{"id":61,"date":"2007-07-17T12:32:10","date_gmt":"2007-07-17T15:32:10","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/dimensional\/2007\/07\/ic004\/"},"modified":"2007-07-17T12:32:10","modified_gmt":"2007-07-17T15:32:10","slug":"ic004","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/dimensional\/2007\/07\/17\/ic004\/","title":{"rendered":"O Grande Debate do Unic\u00f3rnio"},"content":{"rendered":"<blockquote>\n<p align=\"justify\"><strong><font color=\"#000000\">\u201cDou cem d\u00f3lares se algu\u00e9m puder demonstrar que n\u00e3o existe um unic\u00f3rnio imaterial nesta sala.\u201d<\/font><\/strong><\/p>\n<p align=\"justify\" class=\"snap_preview\"><font color=\"#000000\">Quando eu disse isso aos meus alunos num curso sobre ci\u00eancia e pseudoci\u00eancia, eles me olharam com descren\u00e7a. Suspeito que a incredulidade n\u00e3o seja pela \u00f3bvia impossibilidade da tarefa, mas pelo fato do professor colocar uma nota de cem sua na mesa para provar uma posi\u00e7\u00e3o. Assim come\u00e7ou o Grande Debate do Unic\u00f3rnio, que durou v\u00e1rias semanas, at\u00e9 que a energia intelectual dos participantes tivesse sido exaurida. As primeiras tentativas de resolver o problema foram geradas por uma m\u00e1 compreens\u00e3o da quest\u00e3o: um dos estudantes declarou que era muito simples: basta encher a sala com \u00e1gua, e o corpo do unic\u00f3rnio deslocaria um certo volume de \u00e1gua, o que revelaria a presen\u00e7a ou demonstraria a aus\u00eancia do animal (aparentemente, preocupa\u00e7\u00f5es \u00e9ticas sobre a possibilidade de afogar o unic\u00f3rnio estavam fora da proposta). \u201cEu disse \u2018imaterial\u2019, n\u00e3o \u2018invis\u00edvel,\u2019\u201d lembrei. Como todos sabem, a \u00e1gua passa por corpos imateriais sem ser deslocada. \u201cOh!\u201d As tentativas seguintes foram forjadas mais cuidadosamente.<\/font><\/p>\n<p align=\"justify\" class=\"snap_preview\"><span><font color=\"#000000\"><\/font><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\" class=\"snap_preview\"><font color=\"#000000\">Um esfor\u00e7o particularmente esperto \u2014 que claramente pegou o objetivo do exerc\u00edcio \u2014 foi: \u201cN\u00e3o h\u00e1 unic\u00f3rnios imateriais nesta sala de aula, porque em nossa sala existe uma condi\u00e7\u00e3o atmosf\u00e9rica, indetect\u00e1vel por qualquer dispositivo que temos atualmente, que faz com que unic\u00f3rnios materiais se materializem, dessa forma tornando-os vis\u00edveis a olho nu\u201d. Fala em me vencer no meu pr\u00f3prio jogo.Mas eu n\u00e3o ia deixar meus cem irem embora t\u00e3o f\u00e1cil. <strong>Eu respondi que a pessoa em quest\u00e3o obviamente n\u00e3o entendia os mist\u00e9rios do Unicornismo<\/strong>, ou perceberia o quanto essa tentativa foi tola.<\/font><\/p>\n<p align=\"justify\" class=\"snap_preview\"><font color=\"#000000\">Uma aluna veio com uma solu\u00e7\u00e3o filosoficamente mais desafiadora ao problema:<\/font><\/p>\n<ul>\n<li><font color=\"#000000\">Fato 1: Imaterialidade \u00e9 definido como aus\u00eancia de mat\u00e9ria.<\/font><\/li>\n<li><font color=\"#000000\">Fato 2: A mat\u00e9ria n\u00e3o pode ser criada nem destru\u00edda.<\/font><\/li>\n<li><font color=\"#000000\">Conclus\u00e3o 1: Algo imaterial n\u00e3o pode ser criado nem destru\u00eddo.<\/font><\/li>\n<li><font color=\"#000000\">Fato 3: O pensamento existe apenas como algo imaterial.<\/font><\/li>\n<li><font color=\"#000000\">Fato 4: O pensamente existe apenas na pr\u00f3pria mente.<\/font><\/li>\n<li><font color=\"#000000\">Conclus\u00e3o 2: H\u00e1 algo imaterial que existe apenas na pr\u00f3pria mente.<\/font><\/li>\n<li><font color=\"#000000\">Conclus\u00e3o 3: A presen\u00e7a de algo imaterial pode ser criada ou destru\u00edda apenas na pr\u00f3pria mente.<\/font><\/li>\n<li><font color=\"#000000\">Conclus\u00e3o 4: A cria\u00e7\u00e3o ou destrui\u00e7\u00e3o de algo imaterial na pr\u00f3pria mente \u00e9 determinada pela cren\u00e7a.