{"id":455,"date":"2018-03-30T08:03:38","date_gmt":"2018-03-30T11:03:38","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/curupira\/?p=455"},"modified":"2018-03-30T08:03:38","modified_gmt":"2018-03-30T11:03:38","slug":"le-vieux-bona","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/curupira\/2018\/03\/30\/le-vieux-bona\/","title":{"rendered":"Le vieux Bon\u00e1"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/curupira\/wp-content\/uploads\/sites\/244\/2018\/03\/bona.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-0\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-458 aligncenter\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/curupira\/wp-content\/uploads\/sites\/244\/2018\/03\/bona.jpg\" alt=\"bona\" width=\"473\" height=\"600\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/curupira\/wp-content\/uploads\/sites\/244\/2018\/03\/bona.jpg 473w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/curupira\/wp-content\/uploads\/sites\/244\/2018\/03\/bona-237x300.jpg 237w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/curupira\/wp-content\/uploads\/sites\/244\/2018\/03\/bona-300x381.jpg 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/curupira\/wp-content\/uploads\/sites\/244\/2018\/03\/bona-158x200.jpg 158w\" sizes=\"(max-width: 473px) 100vw, 473px\" \/><\/a><\/p>\n<p>\u201cPAREM AS M\u00c1QUINAS!\u201d Quando a voz trovejava na reda\u00e7\u00e3o, seguida de um gordinho barbudo com uma bolsa de lona a tiracolo, geralmente o hor\u00e1rio era inconveniente. Fim de tarde, toda a editoria em plena adrenalina de fechamento, e o Bonalume entrava com cara de quem havia acabado de acordar. Vinha entregar ao administrativo do jornal as notas dos trabalhos do m\u00eas e passava nas editorias de Ci\u00eancia e Mundo, que usavam seus pr\u00e9stimos, para jogar conversa fora \u2013 ele bem sabia, no pior momento \u2013 e para fazer a pergunta cl\u00e1ssica: \u201cTem alguma cascata pra mim esta semana?\u201d<\/p>\n<p>Sempre tinha. Por mais exasperante que fosse lidar com o <em>bon vivant<\/em> que cagava e andava para os hor\u00e1rios dos \u201cescravos\u201d e raramente se dava ao trabalho de entrevistar os pesquisadores quando cobria algum <em>paper<\/em> cient\u00edfico que n\u00e3o lhe parecesse muito importante (ou sobre o qual ele n\u00e3o tivesse d\u00favidas), entregar uma \u201ccascata\u201d para Ricardo Bonalume Neto \u201ccometer\u201d era garantia de um texto redondo. Para inveja de todos n\u00f3s, o Bona aliava a perfei\u00e7\u00e3o em suas reportagens \u00e0 lei do m\u00ednimo esfor\u00e7o. Para inveja maior ainda de uma gera\u00e7\u00e3o de jovens rep\u00f3rteres, conquistara ao longo dos anos o direito de trabalhar de sua casa na Vila Madalena, na companhia das cachorras e dos livros. N\u00e3o me lembro de outro rep\u00f3rter da <em>Folha<\/em> at\u00e9 ent\u00e3o que tinha essa regalia. Se Rom\u00e1rio fosse um jornalista de ci\u00eancia, seria o Bona.<\/p>\n<p>O Bona, para mim, foi um gosto adquirido. Por muito tempo eu achei antip\u00e1tica a coluna que ele assinava na extinta Revista da Folha: \u201cO c\u00e9tico\u201d. Ali dedicava-se a desancar tudo quanto era \u00f3leo de cobra \u2013 \u201cenergias\u201d, \u201cespiritualidade\u201d, homeopatia e pseudoci\u00eancias em geral. A coluna existia, na obsess\u00e3o dual\u00edstica do jornal, para fazer par com a de Paulo Coelho, \u201cO mago\u201d, e foi extinta num ato salom\u00f4nico quando o parceiro de Raul Seixas deixou de escrever. Mesmo n\u00e3o gostando da coluna, tive de me render a seu autor uma vez, ouvindo uma entrevista dele a uma \u00e2ncora n\u00e3o particularmente perspicaz num programa de r\u00e1dio vespertino, na d\u00e9cada de 1990. A pobre mulher insistia em defender a astrologia e, num dado momento, perguntou ao Bonalume por que, ent\u00e3o, tantos grandes cientistas do passado foram astr\u00f3logos. \u201cCite um\u201d, devolveu o Bona. A dona engasgou e mudou de assunto.<\/p>\n<p>O esp\u00edrito, digo, c\u00e9rebro c\u00e9tico do Bona, motivo de minha resist\u00eancia inicial, acabou sendo uma das maiores influ\u00eancias dele sobre mim (a outra foi me apresentar a obra de Leonard Cohen). As coisas s\u00e3o como elas s\u00e3o, n\u00e3o como gostar\u00edamos que fossem, e se as evid\u00eancias dizem o oposto da sua cren\u00e7a \u2013 bem, problema seu. Isso valia para a ci\u00eancia, mas tamb\u00e9m para a pol\u00edtica. Nunca concordamos a respeito da \u00faltima, e o Bona sempre fez piada do meu esquerdismo, me chamando de \u201cmelancia\u201d: verde por fora, vermelho por dentro. Em muita coisa ele tinha raz\u00e3o. E, quando n\u00e3o tinha, cabia a cita\u00e7\u00e3o de Yevgeni Zamy\u00e1tin que ele mantinha na assinatura de seus e-mails: &#8220;Prefiro estar errado do meu pr\u00f3prio jeito a estar certo do jeito dos outros&#8221;.