{"id":524,"date":"2019-12-30T09:42:56","date_gmt":"2019-12-30T12:42:56","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/curupira\/?p=524"},"modified":"2019-12-30T09:42:56","modified_gmt":"2019-12-30T12:42:56","slug":"as-leituras-do-ano-de-2019","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/curupira\/2019\/12\/30\/as-leituras-do-ano-de-2019\/","title":{"rendered":"As leituras do ano de 2019"},"content":{"rendered":"<p>Ah, as listas de fim de ano.<\/p>\n<p>T\u00e3o inescap\u00e1veis quanto treta pol\u00edtica com parente no jantar de Natal, t\u00e3o previs\u00edveis quanto cachorro com medo de fogos e t\u00e3o irresist\u00edveis quanto a segunda ta\u00e7a de espumante. Pois l\u00e1 vamos n\u00f3s mais uma vez: seguindo a vetusta tradi\u00e7\u00e3o iniciada neste condom\u00ednio pelo <a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/rainha\/\">\u00c1tila Iamarino<\/a>, posto aqui um breve coment\u00e1rio sobre os melhores livros que li neste ano, na esperan\u00e7a de que algum deles seja \u00fatil para algu\u00e9m.<\/p>\n<p>Em 2019, como muita gente, busquei ref\u00fagio mental na fic\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o h\u00e1 bem pouca coisa sobre ci\u00eancia aqui. Em se tratando de obras t\u00e3o diferentes entre si, n\u00e3o d\u00e1 de fato para classificar em ordem de qualidade, exceto os dois primeiros e o \u00faltimo da lista.<\/p>\n<p>Feitos esses alertas, vamos a ela.<\/p>\n<p style=\"text-align: center\">*<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><em>1984<\/em>, de George Orwell (Companhia das Letras, 2019)<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/curupira\/wp-content\/uploads\/sites\/244\/2019\/12\/orw.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-0\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-535 alignleft\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/curupira\/wp-content\/uploads\/sites\/244\/2019\/12\/orw.jpg\" alt=\"orw\" width=\"231\" height=\"347\" \/><\/a>O meu livro do ano de 2019 n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 uma leitura; \u00e9 a corre\u00e7\u00e3o de uma falha de car\u00e1ter, como <a href=\"http:\/\/www.blogdacompanhia.com.br\/conteudos\/visualizar\/Republica-duplipensante-do-Brasil\">j\u00e1 escrevi alhures<\/a>. \u00c9 inconceb\u00edvel como eu consegui chegar \u00e0 idade adulta sem ter lido 1984. O consolo foi enfim faz\u00ea-lo no primeiro ano da era Bolsonaro, quando pinceladas da distopia descrita por Orwell aparecem todos os dias no notici\u00e1rio.<\/p>\n<p>Para as duas pessoas que ainda n\u00e3o leram essa obra-prima, o livro conta a hist\u00f3ria de Winston Smith, um funcion\u00e1rio p\u00fablico que habita a Londres p\u00f3s-guerra nuclear, ent\u00e3o parte de Oce\u00e2nia, um superpa\u00eds que compreende parte da Europa e as Am\u00e9ricas. Oce\u00e2nia \u00e9 um regime totalit\u00e1rio perfeito, governado pelo Grande Irm\u00e3o, uma figura de cuja exist\u00eancia Winston duvida (e nisso consiste um de seus atos de rebeldia contra o sistema). Seus cidad\u00e3os s\u00e3o vigiados 24 horas por dia por teletelas, TVs que transmitem propaganda oficial e captam toda a vida \u00edntima da popula\u00e7\u00e3o. A cultura e o amor livre s\u00e3o criminalizados, o \u00f3dio ao dissenso \u00e9 estimulado \u2013 com os cr\u00edticos do regime ganhando um passeio de ida ao Minist\u00e9rio do Amor, a vers\u00e3o orwelliana da Ponta da Praia \u2013 e toda a tecnologia que deveria ser empregada na melhoria da qualidade de vida da popula\u00e7\u00e3o \u00e9 usada para montar a quintess\u00eancia do aparato de vigil\u00e2ncia, a Pol\u00edcia das Ideias, capaz de detectar pensamentos-crime.