00c1guas Emendadas, a cerca de 25 km da minha casa. A <a href=\"http:\/\/www.observatoriodoclima.eco.br\/brasil-vive-extremos-de-calor-em-2015\/\">m\u00e9dia hist\u00f3rica para o m\u00eas de outubro, o mais quente do ano na cidade, \u00e9 e 27,5<sup>o<\/sup>C<\/a>. A timeline do meu Facebook foi invadida por memes de calor no fim de semana (como o que ilustra este post). A quentura e a secura p\u00f5em press\u00e3o adicional nos reservat\u00f3rios de uma cidade que est\u00e1 h\u00e1 dez meses racionando \u00e1gua. Se n\u00e3o chover copiosamente a partir da segunda quinzena de outubro, as represas n\u00e3o v\u00e3o se recuperar e 2018 ser\u00e1 ano de mais racionamento.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 nada de normal nisso tudo.<\/p>\n<p>Olhando para fora da minha aldeia, 2017 definitivamente n\u00e3o teve nada de normal. No hemisf\u00e9rio Norte, o abre-alas do ver\u00e3o foram os inc\u00eandios florestais que deixaram mais de 60 mortos em Portugal. Em julho e agosto, foi a vez da onda de calor apelidada L\u00facifer, que deixou o sul da Europa com temperaturas manauaras. Ao mesmo tempo, 158 inc\u00eandios florestais atingiram a Col\u00fambia Brit\u00e2nica, no Canad\u00e1. Agosto viu ainda inc\u00eandios de grandes propor\u00e7\u00f5es no sul da Groenl\u00e2ndia \u2013 a pior temporada desde o in\u00edcio dos registros.<\/p>\n<p>Em setembro quem brilhou foi o Oceano Atl\u00e2ntico, com a temporada de furac\u00f5es mais danosa j\u00e1 registrada na hist\u00f3ria. <a href=\"https:\/\/www.nytimes.com\/2017\/10\/11\/climate\/hurricane-ophelia.html?rref=collection%2Fsectioncollection%2Fclimate&amp;action=click&amp;contentCollection=climate&amp;region=stream&amp;module=stream_unit&amp;version=latest&amp;contentPlacement=4&amp;pgtype=sectionfront\">At\u00e9 agora foram dez<\/a>, come\u00e7ando com Franklin e chegando a Ohpelia (que atravessa o oceano neste momento numa estranha trajet\u00f3ria rumo \u00e0 Europa), incluindo tr\u00eas simult\u00e2neos (Katia, Irma e Jos\u00e9), dois de categoria 5, a m\u00e1xima na escala (Irma e Maria), o mais forte j\u00e1 registrado no Atl\u00e2ntico (Irma) e tr\u00eas supertempestades tocando terra nos EUA e no Caribe (Harvey, Irma e Maria, que devastou a ilha de Porto Rico). At\u00e9 agora foram mais de 300 mortos e preju\u00edzos ainda por contabilizar, mas estimados em mais de US$ 200 bilh\u00f5es.<\/p>\n<p>De volta a Pindorama, no mesmo m\u00eas de setembro o Brasil bateu seu recorde mensal de queimadas (106 mil registradas pelo Inpe), tornando 2017 o s\u00e9timo ano com maior n\u00famero de inc\u00eandios desde o in\u00edcio dos registros, em 1998 \u2013 e isso a dois meses do fim do ano. E, j\u00e1 que estamos falando de fogo, outubro seguiu com uma temporada de inc\u00eandios sem precedentes na Calif\u00f3rnia, com mais de 30 mortos e preju\u00edzos s\u00e9rios para a ind\u00fastria vin\u00edcola americana. \u00c1gua, por outro lado, sobrou no Rio Grande do Sul, atingido por tornados, microexplos\u00f5es e tempestades.<\/p>\n<p>Em 2015 e 2016, dois dos tr\u00eas anos mais quentes da hist\u00f3ria, n\u00f3s t\u00ednhamos um bode expiat\u00f3rio para os extremos clim\u00e1ticos. O bi\u00eanio foi do El Ni\u00f1o \u201cGodzilla\u201d, que ajudou a elevar o aquecimento da Terra de 0,85<sup>o<\/sup>C para 1<sup>o<\/sup>C acima dos n\u00edveis pr\u00e9-industriais no ano passado, secando por\u00e7\u00f5es do globo como o Nordeste brasileiro e o oeste americano. S\u00f3 que o El Ni\u00f1o submergiu em meados de 2016, e a fase inversa da oscila\u00e7\u00e3o, o La Ni\u00f1a, que ajuda a resfriar o mundo, n\u00e3o veio nem de longe com a mesma intensidade. Em 2017 n\u00e3o temos o \u201cru\u00eddo\u201d das oscila\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas naturais de curto prazo. A m\u00fasica que toca ao fundo, numa sucess\u00e3o decidida de compassos que deve nos levar ao segundo ou terceiro ano mais quente nos registros, parece ser mesmo a do aquecimento global.