<\/font><\/li>\n<li><font color=\"#000000\">Conclus\u00e3o Final: N\u00e3o h\u00e1 um unic\u00f3rnio imaterial e invis\u00edvel a n\u00e3o ser que se creia nisso dentro da pr\u00f3pria mente.<\/font><\/li>\n<\/ul>\n<p align=\"justify\"><font color=\"#000000\">Maldi\u00e7\u00e3o! Queria que mais te\u00f3logos mostrassem um senso de racioc\u00ednio t\u00e3o agu\u00e7ado.<\/font><\/p>\n<p align=\"justify\"><font color=\"#000000\">Ainda assim, n\u00e3o era bom o bastante, e pedi \u00e0 turma que verificasse a prova apresentada e visse onde estavam as falhas. Em meia hora de discuss\u00e3o, v\u00e1rios problemas foram revelados.<\/font><\/p>\n<p align=\"justify\"><font color=\"#000000\">Primeiro, a f\u00edsica moderna n\u00e3o sustenta mais que a mat\u00e9ria n\u00e3o pode ser criada nem destru\u00edda. De fato, de acordo com a mec\u00e2nica qu\u00e2ntica, esses processos acontecem o tempo todo. A raz\u00e3o pela qual normalmente n\u00e3o os detectamos \u00e9 que s\u00e3o muito r\u00e1pidos e se equilibram perfeitamente, assim n\u00e3o esperamos que uma cadeira subitamente apare\u00e7a do nada ou desapare\u00e7a. (Embora, pela teoria das supercordas, esse tipo de flutua\u00e7\u00e3o qu\u00e2ntica pode ter sido respons\u00e1vel pela origem do Universo, que teria literalmente vido \u00e0 exist\u00eancia de lugar nenhum. Assustador\u2026)<\/font><\/p>\n<p align=\"justify\"><font color=\"#000000\">Segundo, quem disse que o pensamento \u00e9 imaterial? Alguns remanescentes cartesianos podem ainda pensar assim, mas no s\u00e9culo 21 est\u00e1 se tornando mais aceit\u00e1vel considerar o pensamente como um aspecto de atividades bem f\u00edsicas ocorrendo no c\u00e9rebro. De fato, podemos medir quais partes do c\u00e9rebro est\u00e3o envolvidas em v\u00e1rios tipos de pensamentos e at\u00e9 sentimentos. N\u00e3o quer dizer que tenhamos um entendimento total do que \u00e9 o pensamento &#8211; longe disso. Mas as chances de que se mostre que s\u00e3o imateriais (no sentido de n\u00e3o depender da mat\u00e9ria) s\u00e3o muito reduzidas.<\/font><\/p>\n<p align=\"justify\"><font color=\"#000000\">Mas observe que eu concordo plenamente com a conclus\u00e3o: n\u00e3o h\u00e1 unic\u00f3rnio imaterial a n\u00e3o ser que se acredite nisso na sua pr\u00f3pria mente. Mas a \u00fanica justificativa que eu (ou qualquer um, at\u00e9 onde eu saiba) posso dar para tal conclus\u00e3o \u00e9 a minha pr\u00f3pria intui\u00e7\u00e3o.<\/font><\/p>\n<p align=\"justify\"><font color=\"#000000\">A mesma aluna apresentou outro argumento, dessa vez baseado nas leis da f\u00edsica. Ela corretamente sustentou que um unic\u00f3rnio imaterial n\u00e3o poderia ser afetado pelas leis da f\u00edsica, ou se aproveitar delas, por ser imaterial por defini\u00e7\u00e3o. Assim, poder\u00edamos imaginar o unic\u00f3rnio como um ponto imaterial sem extens\u00e3o, como um ponto euclidiano. Tal ponto imaterial n\u00e3o poderia \u201cficar\u201d na sala porque a pr\u00f3pria sala \u2014 junto com a Terra e o Sistema Solar \u2014 se move pelo espa\u00e7o em alta velocidade. O cerne dessa demonstra\u00e7\u00e3o depende na intui\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio Descartes do problema em que se meteu propondo um conceito dual\u00edstico do corpo humano: <strong>se a mente n\u00e3o \u00e9 corp\u00f3rea, como ela afeta o corpo?<\/strong><\/font><\/p>\n<p align=\"justify\"><font color=\"#000000\">Descartes \u201cresolveu\u201d o problema postulando que a gl\u00e2ndula pineal era a sede da alma. Mas, como todos os fil\u00f3sofos depois dele perceberam, minimizar o tamanho do ponto de contato entre o material e o imaterial (a gl\u00e2ndula pineal \u00e9 a menor do sistema end\u00f3crino) n\u00e3o desfaz o paradoxo de uma entidade imaterial agindo sobre a mat\u00e9ria (ou vice versa). De fato, isso \u00e9 o que torna fantasmas, ectoplasmas e experi\u00eancias extracorp\u00f3reas t\u00e3o dif\u00edceis de acreditar: se voc\u00ea est\u00e1 fora do corpo, como voc\u00ea se v\u00ea deitado na cama? Com que olhos? Que c\u00e9rebro h\u00e1 para processar o sinal visual? E, dado que seu sentido de \u201csi\u201d depende de ter um c\u00e9rebro funcionando, quem \u00e9 voc\u00ea, quando voc\u00ea est\u00e1 fora do corpo?