<\/p>\n<p>O Partido governante de Oce\u00e2nia se mant\u00e9m no poder por gra\u00e7a da falsifica\u00e7\u00e3o constante n\u00e3o apenas da realidade, mas principalmente do passado. Edi\u00e7\u00f5es passadas de jornais s\u00e3o permanentemente reescritas para moldar a mem\u00f3ria ao que quer que o regime considere adequado naquele momento. Os fatos desaparecem e sobra apenas a narrativa. A elite do partido pratica o chamado \u201cduplipensamento\u201d, que consiste em acomodar na cabe\u00e7a vis\u00f5es antag\u00f4nicas de mundo, eliminando o referencial do real (num exemplo hipot\u00e9tico, defender a santidade da fam\u00edlia tendo sido casado quatro vezes e admitindo usar verba de gabinete para \u201ccomer gente\u201d).<\/p>\n<p>Orwell n\u00e3o viveu para ver o zapzap do Filipe Martins nem os cursos de filosofia do Olav\u00e3o. Sorte dele.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><em>A tr\u00e9gua<\/em>, de Primo Levi (Abacus, 2013)<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/curupira\/wp-content\/uploads\/sites\/244\/2019\/12\/levi.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-1\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img decoding=\"async\" class=\" wp-image-525 alignleft\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/curupira\/wp-content\/uploads\/sites\/244\/2019\/12\/levi.jpg\" alt=\"levi\" width=\"238\" height=\"379\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/curupira\/wp-content\/uploads\/sites\/244\/2019\/12\/levi.jpg 313w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/curupira\/wp-content\/uploads\/sites\/244\/2019\/12\/levi-188x300.jpg 188w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/curupira\/wp-content\/uploads\/sites\/244\/2019\/12\/levi-300x478.jpg 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/curupira\/wp-content\/uploads\/sites\/244\/2019\/12\/levi-125x200.jpg 125w\" sizes=\"(max-width: 238px) 100vw, 238px\" \/><\/a>Em janeiro de 1945, o campo de exterm\u00ednio de Auschwitz \u00e9 liberado pelo Ex\u00e9rcito Vermelho, revelando-se a extens\u00e3o das atrocidades daquilo que viria a ser conhecido como holocausto. Os sobreviventes, quase todos doentes que n\u00e3o puderam ser evacuados pelos alem\u00e3es numa marcha fatal durante a fuga, foram levados para campos sovi\u00e9ticos na Pol\u00f4nia. Entre eles estava um jovem qu\u00edmico judeu chamado Primo Levi, que narra nesse livro assombroso sua jornada de mais de um ano de volta \u00e0 sua Turim natal.<\/p>\n<p><em>A tr\u00e9gua<\/em> \u00e9 continua\u00e7\u00e3o do cl\u00e1ssico <em>\u00c9 isto um homem?<\/em>, a narrativa de Levi de seu per\u00edodo em Auschwitz. \u00c9 um relato dos primeiros momentos do p\u00f3s-guerra, numa Europa que ainda n\u00e3o sabe o que fazer com a liberdade rec\u00e9m-conquistada. Levi e as pessoas com quem ele cruza no caminho parecem o tempo todo divididos entre o al\u00edvio pelo fim do terror nazista e o p\u00e2nico de perceber que n\u00e3o h\u00e1 ningu\u00e9m tomando conta do lojinha. A Pol\u00f4nia p\u00f3s-ocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 a tradu\u00e7\u00e3o perfeita da anarquia, e a sobreviv\u00eancia n\u00e3o \u00e9 de forma alguma garantida. Nesse cada um por si, onde n\u00e3o existe nem mesmo dinheiro mais, triunfam ladr\u00f5es e espertalh\u00f5es, como se numa constata\u00e7\u00e3o de que, no fundo, o problema \u00e9 a natureza humana.