{"id":1811,"date":"2016-04-16T18:32:56","date_gmt":"2016-04-16T21:32:56","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/discutindoecologia\/?p=1811"},"modified":"2016-04-16T18:32:56","modified_gmt":"2016-04-16T21:32:56","slug":"mais-mitos-sobre-virus-zika-e-fosfoetanolamina-patentes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/discutindoecologia\/2016\/04\/mais-mitos-sobre-virus-zika-e-fosfoetanolamina-patentes\/","title":{"rendered":"Mais mitos sobre V\u00edrus Zika e fosfoetanolamina: patentes"},"content":{"rendered":"<p>Recentemente, me vi dentro de duas pol\u00eamicas que, de algum modo, envolveram a propriedade intelectual.<\/p>\n<p>Os dois assuntos s\u00e3o bem pol\u00eamicos: V\u00edrus Zika e fosfoetanolamina.<\/p>\n<p>Vamos come\u00e7ar com o Zika.<\/p>\n<p>Circulou na internet que o instituto Rockfeller possui as patentes do vir\u00fas Zika.<\/p>\n<p>O \u00c1tila do Rainha Vermelha e Nerdologia\u00a0<a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/rainha\/2016\/02\/zika-patentes-rockefeller-e-a-diferenca-entre-saber-e-entender\/\">mostrou muito bem que<\/a>, na verdade, o que foi feito foi o dep\u00f3sito de material biol\u00f3gico consistindo no v\u00edrus Zika isolado.<u>Isto n\u00e3o \u00e9 uma patente.<\/u><\/p>\n<p>Pois bem, de onde vem essa associa\u00e7\u00e3o com patente do v\u00edrus Zika?<\/p>\n<p>Existe um tratado em Propriedade Intelectual que regula esse assunto chamado Tratado de Budapeste. Os signat\u00e1rios deste tratado s\u00e3o obrigados a reconhecer os microorganismos depositados como parte do processo de patente (descri\u00e7\u00e3o), independentemente do local onde a autoridade deposit\u00e1ria (local que recebe essas amostras) est\u00e1 localizada.<\/p>\n<p>O que isso significa?<\/p>\n<p>Um dos requisitos para a patenteabilidade de uma inven\u00e7\u00e3o \u00e9 sua completa e clara descri\u00e7\u00e3o. No caso de microorganismos, devido sua natureza estrutural extremamente complexa, uma das formas de possibilitar que qualquer pessoas que queria reproduzir tal inven\u00e7\u00e3o seja capaz de tal \u00e9 depositar o microorganismo em uma autoridade deposit\u00e1ria reconhecida pelo tratado.<\/p>\n<p>Em outras palavras, uma vez que \u00e9 quase imposs\u00edvel, se n\u00e3o for de fato, descrever um microorganismo em todos os seus pormenores, os inventores dos pa\u00edses signat\u00e1rios do tratado podem depositar tal material e indicar o respectivo n\u00famero de acesso (no caso da amostra do v\u00edrus Zika \u00e9\u00a0ATCC VR-84) como se fosse uma descri\u00e7\u00e3o adicional do mesmo. Assim, qualquer pessoa que queira realizar tal inven\u00e7\u00e3o, basta comprar uma amostra do material para cultivo (explicando de modo simplificado). Neste exemplo, a unidade deposit\u00e1ria \u00e9 a ATCC (American Type culture Collection).<\/p>\n<p>Nem preciso falar que quando me refiro a &#8220;qualquer pessoa&#8221;, estou falando de pessoa habilitada para tal. N\u00e3o \u00e9 qualquer um que consegue uma amostra de v\u00edrus Zika, por exemplo.<\/p>\n<p>Portanto, depositar material biol\u00f3gico n\u00e3o \u00e9 ter patente! O dep\u00f3sito, quando relacionado com propriedade intelectual, serve como um instrumento para cumprir com o requisito de sufici\u00eancia descritiva de um pedido de patente. Por exemplo, algo que \u00e9 rotineiramente apresentado em forma de dep\u00f3sito de material biol\u00f3gico s\u00e3o os hibridomas para produ\u00e7\u00e3o de anticorpos monoclonais.<\/p>\n<p>Vale lembrar que nem todo dep\u00f3sito de material biol\u00f3gico est\u00e1 atrelado a uma patente. Essas institui\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m servem como um reposit\u00f3rios de microorganismos para fins de pesquisa como o \u00c1tila bem explicou.