{"id":116,"date":"2009-01-29T12:14:00","date_gmt":"2009-01-29T15:14:00","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/discutindoecologia\/2009\/01\/como-nao-ensinar-selecao-natural-para-seus-alunos\/"},"modified":"2009-01-29T12:14:00","modified_gmt":"2009-01-29T15:14:00","slug":"como-nao-ensinar-selecao-natural-para-seus-alunos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/discutindoecologia\/2009\/01\/como-nao-ensinar-selecao-natural-para-seus-alunos\/","title":{"rendered":"Como N\u00c3O ensinar sele\u00e7\u00e3o natural para seus alunos"},"content":{"rendered":"<p><\/p>\n<div style=\"text-align: justify\">Bem, depois de uma descri\u00e7\u00e3o t\u00e3o distorcida do que \u00e9 sele\u00e7\u00e3o natural, vamos por partes. O trecho acima fez parte do primeiro programa especial sobre Darwin (de um total de 4) que foi exibido na quarta-feira no canal a cabo GloboNews.<\/div>\n<p><\/p>\n<ul>\n<li>&#8220;A natureza \u00e9 uma guerr<span style=\"font-size: 100%\">a<\/span><span style=\"font-size: 100%\">(1) e<\/span>ntre esp\u00e9cies(2)&#8230;&#8221;<\/li>\n<\/ul>\n<p><\/p>\n<div style=\"text-align: justify\">(1) N\u00e3o meu caro. Primeiro que a utiliza\u00e7\u00e3o do termo &#8220;guerra&#8221; leva a um erro cl\u00e1ssico. \u00c9 claro que a competi\u00e7\u00e3o tem um papel muito importante na  teoria de Darwin, mas cada vez mais vemos o relevante papel das intera\u00e7\u00f5es positivas.  Em um ambiente como o manguezal, o crescimento radial das ra\u00edzes de plantas como a <a href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Laguncularia_racemosa\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Laguncularia racemosa<\/a> estabiliza o sedimento fino caracter\u00edstico deste ecossistema. Desta forma, outras plantas podem agora ocupar a \u00e1rea, mais est\u00e1vel pela conten\u00e7\u00e3o do sedimento. \u00c9 o que chamamos em ecologia de &#8220;esp\u00e9cies engenheiras&#8221;, que alteram o ambiente a sua volta e n\u00e3o est\u00e3o apenas submetidas as suas flutua\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>(2) N\u00e3o. A luta pela exist\u00eancia (em termos darwinianos) ocorre entre indiv\u00edduos e n\u00e3o entre esp\u00e9cies. O hist\u00f3rico deste pensamento essencialista \u00e9 muito bem retratado por <a href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Ernst_Mayr\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Ernst Mayr<\/a> em seu livro &#8220;Uma ampla discuss\u00e3o&#8221; (FUNPEC editora, 2006), onde ele discute este assunto em um trecho intitulado &#8220;Luta entre esp\u00e9cies ou entre indiv\u00edduos?&#8221;.  A unidade de sele\u00e7\u00e3o (onde realmente a sele\u00e7\u00e3o natural atua) \u00e9 o indiv\u00edduo, j\u00e1 que a diferencia\u00e7\u00e3o das caracter\u00edsticas &#8220;vis\u00edveis&#8221; pela sele\u00e7\u00e3o natural (fen\u00f3tipo) ocorrem neste n\u00edvel. Existe uma frente de cientistas que defendem o gene como a unidade de sele\u00e7\u00e3o. <a href=\"http:\/\/www.jornaldaciencia.org.br\/Detalhe.jsp?id=23972\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Segundo<\/a> um de seus mais famosos defensores, Richard Dawkins, &#8220;(&#8230;) A unidade de sele\u00e7\u00e3o no sentido de replicador \u00e9 o gene. E no sentido de ve\u00edculo, o organismo. Ambas s\u00e3o igualmente importantes. S\u00f3 fazem coisas diferentes. N\u00e3o est\u00e3o competindo pelo papel de unidade de sele\u00e7\u00e3o&#8221;. Diverg\u00eancias a parte, a unidade de sele\u00e7\u00e3o definitivamente n\u00e3o \u00e9 a esp\u00e9cie. Quando definimos que a unidade de sele\u00e7\u00e3o \u00e9 o indiv\u00edduo abrimos os olhos para a competi\u00e7\u00e3o intraespec\u00edfica, que pode ser t\u00e3o ou at\u00e9 mais importante do que a competi\u00e7\u00e3o interespec\u00edfica. Se pensarmos apenas em esp\u00e9cie, esquecemos este componente t\u00e3o importante das intera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<\/div>\n<ul style=\"text-align: justify\">\n<li>&#8220;(&#8230;) e que as mais fortes e mais adapt\u00e1veis s\u00e3o as que