<\/p>\n<p>Levi narra sua viagem francamente surrealista da polonesa Katowice \u00e0 It\u00e1lia via Ucr\u00e2nia e R\u00fassia, com longas marchas por estepes inabitadas tomadas por destro\u00e7os de guerra e soldados alem\u00e3es desertores sendo acolhidos pelo Ex\u00e9rcito Vermelho, que n\u00e3o consegue reproduzir nos territ\u00f3rios liberados o totalitarismo que impera em casa: o campo de refugiados em Katowice \u00e9 uma pris\u00e3o, mas qualquer um entra e sai dela a hora que quiser. Os comboios de prisioneiros s\u00e3o ora um trof\u00e9u para exibir \u00e0 burocracia em Moscou, ora um fardo com quem os militares precisam dividir a pouca comida que t\u00eam e por quem eles acabam se sentindo respons\u00e1veis \u2013 e at\u00e9 criando afei\u00e7\u00e3o. Tragic\u00f4mico e imposs\u00edvel de largar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><em>A guerra n\u00e3o tem rosto de mulher<\/em>, de Svetlana Aleksi\u00e9vitch (Companhia das Letras, 2013)<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/curupira\/wp-content\/uploads\/sites\/244\/2019\/12\/guerra.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-2\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img decoding=\"async\" class=\" wp-image-526 alignleft\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/curupira\/wp-content\/uploads\/sites\/244\/2019\/12\/guerra.jpg\" alt=\"guerra\" width=\"246\" height=\"369\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/curupira\/wp-content\/uploads\/sites\/244\/2019\/12\/guerra.jpg 333w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/curupira\/wp-content\/uploads\/sites\/244\/2019\/12\/guerra-200x300.jpg 200w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/curupira\/wp-content\/uploads\/sites\/244\/2019\/12\/guerra-300x450.jpg 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/curupira\/wp-content\/uploads\/sites\/244\/2019\/12\/guerra-133x200.jpg 133w\" sizes=\"(max-width: 246px) 100vw, 246px\" \/><\/a>A jornalista ucraniana Svetlana Aleksi\u00e9vitch ganhou o Pr\u00eamio Nobel por transformar em alta literatura o princ\u00edpio mais elementar do jornalismo: ouvir hist\u00f3rias de pessoas. Num trabalho que durou mais de uma d\u00e9cada, Aleksi\u00e9vitch ouviu mulheres que lutaram no Ex\u00e9rcito Vermelho ou nas brigadas de <em>partisans<\/em> que resistiram e por fim repeliram a invas\u00e3o alem\u00e3 na Segunda Guerra Mundial. Foi atr\u00e1s das sobreviventes e deixou que elas falassem \u2013 em alguns casos, hist\u00f3rias que eram mantidas em segredo at\u00e9 das fam\u00edlias das combatentes. O resultado \u00e9 a primeira narrativa feminina da guerra, que mostra uma dupla situa\u00e7\u00e3o-limite: a do combate e a de ser mulher no combate, com dificuldades que v\u00e3o das mais triviais (no come\u00e7o n\u00e3o havia uniformes adaptados a mulheres) at\u00e9 as mais profundas (convencer os pais e os comandantes de que combater os nazistas era um imperativo moral e de que elas eram t\u00e3o aptas quanto um homem \u2013 ou mais aptas, como mostraram as <em>snipers<\/em> sovi\u00e9ticas, terror do Ex\u00e9rcito alem\u00e3o).<\/p>\n<p>A obra de Aleksi\u00e9vitch ganhou as telas neste ano. Seu <em>Vozes de Tchern\u00f3bil<\/em>, com relatos de sobreviventes e familiares de mortos no desastre nuclear, inspirou personagens da s\u00e9rie Chernobyl, da HBO. Leia o livro e assista \u00e0 s\u00e9rie.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><em>O or\u00e1culo da noite<\/em>, de Sidarta Ribeiro (Companhia das Letras, 2019)<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/curupira\/wp-content\/uploads\/sites\/244\/2019\/12\/sid.