<\/p>\n<p>De fato, o planeta em 2017 se assemelha uma encena\u00e7\u00e3o daquilo que os modelos climatol\u00f3gicos previam para este s\u00e9culo num cen\u00e1rio de crise clim\u00e1tica. Condi\u00e7\u00f5es oce\u00e2nicas semelhantes ao El Ni\u00f1o: check. Furac\u00f5es mais intensos, mais inc\u00eandios florestais e ondas de calor mais frequentes: idem. Invernos anormalmente frios e com muita neve, como o deste ano no hemisf\u00e9rio Norte: tamb\u00e9m. Para ficar apenas no Brasil, a seca no Nordeste (que vai entrar no s\u00e9timo ano), o calor extremo no Norte, no Sudeste e no Centro-Oeste, os baixos n\u00edveis dos reservat\u00f3rios e as chuvas mais intensas no Sul s\u00e3o exatamente o que <a href=\"http:\/\/www.observatoriodoclima.eco.br\/pais-podera-viver-drama-climatico-em-2040\/\">os modelos clim\u00e1ticos globais regionalizados pelo Inpe prognosticavam para o meio do s\u00e9culo<\/a>.<\/p>\n<p>Obviamente, atribuir cada um desses extremos de forma un\u00edvoca aos efeitos dos gases-estufa acumulados na atmosfera \u00e9 temer\u00e1rio. Por outro lado, cada vez mais cientistas v\u00eam apontando para um fato \u00f3bvio: nada do que acontece hoje na atmosfera da Terra pode ser dissociado do fato de essa atmosfera estar em m\u00e9dia 1<sup>o<\/sup>C mais quente do que em 1850. Portanto, de certa forma, mesmo que nem tudo seja culpa do aquecimento global, tudo <em>\u00e9 <\/em>culpa do aquecimento global.<\/p>\n<p>Enquanto mais um ano de extremos <span style=\"text-decoration: line-through\">fode com a gente<\/span> se abate sobre a Terra, uma quantidade enorme de energia \u00e9 desperdi\u00e7ada na \u00e1gora por um monte de gente boa tentando persuadir a Dona Maria com dados e fatos de que o problema \u00e9 real e causado por n\u00f3s. \u00c9 precisamente como a ind\u00fastria f\u00f3ssil quer que a gente aja: perdidos na cortina de fuma\u00e7a argumentativa enquanto eles tentam espremer at\u00e9 o \u00faltimo centavo de lucro vendendo \u00f3leo e carv\u00e3o e ao mesmo tempo buscam formas de competir com a Tesla e os pain\u00e9is solares chineses.<\/p>\n<p>O real debate que deveria estar sendo travado agora diz respeito a proteger pessoas e ecossistemas. Como Bras\u00edlia e S\u00e3o Paulo v\u00e3o evitar a pr\u00f3xima crise h\u00eddrica? Como os moradores de S\u00e3o Francisco de Paula poder\u00e3o se proteger de tornados a tempo? Que decis\u00f5es prefeituras, fazendeiros, seguradoras e o mercado imobili\u00e1rio precisar\u00e3o tomar para lidar com um presente que n\u00e3o \u00e9 mais como o passado e com um futuro que ser\u00e1 uma vers\u00e3o piorada do presente, qualquer que seja a causa das mudan\u00e7as? E o que fazer com pessoas menos afortunadas do que eu, que n\u00e3o t\u00eam dinheiro para comprar um aparelho de ar-condicionado \u2013 e que mal t\u00eam acesso a energia?<\/p>\n<p>Perdemos muito tempo aprisionados na armadilha da atribui\u00e7\u00e3o. \u00c9 um espa\u00e7o confort\u00e1vel, no qual homens brancos com instru\u00e7\u00e3o superior e salas refrigeradas podem se digladiar em teoria e sonhar em resolver o problema no atacado, com acordos internacionais, NDCs e grandes esquemas de precifica\u00e7\u00e3o de carbono. \u00c9 \u00f3bvio que n\u00e3o h\u00e1 sa\u00edda de longo prazo para a crise sem atacar suas causas e zerar emiss\u00f5es antes de 2050.<\/p>\n<p>Mas no mundo real o disco virou para a a\u00e7\u00e3o local de constru\u00e7\u00e3o de resili\u00eancia. \u00c9 uma conversa muito mais complicada, j\u00e1 que envolve necessariamente o pequeno poder, a esfera municipal, o c\u00f3digo de obras e outras coisas sem o menor glamour \u2013 al\u00e9m de interlocutores com os quais boa parte das pessoas com instru\u00e7\u00e3o superior prefeririam n\u00e3o precisar lidar, como aquele prefeito do Pros ou aquele vereador do PP. Essas pessoas e, a bem da verdade, todas as outras, precisam entender que as refer\u00eancias e a experi\u00eancia n\u00e3o s\u00e3o mais guia para o futuro. E que rezar pela chuva ou contratar o Cacique Cobra Coral n\u00e3o s\u00e3o a resposta.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>QUANDO CHOVEU EM BRAS\u00cdLIA na semana de 20 de setembro, eu comemorei em vez de xingar o engarrafamento. At\u00e9 que enfim um ano em que as chuvas come\u00e7aram quase na \u00e9poca de costume, ap\u00f3s mais de 110 dias de seca. 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