<\/font><\/p>\n<p align=\"justify\"><font color=\"#000000\">Mas, claro, para salvar meu dinheirinho, s\u00f3 o que eu precisava responder era que \u2014 de novo \u2014 os mist\u00e9rios do Unicornismo dizem n\u00e3o apenas que o unic\u00f3rnio imaterial n\u00e3o \u00e9 um ponto, mas que ele permanece na sala sem problema, \u00e9 macho, tem um metro e meio de altura e \u00e9 branco (como eu sei que ele \u00e9 branco se ele \u00e9 imaterial e invis\u00edvel? Bem, a essa altura voc\u00ea deve saber: \u00e9 um mist\u00e9rio do Unicornismo\u2026).<\/font><\/p>\n<p align=\"justify\"><font color=\"#000000\">Ao fim, meus alunos concordaram que n\u00e3o h\u00e1 maneira de demonstrar a inexist\u00eancia do unic\u00f3rnio fantasmal. Depois de garantir meus cem d\u00f3lares, eu perguntei se apesar de tudo eles acreditavam na exist\u00eancia do unic\u00f3rnio. A resposta foi unanimemente negativa. \u201cPor qu\u00ea?\u201d, perguntei, fingindo surpresa. \u201c<strong>Porque \u00e9 tolice acreditar em uma coisa para o qual n\u00e3o h\u00e1 evid\u00eancia<\/strong>,\u201d foi a aturdida resposta geral. Alguns segundos depois, algu\u00e9m perguntou: \u201cEnt\u00e3o qual \u00e9 a diferen\u00e7a para a cren\u00e7a em Deus?\u201d Mas a hora da aula havia terminado, e deixei-os discutindo teologia, com a satisfa\u00e7\u00e3o de ter feito um bom trabalho.<\/font><\/p>\n<\/blockquote>\n<p align=\"right\" class=\"snap_preview\"><font color=\"#000000\">Texto de <\/font><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Massimo_Pigliucci\" rel=\"noopener noreferrer\"><font color=\"#000000\">Massimo Pigliucci<\/font><\/a><font color=\"#000000\">, Via <\/font><a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/godlessliberator.blogspot.com\/\" rel=\"noopener noreferrer\"><font color=\"#000000\">Godless Liberator<\/font><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cDou cem d\u00f3lares se algu\u00e9m puder demonstrar que n\u00e3o existe um unic\u00f3rnio imaterial nesta sala.\u201d Quando eu disse isso aos meus alunos num curso sobre ci\u00eancia e pseudoci\u00eancia, eles me olharam com descren\u00e7a. Suspeito que a incredulidade n\u00e3o seja pela \u00f3bvia impossibilidade da tarefa, mas pelo fato do professor colocar uma nota de cem sua [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":518,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":[],"footnotes":""},"categories":[17],"tags":[],"class_list":["post-61","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-outros"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/dimensional\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/61","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/dimensional\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/dimensional\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/dimensional\/wp-json\/wp\/v2\/users\/518"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/dimensional\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=61"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/dimensional\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/61\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/dimensional\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=61"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/dimensional\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=61"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/dimensional\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=61"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}