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-3\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-527 alignleft\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/curupira\/wp-content\/uploads\/sites\/244\/2019\/12\/sid.jpg\" alt=\"sid\" width=\"283\" height=\"406\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/curupira\/wp-content\/uploads\/sites\/244\/2019\/12\/sid.jpg 348w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/curupira\/wp-content\/uploads\/sites\/244\/2019\/12\/sid-209x300.jpg 209w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/curupira\/wp-content\/uploads\/sites\/244\/2019\/12\/sid-300x431.jpg 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/curupira\/wp-content\/uploads\/sites\/244\/2019\/12\/sid-139x200.jpg 139w\" sizes=\"(max-width: 283px) 100vw, 283px\" \/><\/a>(Disclaimer: o autor \u00e9 meu amigo, o que dep\u00f5e contra ele, mas n\u00e3o contra a obra.)<\/p>\n<p>Anos atr\u00e1s, visitei Sidarta Ribeiro em Natal e ca\u00ed na besteira de criticar Freud na frente do neurocientista brasiliense. Sidarta abriu o computador e come\u00e7ou a mostrar uma s\u00e9rie de dados experimentais que confirmavam insights do pai da psican\u00e1lise sobre a origem e as fun\u00e7\u00f5es cognitivas do sonho. Um ponto do serm\u00e3o ficou na minha mem\u00f3ria: os dados de neuroimagem que confirmam a afirma\u00e7\u00e3o freudiana de que sonhos s\u00e3o restos diurnos embaralhados no c\u00e9rebro.<\/p>\n<p>Neste livro monumental, Ribeiro amplia a reabilita\u00e7\u00e3o de Freud, mas vai al\u00e9m: mostra como o sono e os sonhos ajudaram a moldar a cogni\u00e7\u00e3o humana, resumindo d\u00e9cadas de pesquisas sobre o tema, inclusive os estudos pioneiros dele pr\u00f3prio e de seus colegas.<\/p>\n<p>Sem poupar o leitor das evid\u00eancias neurocient\u00edficas e da descri\u00e7\u00e3o dos experimentos que embasam sua argumenta\u00e7\u00e3o, Ribeiro afirma que os sonhos foram objeto de sele\u00e7\u00e3o natural ao ajudarem a consolidar mem\u00f3rias e ao produzir simula\u00e7\u00f5es de estados f\u00edsicos para as quais mam\u00edferos possam se preparar estando num ambiente seguro e em repouso. O ca\u00e7ador pr\u00e9-hist\u00f3rico sonha com o mamute abatido, a presa sonha com o le\u00e3o. A produ\u00e7\u00e3o dessas simula\u00e7\u00f5es mentais deram aos sonhos o car\u00e1ter oracular que lhes era atribu\u00eddo na antiguidade.<\/p>\n<p>Com uma erudi\u00e7\u00e3o enorme e algum humor, transitando por epis\u00f3dios autobiogr\u00e1ficos e por tretas pesadas entre rivais cient\u00edficos, o <em>Or\u00e1culo<\/em> conduz o leitor a um passeio pela hist\u00f3ria humana, narrando casos de sonhos e sonhadores famosos, de reis da Mesopot\u00e2mia a guerreiros lakota do Oeste americano. Dialoga tamb\u00e9m com a ins\u00f4nia, esse mal da vida contempor\u00e2nea que priva a um n\u00famero crescente de pessoas do sonho. E convida-o a retomar o h\u00e1bito antigo de fazer \u201csonh\u00e1rios\u201d \u2013 lembrar-se de seus sonhos e registr\u00e1-los. Por fim, Ribeiro molha o tornozelo do leitor no campo emergente do uso terap\u00eautico de drogas psicod\u00e9licas, que induzem estados semelhantes ao sonho. Tema para mais um livro.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><em>O novo iluminismo<\/em>, de Steven Pinker (Companhia das Letras, 2019)<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/curupira\/wp-content\/uploads\/sites\/244\/2019\/12\/pinker.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-4\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-528 alignleft\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/curupira\/wp-content\/uploads\/sites\/244\/2019\/12\/pinker.jpg\" alt=\"pinker\" width=\"260\" height=\"373\" \/><\/a>O novo calhama\u00e7o do psic\u00f3logo canadense autor de <em>Como a mente funciona<\/em> \u00e9 uma defesa dos princ\u00edpios que nos deram o mundo tal qual o conhecemos hoje: a raz\u00e3o, a ci\u00eancia, o humanismo e o progresso. J\u00e1 resenhei a obra <a href=\"http:\/\/www.blogdacompanhia.com.br\/conteudos\/visualizar\/Bolsonaro-X-Montesquieu\">aqui<\/a> e n\u00e3o vou ficar me repetindo. Apenas recomendo-a.