{"id":462,"date":"2018-04-19T21:31:31","date_gmt":"2018-04-20T00:31:31","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/curupira\/?p=462"},"modified":"2018-04-19T21:31:31","modified_gmt":"2018-04-20T00:31:31","slug":"insensibilidade-climatica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/curupira\/2018\/04\/19\/insensibilidade-climatica\/","title":{"rendered":"Insensibilidade clim\u00e1tica"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/curupira\/wp-content\/uploads\/sites\/244\/2015\/02\/1938-Woods-Hole.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-0\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-medium wp-image-311\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/curupira\/wp-content\/uploads\/sites\/244\/2015\/02\/1938-Woods-Hole-620x350.jpg\" alt=\"1938-Woods-Hole\" width=\"620\" height=\"350\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/curupira\/wp-content\/uploads\/sites\/244\/2015\/02\/1938-Woods-Hole-620x350.jpg 620w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/curupira\/wp-content\/uploads\/sites\/244\/2015\/02\/1938-Woods-Hole-300x169.jpg 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/curupira\/wp-content\/uploads\/sites\/244\/2015\/02\/1938-Woods-Hole-1024x578.jpg 1024w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/curupira\/wp-content\/uploads\/sites\/244\/2015\/02\/1938-Woods-Hole-768x433.jpg 768w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/curupira\/wp-content\/uploads\/sites\/244\/2015\/02\/1938-Woods-Hole-1536x866.jpg 1536w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/curupira\/wp-content\/uploads\/sites\/244\/2015\/02\/1938-Woods-Hole-2048x1155.jpg 2048w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/curupira\/wp-content\/uploads\/sites\/244\/2015\/02\/1938-Woods-Hole-200x113.jpg 200w\" sizes=\"(max-width: 620px) 100vw, 620px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Leandro Narloch mandou mal.<\/p>\n<p>O guru do pensamento politicamente incorreto virou best-seller desmontando &#8220;mitos\u201d sobre hist\u00f3ria, pol\u00edtica e comportamento. \u00c9 bonitinho. \u00c0s vezes acerta ou, no m\u00ednimo, provoca as pessoas a questionar verdades estabelecidas pouco apoiadas em evid\u00eancias. S\u00f3 que \u00e0s vezes ele mesmo se afasta das evid\u00eancias para for\u00e7ar um argumento ou dez. E a\u00ed d\u00e1 ruim. Sua <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/colunas\/leandro-narloch\/2018\/04\/ambientalistas-precisam-se-libertar-da-obsessao-com-o-apocalipse.shtml\">\u00faltima coluna no site da<em> Folha<\/em><\/a> \u00e9 um exemplo: uma diatribe antiambientalista que escorrega em fatos e produz \u2013 para sermos politicamente corretos \u2013 um samba do afrodescendente com problemas psiqui\u00e1tricos.<\/p>\n<p>Narloch tenta argumentar que ambientalistas s\u00e3o obcecados com o Apocalipse, mas que esse Apocalipse nunca chega, mas que mesmo assim eles continuam insistindo no Apocalipse porque isso vende livro e d\u00e1 dinheiro para ONGs.