{"id":121,"date":"2009-02-03T19:01:00","date_gmt":"2009-02-03T22:01:00","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/discutindoecologia\/2009\/02\/quem-era-o-naturalista-a-bordo-do-beagle\/"},"modified":"2009-02-03T19:01:00","modified_gmt":"2009-02-03T22:01:00","slug":"quem-era-o-naturalista-a-bordo-do-beagle","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/discutindoecologia\/2009\/02\/quem-era-o-naturalista-a-bordo-do-beagle\/","title":{"rendered":"Quem era o naturalista a bordo do Beagle?"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align:justify\"><span style=\"font-size:85%\"><\/span>A pergunta que eu fiz neste <a href=\"http:\/\/discutindoecologia.blogspot.com\/2009\/01\/enigma-de-sexta.html\">post<\/a> parece simples mas n\u00e3o \u00e9. A primeira vista parece mais uma daquelas perguntas chatas que nos fazem decorar a resposta e que s\u00f3 ter\u00e3o utilidade em programas de televis\u00e3o de quinta categoria. Esta na verdade poderia ser a pergunta de 1 milh\u00e3o e quase ningu\u00e9m (tirando ec\u00f3logos como o <a href=\"http:\/\/uleinpa.blogspot.com\/\">Saci<\/a>) acertaria. A resposta correta \u00e9 Robert McCormick. Ele era o cirurgi\u00e3o a bordo e ocupou a posi\u00e7\u00e3o oficial de naturalista do Beagle. Esta descoberta interessante foi feita pelo antrop\u00f3logo Jacob W. Gruber e publicada no <span style=\"font-style:italic\">The British Journal for the History of Science<\/span> em 1969.<\/div>\n<div style=\"text-align:center\">\n<div style=\"text-align:justify\">\n<div style=\"text-align:center\"><a href=\"http:\/\/4.bp.blogspot.com\/_bbdlOygs1WQ\/SYisVf4cR0I\/AAAAAAAABiI\/4OPqzyFUQXg\/s1600-h\/gruber-beagle.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-0\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img decoding=\"async\" style=\"cursor:pointer;width:270px;height:400px\" src=\"http:\/\/4.bp.blogspot.com\/_bbdlOygs1WQ\/SYisVf4cR0I\/AAAAAAAABiI\/4OPqzyFUQXg\/s400\/gruber-beagle.jpg\" alt=\"\" border=\"0\" \/><\/a><br \/><span style=\"font-size:85%\">Capa do artigo sobre o naturalista do Beagle.  Fonte: <a href=\"http:\/\/journals.cambridge.org\/\">Cambridge Journals<\/a><\/span><\/p>\n<p><\/p>\n<div style=\"text-align:justify\">Para chegar a conclus\u00e3o de que o cirurgi\u00e3o a bordo do Beagle era o naturalista oficial da embarca\u00e7\u00e3o e n\u00e3o Charles Darwin, Gruber fez uma an\u00e1lise baseada em cartas da \u00e9poca, j\u00e1 que em nenhum documento oficial havia a identifica\u00e7\u00e3o de quem seria realmente o naturalista do Beagle. Primeiramente Gruber ressaltou o contexto hist\u00f3rico. A marinha brit\u00e2nica tinha uma longa tradi\u00e7\u00e3o de m\u00e9dicos-naturalistas e McCormick era instru\u00eddo para tal fun\u00e7\u00e3o, tendo participado de outras expedi\u00e7\u00f5es exercendo este cargo. Mas a prova irrefut\u00e1vel ainda estava por vir. Em uma carta escrita pelo naturalista Robert Jameson foram feitos v\u00e1rios conselhos ao naturalista do Beagle, manuais de como coletar e preservar amostras. A mesma foi endere\u00e7ada a Robert McCormick. Desta forma, um mist\u00e9rio que durou mais de 100 anos foi desvendado. Mas se Darwin n\u00e3o era o naturalista a bordo do Beagle, porque e como ele fez parte desta viagem?<\/p>\n<p>Charles Darwin fez a viagem mais importante de sua vida (e uma das mais importantes da hist\u00f3ria da ci\u00eancia) como companheiro do capit\u00e3o, Robert FitzRoy. Voc\u00ea deve estar me perguntando, como assim &#8220;companheiro&#8221;? Ele j\u00e1 conhecia o capit\u00e3o FitzRoy antes da viagem? Na verdade n\u00e3o. Ele conheceu o capit\u00e3o do Beagle apenas 1 m\u00eas antes da grande viagem. Para entendermos o motivo desta situa\u00e7\u00e3o incomum, devemos pensar de forma contextualizada. Viagens deste tipo era muito longas, onde o contato com amigos e familiares era m\u00ednimo. Al\u00e9m disso, a marinha brit\u00e2nica desincentivava o contado pessoal do capit\u00e3o do navio com a tripula\u00e7\u00e3o de &#8220;n\u00edvel inferior&#8221;. FitzRoy era relativamente novo (26 anos) e o \u00faltimo capit\u00e3o do Beagle tinha se suicidado. Realmente n\u00e3o era um contexto favor\u00e1vel.