<\/p>\n<p>Ao longo do ano passado e deste apareceram cr\u00edticas ao livro de Pinker. Os cr\u00edticos dizem, n\u00e3o sem raz\u00e3o, que ele faz uma apologia do capitalismo e da ordem liberal, varrendo para debaixo do tapete a desigualdade extrema produzida por essa mesma ordem \u2013 que est\u00e1 na origem dos movimentos neofascistas que vicejam de Washington a Bras\u00edlia. Mas o ponto central do livro segue v\u00e1lido: a t\u00e9trade iluminista tem uma longa lista de bons servi\u00e7os prestados \u00e0 humanidade \u2013 inclusive a pesquisa m\u00e9dica que permitiu que boa parte das pessoas vivas hoje n\u00e3o tenha morrido de diarreia ou alguma infec\u00e7\u00e3o bacteriana banal na inf\u00e2ncia. E que o legado iluminista precisa ser defendido diante da mar\u00e9 obscurantista que parece tomar conta do mundo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><em>O clube dos jardineiros de fuma\u00e7a<\/em>, de Carol Bensimon (Companhia das Letras, 2018)<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/curupira\/wp-content\/uploads\/sites\/244\/2019\/12\/bensimon.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-5\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-529 alignleft\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/curupira\/wp-content\/uploads\/sites\/244\/2019\/12\/bensimon.jpg\" alt=\"bensimon\" width=\"245\" height=\"376\" \/><\/a>O livro da ga\u00facha Carol Bensimon sobre uma hist\u00f3ria de amor ambientada na regi\u00e3o produtora de maconha na Calif\u00f3rnia ganhou o Pr\u00eamio Jabuti de melhor romance de 2018 \u2013 e mereceu. A obra fala de Arthur, um professor que resolve plantar maconha em casa em Porto Alegre para ajudar no tratamento de c\u00e2ncer da m\u00e3e e por uma s\u00e9rie de raz\u00f5es vai parar em Mendoncino, no chamado Emerald Triangle, a vers\u00e3o americana do Pol\u00edgono da Maconha. Ali conhece Tamara, uma gar\u00e7onete com uma vida amorosa pregressa conturbada, e seu pai, Dusk. Arruma um trampo numa planta\u00e7\u00e3o podando camar\u00f5es. Trava contato com o lado bandido do cultivo. E \u00e9 meio isso.<\/p>\n<p>N\u00e3o acontece muita coisa na hist\u00f3ria, mas a ambienta\u00e7\u00e3o de Bensimon (com um leve subtexto antiproibicionista que permeia todo o livro em forma de hist\u00f3rias da guerra contra as drogas) \u00e9 t\u00e3o perfeita e seus personagens s\u00e3o t\u00e3o humanos que o livro se torna mais viciante que aquele skunk que voc\u00ea fumou em Amsterd\u00e3 e com o qual sonha at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><em>Como as democracias morrem<\/em>, de Steven Levitsky e Daniel Ziblatt (Zahar, 2018)<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/curupira\/wp-content\/uploads\/sites\/244\/2019\/12\/ziblatt.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-6\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-530 alignleft\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/curupira\/wp-content\/uploads\/sites\/244\/2019\/12\/ziblatt.jpg\" alt=\"ziblatt\" width=\"241\" height=\"346\" \/><\/a>O buzz, afinal, tinha raz\u00e3o de ser. Em 2018, dois professores de Harvard, Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, viraram best-sellers no Brasil com um livro que buscava explicar o que eles chamam de \u201crecess\u00e3o democr\u00e1tica\u201d, a ascens\u00e3o de autocratas que fazem uso dos mecanismos da democracia para chegar ao poder e ent\u00e3o subvert\u00ea-la. O livro fora feito, evidentemente, pensando no caso de Donald Trump, mas a elei\u00e7\u00e3o de 2018 e a ascens\u00e3o de Jair Bolsonaro forneceram \u00e0 dupla um estudo de caso em tempo real.