<\/p>\n<p>Nada de novo aqui. Frequentemente o ambientalismo \u00e9 criticado por fazer previs\u00f5es catastrofistas que n\u00e3o se realizam, mas frequentemente elas n\u00e3o se realizam precisamente por mudan\u00e7as de comportamento induzidas pelos ambientalistas. Doh. \u00c9 evidente que ambientalistas exageram e cometem equ\u00edvocos de vez em quando: trata-se, afinal, de um empreendimento humano. Destac\u00e1-los por isso, por\u00e9m, \u00e9 preconceito. E vis\u00f5es pr\u00e9-concebidas costumam estar erradas; Narloch deveria saber disso melhor do que ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>Um exemplo: o colunista critica Rachel Carson, a fundadora do ambientalismo moderno, por ter \u201capostado\u201d em seu livro <em>Silent Spring <\/em>(1962) que o DDT e os pesticidas provocariam \u201cextin\u00e7\u00e3o de pelicanos na costa Oeste americana\u201d. Na real, n\u00e3o h\u00e1 nenhuma men\u00e7\u00e3o a pelicanos no livro de Carson, que tampouco faz qualquer &#8220;aposta&#8221; &#8211; apenas colige dados cient\u00edficos da \u00e9poca. Mas o banimento do DDT, que ocorreu cinco anos depois de sua publica\u00e7\u00e3o, possivelmente <a href=\"https:\/\/www.nwf.org\/Magazines\/National-Wildlife\/2000\/How-Rachel-Carson-Helped-Save-The-Brown-Pelican\">permitiu o retorno de pelicanos que estavam quase extintos na Louisiana<\/a>, na costa Leste.<\/p>\n<p>Especificamente, Narloch cita tr\u00eas fins do mundo que n\u00e3o chegaram: o armageddon das abelhas, que teria sido revertido; a seca no Sudeste, que teria acabado mesmo sem ningu\u00e9m reflorestar a Amaz\u00f4nia; e o aquecimento global, que n\u00e3o seria t\u00e3o grave assim.<\/p>\n<p>Sobre este \u00faltimo, diz o nosso politicamente incorreto guru:<\/p>\n<blockquote><p>\u201cE um <a href=\"https:\/\/www.nature.com\/articles\/nature25450\">novo estudo<\/a>, publicado em janeiro pela \u201cNature\u201d, revisou para baixo a sensibilidade clim\u00e1tica (a varia\u00e7\u00e3o do clima de acordo com a varia\u00e7\u00e3o da emiss\u00e3o de carbono e outros fatores). Segundo os pesquisadores da Universidade de Exeter e do Centro de Ecologia e Hidrologia do Reino Unido, se a concentra\u00e7\u00e3o de CO<sub>2<\/sub> na atmosfera dobrar, o planeta vai esquentar no m\u00e1ximo 2,8\u00b0C, e n\u00e3o 4,5\u00b0C, como o IPCC previa.\u201d<\/p><\/blockquote>\n<p>H\u00e1 um erro conceitual crasso nessa conclus\u00e3o. Demanda uma explica\u00e7\u00e3o longa, mas n\u00e3o v\u00e1 embora.<\/p>\n<p>O estudo citado tem como primeiro autor Peter Cox, hoje na Universidade de Exeter. Cox ficou famoso no come\u00e7o do s\u00e9culo por formular a hip\u00f3tese de que a Amaz\u00f4nia sofreria mortandade em massa num cen\u00e1rio de aquecimento global descontrolado. N\u00e3o \u00e9 exatamente um c\u00e9tico do clima.<\/p>\n<p>Como Narloch aponta, o artigo de Cox trata de um valor chamado \u201csensibilidade clim\u00e1tica em equil\u00edbrio\u201d. \u00c9 uma estimativa de quanto o planeta aqueceria caso o n\u00edvel de CO<sub>2 <\/sub>na atmosfera duplicasse instantaneamente. \u00c9 um componente fundamental dos modelos computacionais de clima.<\/p>\n<p>A sensibilidade clim\u00e1tica foi estimada pela primeira vez em 1896 pelo sueco Svante Arrhenius (aquele mesmo, dos \u00e1cidos e das bases). Ele previu um aumento de 5<sup>o<\/sup>C a 6<sup>o<\/sup>C com o CO<sub>2<\/sub> duplicado na atmosfera. Em 1975, o primeiro modelo de clima em computador chegou a um n\u00famero bem menor: 2,4<sup>o<\/sup>C.<\/p>\n<p>Por uma s\u00e9rie de problemas que t\u00eam a ver com, por exemplo, a representa\u00e7\u00e3o de nuvens e aeross\u00f3is, os modelos t\u00eam dificuldade em \u201cresolver\u201d esse par\u00e2metro, e os n\u00fameros t\u00eam patinado h\u00e1 40 anos entre 2<sup>o<\/sup>C e 5<sup>o<\/sup>C, mais ou menos. Cada um dos cerca de 20 modelos globais usados hoje em dia pelo IPCC, o painel do clima da ONU, tem uma estimativa diferente de sensibilidade clim\u00e1tica. Alguns \u201cenxergam\u201d a Terra mais resiliente ao aumento dos gases-estufa; outros, mais sens\u00edvel. Na soma de todos os resultados, o IPCC considerou, em seu relat\u00f3rio mais recente, o AR5, que a sensibilidade clim\u00e1tica em equil\u00edbrio varia entre 1,5<sup>o<\/sup>C e 4,5<sup>o<\/sup>C, com uma melhor estimativa de 3,2<sup>o<\/sup>C.