<\/p>\n<p>Quando entrei na Folha, em 2000, Bonalume j\u00e1 era uma lenda. Sab\u00edamos de v\u00e1rios de seus feitos profissionais, mas sua vida pessoal era um mist\u00e9rio. De fragmentos de conversas e de leitura de jornal, sei que ele se formou em jornalismo pela ECA em algum momento dos anos 1980 e foi trabalhar na <em>Folha<\/em>, onde ficou at\u00e9 sua morte, no \u00faltimo dia 23, aos 57 anos. Morou em Washington um per\u00edodo com uma bolsa da Funda\u00e7\u00e3o Alfred Friendly, aprendeu a escrever em ingl\u00eas e virou <em>stringer<\/em> da revista <em>Nature<\/em> no Brasil. Cobriu a guerra civil no ent\u00e3o Zaire na d\u00e9cada de 1990, de onde voltou aterrorizado, n\u00e3o com a matan\u00e7a, mas com a mal\u00e1ria. \u201cBicho escroto!\u201d, costumava dizer sobre o plasm\u00f3dio. Mal\u00e1ria era um de seus assuntos favoritos \u2013 daqueles que o faziam <em>at\u00e9<\/em> entrevistar o pesquisador.<\/p>\n<p>Foi o primeiro a noticiar, tamb\u00e9m nos anos 1990, as teorias de um jovem antrop\u00f3logo da USP chamado Walter Neves sobre caracter\u00edsticas australo-melan\u00e9sias nos f\u00f3sseis dos primeiros \u00edndios brasileiros. Cobriu a hist\u00f3rica confer\u00eancia do clima de Kyoto, em 1997, e escreveu um relato impag\u00e1vel sobre os delegados dormindo nos sof\u00e1s do centro de conven\u00e7\u00f5es ao final do encontro. Foi v\u00e1rias vezes \u00e0 Amaz\u00f4nia e pelo menos uma \u00e0 Ant\u00e1rtida.<\/p>\n<p>Mas o que torna a aus\u00eancia do Bonalume t\u00e3o grande para o jornalismo brasileiro, e para o jornalismo cient\u00edfico mais ainda, \u00e9 sua total aus\u00eancia de superego. O Bona n\u00e3o fazia rever\u00eancia a ningu\u00e9m, fossem professores doutores, generais ou seus superiores hier\u00e1rquicos no jornal. Nos primeiros casos, levava a s\u00e9rio a m\u00e1xima do jornalismo de questionar a autoridade (e talvez fosse a \u00fanica coisa que ele levava a s\u00e9rio). No \u00faltimo, ganhava um passe livre por sua compet\u00eancia.<\/p>\n<p>\u201cO atraso \u00e9 o pre\u00e7o da qualidade\u201d, pontificava, com meia editoria sobre seus ombros \u00e0s sete e tanto da noite, enquanto produzia suas an\u00e1lises sobre a invas\u00e3o do Iraque, em 2003, uma das raras ocasi\u00f5es neste s\u00e9culo em que trabalhou dentro da reda\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Com toda a tens\u00e3o da cobertura especial do conflito, que envolveu uma equipe enorme de v\u00e1rias editorias e enviados especiais a Bagd\u00e1 que ningu\u00e9m sabia se estariam vivos no dia seguinte, Bona ainda arrumava tempo para fazer tro\u00e7a: lan\u00e7ou o \u201cdesafio do dia\u201d, que consistia em algu\u00e9m dizer qualquer palavra aleatoriamente e ele daria um jeito de encaix\u00e1-la num texto. Das que eu me lembro, entraram \u201cpochete\u201d (falando de equipamentos dos soldados americanos), \u201csushi\u201d (sobre o Ex\u00e9rcito iraquiano) e \u201cfios de ovos\u201d (sobre danos colaterais).<\/p>\n<p>Al\u00e9m de irritar os chefes e de dirigir improp\u00e9rios contra criaturas inferiores que ousavam escrever sobre temas militares sem saber a diferen\u00e7a entre um alfanje e um sabre, Bona tinha como esporte fazer piada com os (e sobretudo dos) colegas. \u201cU\u00e9, cad\u00ea fulano?\u201d, repetia sempre que chegava \u00e0 reda\u00e7\u00e3o \u00e0s 19h, em pleno fechamento, e o editor havia ido embora. \u201cFulano, pintou o cabelo?!\u201d, gritou certa vez a um contempor\u00e2neo seu com tend\u00eancias metrossexuais na frente de toda a editoria. Distribu\u00eda apelidos: chamava a si pr\u00f3prio de \u201cLe vieux Bon\u00e1\u201d; os jovens de vinte-e-poucos da editoria de Ci\u00eancia eram os \u201cmenudos\u201d; o editor (eu), o \u201cpupil\u00e3o\u201d; Maur\u00edcio Tuffani virou \u201cToo Funny\u201d; o Reinaldo Lopes, &#8220;Petutinho&#8221;; e um redator baixinho, \u201cPP\u201d, ou \u201cpequeno pederasta\u201d.<\/p>\n<p>Num pa\u00eds cada vez mais bunda-mole onde a mentira virou regra e onde as pessoas desaprenderam a rir de si pr\u00f3prias, o velho c\u00e9tico far\u00e1 falta.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cPAREM AS M\u00c1QUINAS!\u201d Quando a voz trovejava na reda\u00e7\u00e3o, seguida de um gordinho barbudo com uma bolsa de lona a tiracolo, geralmente o hor\u00e1rio era inconveniente. Fim de tarde, toda a editoria em plena adrenalina de fechamento, e o Bonalume entrava com cara de quem havia acabado de acordar. 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