<\/p>\n<p><em>Como as democracias morrem<\/em> mostra como autocratas eleitos da estirpe de Trump, Bolsonaro e Viktor Orb\u00e1n implantam regimes antidemocr\u00e1ticos sem recorrer ao m\u00e9todo old school do golpe militar. O controle da m\u00eddia, a perpetua\u00e7\u00e3o no poder, a entrega do Estado a compadres e a eros\u00e3o das liberdades, por\u00e9m, s\u00e3o os mesmos de qualquer ditadura.<\/p>\n<p>O livro apresenta um teste r\u00e1pido de identifica\u00e7\u00e3o de autocrata, que consiste em uma combina\u00e7\u00e3o de um ou mais dentre quatro fatores. Jair Bolsonaro se enquadra em <strong>todos<\/strong>: 1) Rejeitar, no ato ou o discurso, as regras democr\u00e1ticas do jogo (como fez Bolsonaro quando disse que n\u00e3o aceitaria nenhum resultado diferente de sua vit\u00f3ria); 2) Negar a legitimidade de oponentes (\u201cvermelhos na ponta da praia\u201d, \u201cfim de todo ativismo\u201d, voc\u00eas escolhem); 3) Tolerar ou encorajar a viol\u00eancia (\u201cn\u00e3o te estupro porque voc\u00ea n\u00e3o merece\u201d, \u201cUstra vive\u201d); e 4) Indicar disposi\u00e7\u00e3o para restringir liberdades de oponentes e da m\u00eddia (\u201cBrasil sem <em>Folha de S.Paulo<\/em>\u201d, amea\u00e7as \u00e0 concess\u00e3o da <em>Globo<\/em>, fim da publica\u00e7\u00e3o de editais em jornais para sufocar o <em>Valor<\/em>). A democracia no Brasil n\u00e3o est\u00e1 amea\u00e7ada; ela j\u00e1 foi comprometida.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><em>Pornopopeia<\/em>, de Reinaldo Moraes (Objetiva, 2008)<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/curupira\/wp-content\/uploads\/sites\/244\/2019\/12\/pornops.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-7\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-531 alignleft\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/curupira\/wp-content\/uploads\/sites\/244\/2019\/12\/pornops.jpg\" alt=\"pornops\" width=\"242\" height=\"372\" \/><\/a>Marcos Nobre uma vez disse que Reinaldo Moraes inventou a prosa paulistana. N\u00e3o sei se \u00e9 verdade \u2013 talvez Oswald de Andrade pudesse ter outra opini\u00e3o. Mas certamente Moraes inventou a prosa <em>em<\/em> paulistano. Se algu\u00e9m duvida tratar-se de um idioma pr\u00f3prio, basta ler <em>Pornopopeia<\/em>. O narrador e protagonista do livro, Zeca, \u00e9 um paulistano que se expressa em paulistano casti\u00e7o, com todas as abrevia\u00e7\u00f5es (\u201cSoss\u00f4\u201d, \u201ccomputinha\u201d) e todos os italianismos (\u201cque bronh\u00e3o, amice!\u201d) a que tem direito.<\/p>\n<p>Cineasta fracassado, morando na produtora que montou de favor num im\u00f3vel do do cunhado em Higien\u00f3polis, Zeca se mete numa confus\u00e3o hom\u00e9rica enquanto procrastina para fazer um frila em plena guerra da pol\u00edcia com o PCC, em 2006. \u00c9 um personagem sem superego nenhum, que est\u00e1 sempre em busca do pr\u00f3ximo rabo de saia, da pr\u00f3xima carreira de p\u00f3, do pr\u00f3ximo baseado e da pr\u00f3xima \u201cbreja\u201d. \u00c9 um tioz\u00e3o canalha e ego\u00edsta que resume sua vida a satisfazer seus sentidos \u2013 do qual o leitor n\u00e3o sabe se sente raiva, pena ou inveja.<\/p>\n<p>A quem quiser se aventurar, um alerta: <em>Pornopopeia<\/em> \u00e9 um livro sem censura. Nenhuma. Os excessos de Zeca, hil\u00e1rios, podem chocar muita gente, e desconfio de que o autor d\u00ea risadinhas internas a cada cena em que os leitores fazem uma careta e dizem \u201cmas n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel!\u201d ou \u201ccaralho, que nojo!\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><em>Miles, an autobiography<\/em>, de Miles Davis e Quincy Troupe (Simon&amp;Schuster, 1989)<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/curupira\/wp-content\/uploads\/sites\/244\/2019\/12\/miles.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-8\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-532 alignleft\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/curupira\/wp-content\/uploads\/sites\/244\/2019\/12\/miles.jpg\" alt=\"miles\" width=\"291\" height=\"444\" \/><\/a>Esque\u00e7a a m\u00fasica por um instante. A autobiografia deliciosa de Miles Davis (que teve uma \u00fanica edi\u00e7\u00e3o brasileira) \u00e9, antes de qualquer coisa, um livro sobre racismo. Dono de uma carreira longeva, que foi da Segunda Guerra at\u00e9 sua morte, em 1991, Miles participou de momentos decisivos na hist\u00f3ria da m\u00fasica ocidental, do surgimento do <em>bebop<\/em> at\u00e9 os excessos eletr\u00f4nicos dos anos 1980, passando pelo que talvez seja sua grande contribui\u00e7\u00e3o, o <em>cool jazz<\/em>. Nesse per\u00edodo, tamb\u00e9m testemunhou mudan\u00e7as na rela\u00e7\u00e3o da sociedade americana com os negros, da vig\u00eancia das leis de segrega\u00e7\u00e3o no sul at\u00e9 a conquista dos direitos civis.<\/p>\n<p>Mesmo vindo de uma fam\u00edlia abastada de East Saint Louis (seu av\u00f4, Miles Davis, foi o primeiro negro a ter uma fazenda no Estado, e seu pai, Miles Davis II, era um conceituado dentista), Miles experimentou a segrega\u00e7\u00e3o racial e fez do orgulho negro a t\u00f4nica de sua vida (al\u00e9m de uma birra injustificada com o genial Chet Baker s\u00f3 porque este era branco). H\u00e1 passagens dram\u00e1ticas, como a pris\u00e3o em Nova York ap\u00f3s uma briga com um policial branco que aparentemente n\u00e3o tinha entendido que o crioulo que ele tentava enquadrar na sa\u00edda de um teatro era o mesmo sujeito cujo nome brilhava no letreiro do teatro. E outras hil\u00e1rias, como a ocasi\u00e3o em que Miles foi visitar sua amante, a atriz francesa Juliette Gr\u00e9co, no hotel Waldorf-Astoria, acompanhado de um colega m\u00fasico. \u201cN\u00e3o acreditaram quando dois crioulos apareceram no hotel numa Ferrari, e voc\u00ea deveria ter visto a cara do filho da puta do recepcionista quando os mesmos crioulos pediram para ligar para a su\u00edte daquela atriz francesa famosa e ela os mandou subir\u201d, relembra Miles, em sua prosa peculiar, na qual <em>motherfucker<\/em> pode ser tanto \u201cfilho da puta\u201d quanto simplesmente \u201ccara\u201d, <em>bad<\/em> em geral conota alta habilidade ou beleza e <em>bad as a motherfucker<\/em> \u00e9 um elogio reservado a pouca gente, como John Coltrane (\u201c<em>Trane was bad as a motherfucker<\/em>\u201d), Wayne Shorter ou Prince.<\/p>\n<p>Para quem gosta de jazz, \u00e9 um livro para ler com o Spotify ligado e passear por cinco d\u00e9cadas da hist\u00f3ria do estilo, ouvindo a discografia de Miles e seus companheiros, gigantes como Charlie Parker, Dizzy Gillespie, Thelonious Monk, Charles Mingus e Bud Powell.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><em>M\u00e1quinas com eu<\/em>, de Ian McEwan (Companhia das Letras, 2019)<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/curupira\/wp-content\/uploads\/sites\/244\/2019\/12\/maquinas.