<\/p>\n<p>Mais uma coisa, al\u00e9m do explicado acima, n\u00e3o poderia existir uma patente do v\u00edrus Zika, pois nossa lei n\u00e3o permite o patenteamento da materiais biol\u00f3gicos encontrados na natureza (artigo 10 (IX) e 18 (III) da lei de propriedade industrial 9.279\/96).<\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o a organismos vivos, somente os microorganismos transg\u00eanicos s\u00e3o pass\u00edveis de prote\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Agora, a n\u00e3o menos pol\u00eamica, fosfoetanolamina.<\/p>\n<p>V\u00e1rias vezes foi citado que a fosfoetanolamina brasileira estaria protegida por patentes.<\/p>\n<p>Isto n\u00e3o \u00e9 correto. O <a href=\"http:\/\/www5.iqsc.usp.br\/esclarecimentos-a-sociedade\/\">Instituto de Qu\u00edmica de S\u00e3o Carlos\u00a0em um comunicado do oficial<\/a> declara que <span style=\"color: #000000;font-family: arial, helvetica, sans-serif\">&#8220;A Universidade de S\u00e3o Paulo, ademais, n\u00e3o possui o acesso aos elementos t\u00e9cnico-cient\u00edficos necess\u00e1rios para a produ\u00e7\u00e3o da subst\u00e2ncia, cujo conhecimento \u00e9 restrito ao docente aposentado e \u00e0 sua equipe e \u00e9 protegido por patentes\u00a0em um comunicado do oficial declara que <span style=\"color: #000000;font-family: arial, helvetica, sans-serif\">&#8220;A Universidade de S\u00e3o Paulo, ademais, n\u00e3o possui o acesso aos elementos t\u00e9cnico-cient\u00edficos necess\u00e1rios para a produ\u00e7\u00e3o da subst\u00e2ncia, cujo conhecimento \u00e9 restrito ao docente aposentado e \u00e0 sua equipe e \u00e9 protegido por patentes\u00a0<\/span><span style=\"color: #000000;font-family: arial, helvetica, sans-serif\">(<a href=\"https:\/\/gru.inpi.gov.br\/pePI\/servlet\/PatenteServletController?Action=detail&amp;CodPedido=760344&amp;SearchParameter=FOSFOETANOLAMINA\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">PI 0800463-3<\/a>\u00a0e\u00a0<a href=\"https:\/\/gru.inpi.gov.br\/pePI\/servlet\/PatenteServletController?Action=detail&amp;CodPedido=760350&amp;SearchParameter=FOSFOETANOLAMINA\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">PI 0800460-9<\/a>).&#8221;.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-family: arial, helvetica, sans-serif\">Analisando os dois n\u00fameros oficiais, pode-se notar que os dois s\u00e3o pedidos de patentes. Nisso vale a explica\u00e7\u00e3o entre pedido de patente e patente concedida.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-family: arial, helvetica, sans-serif\">Para se obter o direito a uma patente, primeiramente, o inventor deve depositar um pedido para tal. Este pedido cont\u00e9m a mat\u00e9ria da inven\u00e7\u00e3o (relat\u00f3rio, figuras, resumo&#8230;) e as reivindica\u00e7\u00f5es.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-family: arial, helvetica, sans-serif\">As reivindica\u00e7\u00f5es cont\u00e9m o que \u00e9 efetivamente o objeto da patente. Muito\u00a0simplificadamente, o produto em si. Entretanto, ara o inventor conseguir ter o direito a essa exclusividade tempor\u00e1ria, o INPI analisa o pedido e atesta se o mesmo cumpre os requisitos b\u00e1sicos para tal. Os principais s\u00e3o: novidade atividade inventiva e aplica\u00e7\u00e3o industrial.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-family: arial, helvetica, sans-serif\">Caso o INPI entenda que a inven\u00e7\u00e3o n\u00e3o cumpre qualquer um destes requisitos ou qualquer outro requisito formal, o pedido \u00e9 indeferido e n\u00e3o existir\u00e1 a patente concedida. A patente s\u00f3 ser\u00e1 concedida se o INPI examinar e atestar que o mesmo cumpre com todas as formalidades para tal.