<\/p>\n<p>Cox e seus colegas \u2013 e, de resto, todos os modeleiros de clima do mundo \u2013 v\u00eam tentando reduzir essa incerteza. Seu trabalho de janeiro aponta um caminho diferente para fazer a estimativa, e d\u00e1 como resultado uma faixa de 2,2<sup>o<\/sup>C a 3,4<sup>o<\/sup>C, com uma melhor estimativa de 2,8<sup>o<\/sup>C. Descarta as pontas extremas da faixa de possibilidades do AR5. No entanto, sua melhor estimativa \u00e9 muito parecida com os 2,9<sup>o<\/sup>C publicados pelo IPCC em seu quarto relat\u00f3rio, de 2007, para uma concentra\u00e7\u00e3o de CO<sub>2<\/sub> na atmosfera de 550 partes por milh\u00e3o (o dobro da m\u00e1xima pr\u00e9-industrial).<\/p>\n<p>\u201cIsso n\u00e3o quer dizer nunca que o planeta vai esquentar menos ou que est\u00e1 esquentando menos agora. As medidas mostram que os modelos est\u00e3o acertando razoavelmente as previs\u00f5es dos \u00faltimos cem anos\u201d, diz Paulo Artaxo, do Instituto de F\u00edsica da USP, membro do IPCC. Se voc\u00ea quiser saber qu\u00e3o bem os modelos v\u00eam prevendo as temperaturas, assista a <a href=\"https:\/\/youtu.be\/tPSIvu0gQ90\">este v\u00eddeo sensacional do Skeptical Science<\/a>.<\/p>\n<p>O problema \u00e9 que Narloch confunde sensibilidade clim\u00e1tica com proje\u00e7\u00e3o de aquecimento. E, como diz Zeca Pagodinho, \u00e9 igual, mas \u00e9 diferente.<\/p>\n<p>A proje\u00e7\u00e3o de aumento de temperatura depende de quanto CO<sub>2<\/sub> lan\u00e7armos na atmosfera nas pr\u00f3ximas d\u00e9cadas \u2013 pode ser menos ou mais do que o dobro do que havia antes da era industrial. O IPCC tra\u00e7a <a href=\"http:\/\/ipcc.ch\/pdf\/assessment-report\/ar5\/wg1\/WG1AR5_SPM_FINAL.pdf\">quatro cen\u00e1rios de aumento de temperatura em seu \u00faltimo relat\u00f3rio<\/a>: no melhor, o chamado RCP 2.6, o aumento m\u00e9dio no fim do s\u00e9culo <strong>em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 m\u00e9dia observada entre 1986 e 2005<\/strong> ser\u00e1 de 1<sup>o<\/sup>C; no pior, o chamado RCP 8.5, o aumento m\u00e9dio \u00e9 de 3,7<sup>o<\/sup>C em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 mesma m\u00e9dia. Eleva\u00e7\u00f5es maiores que 6<sup>o<\/sup>C s\u00e3o consideradas muito improv\u00e1veis, mas n\u00e3o foram descartadas.<\/p>\n<p>Portanto, n\u00e3o, o IPCC<strong><em> n\u00e3o<\/em><\/strong> \u201cpreviu\u201d um aquecimento global de 4,5<sup>o<\/sup>C que foi repentinamente desmentido por um \u00fanico paper.<\/p>\n<p>Eu tamb\u00e9m acho uma merda o IPCC ser t\u00e3o confuso em relat\u00f3rios que s\u00e3o chamados de \u201cSum\u00e1rios para Formuladores de Pol\u00edticas P\u00fablicas\u201d (e que portanto deveriam ser compreens\u00edveis para qualquer cidad\u00e3o com segundo grau completo). E eu tamb\u00e9m j\u00e1 confundi sensibilidade clim\u00e1tica com proje\u00e7\u00e3o de aquecimento dezenas de vezes, e de maneiras vergonhosas. Mas a vida \u00e9 dura mesmo: se Leandro Narloch quiser fazer disso um cavalo de batalha contra o ambientalismo, vai precisar estudar mais.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; &nbsp; Leandro Narloch mandou mal. 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