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-9\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-533 alignleft\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/curupira\/wp-content\/uploads\/sites\/244\/2019\/12\/maquinas.jpg\" alt=\"maquinas\" width=\"246\" height=\"369\" \/><\/a>N\u00e3o costumo ler fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. Peguei esse livro do McEwan para ler numa viagem longa de avi\u00e3o torcendo o nariz, s\u00f3 porque ele pesava pouco na mochila \u2013 e devorei. A hist\u00f3ria \u00e9 sobre as rela\u00e7\u00f5es entre um londrino desocupado, sua vizinha universit\u00e1ria e um androide que ele compra num surto de curiosidade e que, claro, revela-se autoconsciente e cheio de dramas existenciais. O drama se passa em 1982 e parte de uma premissa genial: Alan Turing, pai da computa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o se matou nos anos 50 ap\u00f3s ser condenado a um tratamento para \u201ccurar\u201d sua homossexualidade. Portanto, a revolu\u00e7\u00e3o dos computadores e da intelig\u00eancia artificial acontece d\u00e9cadas antes.<\/p>\n<p>O livro de McEwan \u00e9 assombroso pelas reflex\u00f5es que capta no <em>Zeitgeist<\/em> sobre intelig\u00eancia e aprendizado de m\u00e1quinas, mas tamb\u00e9m pelos conflitos humanos que ele explora magistralmente em sua obra e que escritores de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica nem sempre conseguem. Para os f\u00e3s do escritor brit\u00e2nico, uma dica: o tema da repara\u00e7\u00e3o est\u00e1 muito presente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><em>A Zona morta<\/em>, de Stephen King (Suma de Letras, 2017)<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/curupira\/wp-content\/uploads\/sites\/244\/2019\/12\/zona.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-10\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-534 alignleft\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/curupira\/wp-content\/uploads\/sites\/244\/2019\/12\/zona.jpg\" alt=\"zona\" width=\"274\" height=\"393\" \/><\/a>Se houvesse o equivalente liter\u00e1rio daquele quadro \u201cGosto, sim, e da\u00ed?\u201d do Jo\u00e3o Marcelo B\u00f4scoli, Stephen King seria minha escolha. O povo s\u00e9rio chama o escritor americano de \u201csubliteratura\u201d, estereotipada, cheia de clich\u00eas e com personagens rasos. Eu prefiro chamar de \u201cmagistral\u201d. Atire o primeiro absorvente no chuveiro quem n\u00e3o se arrepiou com <em>Carrie, a estranha<\/em>, <em>O iluminado<\/em> ou o recentemente refilmado <em>It<\/em>. King \u00e9 indissoci\u00e1vel da cultura pop contempor\u00e2nea, a ponto de receber cita\u00e7\u00f5es desde os Ramones (<em>Pet Sematery<\/em>) at\u00e9 os <em>Simpsons<\/em> (a redoma sobre Springfield)<\/p>\n<p>Feito o nariz-de-cera, peguei <em>Zona Morta<\/em> para ler por divers\u00e3o numa folga de meio de ano e acabei descobrindo paralelos arrepiantes com \u2013 sempre ele \u2013 o governo Bolsonaro. No livro de King, John Smith descobre que tem habilidades paranormais ap\u00f3s sofrer um acidente que o deixou anos em coma. Ele pode ver o futuro ao encostar nas pessoas, o que se torna dram\u00e1tico ap\u00f3s apertar a m\u00e3o de um pol\u00edtico em ascens\u00e3o chamado Greg Stillson.<\/p>\n<p>Stillson \u00e9 uma caricatura do pol\u00edtico perigoso \u2013 inescrupuloso, cruel, truculento e com grandes ambi\u00e7\u00f5es. Os paralelos com Ricardo Salles ficar\u00e3o evidentes para quem ler.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ah, as listas de fim de ano. T\u00e3o inescap\u00e1veis quanto treta pol\u00edtica com parente no jantar de Natal, t\u00e3o previs\u00edveis quanto cachorro com medo de fogos e t\u00e3o irresist\u00edveis quanto a segunda ta\u00e7a de espumante. 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