sobrevivem&#8221;<\/li>\n<\/ul>\n<div style=\"text-align: justify\">Mesmos erros do in\u00edcio da frase. Passar a ideia que as esp\u00e9cies (e n\u00e3o indiv\u00edduos) s\u00e3o as unidades da sele\u00e7\u00e3o. Usar o termo &#8220;mais forte&#8221; associado a imagem de um le\u00e3o atacando uma hiena \u00e9 uma p\u00e9ssima maneira de se passar o conceito de sele\u00e7\u00e3o natural. Parece que somente os organismos que forem mais fortes fisicamente sobrevivem. Diga isso as bact\u00e9rias e archeas. Elas v\u00e3o rir muito. Outra coisa, o que significa uma &#8220;esp\u00e9cie adapt\u00e1vel&#8221;? Segundo o tio <a href=\"http:\/\/michaelis.uol.com.br\/moderno\/portugues\/index.php?lingua=portugues-portugues&amp;palavra=adapt%E1vel\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">michaelis<\/a>, algo adapt\u00e1vel \u00e9 algo que pode ser adaptado, como um livro \u00e9 adapt\u00e1vel para se tornar um roteiro de filme. A p\u00e9ssima analogia passa o conceito de que as esp\u00e9cies (segundo o jornalista)  podem se adaptar, como se fosse algo direcionado. Na verdade os indiv\u00edduos j\u00e1 nascem com um fen\u00f3tipo correspondente a um gen\u00f3tipo que pode ser ou n\u00e3o vantajoso em seu ambiente espec\u00edfico.<\/p>\n<\/div>\n<ul style=\"text-align: justify\">\n<li>&#8220;(&#8230;) Quando as esp\u00e9cies se reproduzem fazem c\u00f3pias de si pr\u00f3prias, nem sempre id\u00eanticas, pois ocorrem muta\u00e7\u00f5es ou desvios que criam variedade. Darwin chamou isso de sele\u00e7\u00e3o natural.&#8221;<\/li>\n<\/ul>\n<div style=\"text-align: justify\">Tirando a defini\u00e7\u00e3o que eu considero pessoalmente ruim de reprodu\u00e7\u00e3o e muta\u00e7\u00e3o, podemos ver neste ponto que o jornalista se perdeu completamente. Ser\u00e1 que eu estou sendo tendencioso ou ele disse Darwin chamou as muta\u00e7\u00f5es e os &#8220;desvios&#8221; de sele\u00e7\u00e3o natural? Como a gera\u00e7\u00e3o de variedade pode vir depois do que ele chamou de &#8220;guerra&#8221;? N\u00e3o h\u00e1 l\u00f3gica nesta constru\u00e7\u00e3o de frase. Primeiro devem ocorrer muta\u00e7\u00f5es para gerar variedade e, posteriormente, os indiv\u00edduos mais adaptados ao ambiente em que ele est\u00e1 inserido, sobreviver\u00e3o e ter\u00e3o maior sucesso reprodutivo.<\/p>\n<p>Depois dessa aula de como a divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica n\u00e3o deve ser feita, nada melhor do que o grande bi\u00f3logo Ernst Mayr para ensinar aos jornalistas da Globo o que realmente \u00e9 sele\u00e7\u00e3o natural.<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;(&#8230;) O termo, simplesmente, refere-se  ao fato de que somente uma pequena parte da prole de um grupo de genitores sobrevive o suficiente para se reproduzir. N\u00e3o h\u00e1 uma for\u00e7a seletiva particular na natureza, nem um agente seletivo definido. H\u00e1 muitas causas poss\u00edveis para o sucesso de poucos sobreviventes. Alguma sobreviv\u00eancia \u00e9 devido a processos estoc\u00e1sticos, isto \u00e9, pura sorte. A maior parte, entretanto, \u00e9 devido ao trabalho superior da fisiologia do indiv\u00edduo sobrevivente, que permite enfrentar as vicissitudes do ambiente melhor do que os outros membros da popula\u00e7\u00e3o. A sele\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode ser dissecada em por\u00e7\u00f5es internas e externas. O que determina o sucesso de um indiv\u00edduo \u00e9 precisamente a capacidade da maquinaria interna do organismo (incluindo o seu sistema imune) de enfrentar os desafios do ambiente. N\u00e3o \u00e9 o ambiente que seleciona, mas o organismo que enfrenta o ambiente com muito ou com pouco sucesso. N\u00e3o h\u00e1 nenhuma for\u00e7a externa.&#8221;<\/p><\/blockquote>\n<\/div>\n<div style=\"text-align: right\">Uma Ampla Discuss\u00e3o. Ernst Mayr. FUNPEC editora, 2006. P\u00e1ginas 86-87.<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bem, depois de uma descri\u00e7\u00e3o t\u00e3o distorcida do que \u00e9 sele\u00e7\u00e3o natural, vamos por partes. 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