<\/p>\n<div style=\"text-align:center\"><\/div>\n<div style=\"text-align:center\"><a href=\"http:\/\/2.bp.blogspot.com\/_bbdlOygs1WQ\/SYi7xRSKWcI\/AAAAAAAABiQ\/jgIWwHtk7Vs\/s1600-h\/Fitzroy.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-1\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img decoding=\"async\" style=\"cursor:pointer;width:235px;height:313px\" src=\"http:\/\/2.bp.blogspot.com\/_bbdlOygs1WQ\/SYi7xRSKWcI\/AAAAAAAABiQ\/jgIWwHtk7Vs\/s400\/Fitzroy.jpg\" alt=\"\" border=\"0\" \/><\/a><br \/><span style=\"font-size:85%\">Robert FitzRoy aos 40 anos de idade. Fonte: <\/span><a href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/File:Robert_Fitzroy.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-2\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><span style=\"font-size:85%\">wikipedia<\/span><br \/><\/a><\/p>\n<\/div>\n<p>Desta forma, Robert FitzRoy precisava de um companheiro de viagem. Mas n\u00e3o qualquer um. J\u00e1 haviam outros passageiros extras no Beagle (um desenhista e um instrumentador), mas nenhum da sua classe social. FitzRoy era um aristocrata de fam\u00edlia nobre e precisava de algu\u00e9m que tivesse uma origem pr\u00f3xima a sua. Sabendo desta situa\u00e7\u00e3o, 0 grande mentor de Darwin, J. S. Henslow, enviou uma carta para o capit\u00e3o indicando seu aluno aplicado como candidato a vaga. Foi assim que Darwin conseguiu subir a bordo do Beagle, mesmo sem ser o naturalista oficial da embarca\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s uma s\u00e9rie de desentendimentos cient\u00edficos entre Darwin e McCornick, o naturalista oficial do Beagle retornou para a Gr\u00e3-Bretanha, em 1832. Assim, o contato de Darwin com o capit\u00e3o FitzRoy se tornava cada vez mais intenso e conflitante. E um dos principais motivos de conflito entre os dois estava no posicionamento de Darwin contra a escravid\u00e3o. Um <a href=\"http:\/\/br.reuters.com\/article\/entertainmentNews\/idBRSPE50M0IE20090123\">livro<\/a> lan\u00e7ado recentemente defende que este \u00f3dio de Darwin a escravid\u00e3o teria sido um dos seus principais norteadores da ideia de um ancestral comum. Acho esse argumento um pouco fraco, pois eu consideraria mais como um motivo para ele n\u00e3o ter preconceitos quanto a origem comum de todos os seres humanos (n\u00e3o importando a ra\u00e7a) do que como uma inspira\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Outro motivo para discuss\u00f5es frequentes entre Darwin e FitzRoy era a religi\u00e3o. Parace muito claro que o posicionamento de Darwin em rela\u00e7\u00e3o ao cristianismo foi alterado nesta viagem, principalmente devido ao comportamento autorit\u00e1rio do capit\u00e3o (crist\u00e3o ortodoxo) e as suas coletas que mostravam que a natureza  necessitava cada vez menos de um criador inicial. Gould considera que &#8220;(&#8230;) <span style=\"font-style:italic\">FitzRoy pode muito bem ter sido mais importante que os tentilh\u00f5es, pelo menos como fonte de inspira\u00e7\u00e3o para o tom materialista e antite\u00edsta da teoria evolucionista e da filosofia de Darwin.<\/span>&#8221; Quase 30 anos ap\u00f3s a famosa viagem, Robert FitzRoy n\u00e3o conseguiu escapar de uma tradi\u00e7\u00e3o familiar. Suicidou-se a bala em 1865, encerrando de vez seu poss\u00edvel sentimento de culpa por ter &#8220;ajudado&#8221; Darwin a chegar a suas conclus\u00f5es her\u00e9ticas.<\/p>\n<p>Refer\u00eancias:<\/p>\n<p>Who was the Beagle&#8217;s Naturalist? Jacob W. Gruber. <span style=\"font-style:italic\">The British Journal for the History of Science           <\/span>(1969),  4                                                                 : 266-282. <a href=\"http:\/\/journals.cambridge.org\/action\/displayAbstract?fromPage=online&amp;aid=2905480&amp;fulltextType=RA&amp;fileId=S0007087400009961\">Link<\/a> para o artigo.<br \/>Darwin e os grandes enigmas da vida (2006). Stephen Jay Gould. Martins Fontes, S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<h6><\/h6>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A pergunta que eu fiz neste post parece simples mas n\u00e3o \u00e9. A primeira vista parece mais uma daquelas perguntas chatas que nos fazem decorar a resposta e que s\u00f3 ter\u00e3o utilidade em programas de televis\u00e3o de quinta categoria. 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