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-family: arial, helvetica, sans-serif\">N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 porque eu depositei um pedido de patente que eu vou, de fato, ter uma patente e impedir que terceiros n\u00e3o autorizados se utilizem do objecto da patente.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;font-family: arial, helvetica, sans-serif\">No caso dos pedidos acima, temos as seguintes informa\u00e7\u00f5es do site do INPI:<\/span><\/p>\n<div id=\"attachment_1816\" style=\"width: 874px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/discutindoecologia\/2016\/04\/mais-mitos-sobre-virus-zika-e-fosfoetanolamina-patentes\/image-1\/\" rel=\"attachment wp-att-1816\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1816\" class=\"wp-image-1816 size-full\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/discutindoecologia\/wp-content\/uploads\/sites\/225\/2016\/04\/image-1.png\" alt=\"image (1)\" width=\"864\" height=\"887\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/discutindoecologia\/wp-content\/uploads\/sites\/225\/2016\/04\/image-1.png 864w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/discutindoecologia\/wp-content\/uploads\/sites\/225\/2016\/04\/image-1-292x300.png 292w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/discutindoecologia\/wp-content\/uploads\/sites\/225\/2016\/04\/image-1-768x788.png 768w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/discutindoecologia\/wp-content\/uploads\/sites\/225\/2016\/04\/image-1-24x24.png 24w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/discutindoecologia\/wp-content\/uploads\/sites\/225\/2016\/04\/image-1-48x48.png 48w\" sizes=\"(max-width: 864px) 100vw, 864px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1816\" class=\"wp-caption-text\">Pedido de patente fosfoetanolamina<\/p><\/div>\n<div id=\"attachment_1817\" style=\"width: 918px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/discutindoecologia\/2016\/04\/mais-mitos-sobre-virus-zika-e-fosfoetanolamina-patentes\/image\/\" rel=\"attachment wp-att-1817\"><img decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1817\" class=\"wp-image-1817 size-full\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/discutindoecologia\/wp-content\/uploads\/sites\/225\/2016\/04\/image.png\" alt=\"image\" width=\"908\" height=\"876\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/discutindoecologia\/wp-content\/uploads\/sites\/225\/2016\/04\/image.png 908w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/discutindoecologia\/wp-content\/uploads\/sites\/225\/2016\/04\/image-300x289.png 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/discutindoecologia\/wp-content\/uploads\/sites\/225\/2016\/04\/image-768x741.png 768w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/discutindoecologia\/wp-content\/uploads\/sites\/225\/2016\/04\/image-24x24.png 24w\" sizes=\"(max-width: 908px) 100vw, 908px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1817\" class=\"wp-caption-text\">Pedido de patente fosfoetanolamina<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div><span style=\"color: #000000;font-family: arial, helvetica, sans-serif\">Portanto, podemos notar que os pedidos ainda n\u00e3o foram examinados e, portanto, o que os inventores tem \u00e9 uma expectativa do direito de ter a patente.\u00a0<\/span><\/div>\n<div><\/div>\n<div><span style=\"color: #000000;font-family: arial, helvetica, sans-serif\">O que seria essa expectativa do direito?\u00a0<\/span><\/div>\n<div><\/div>\n<div><span style=\"color: #000000;font-family: arial, helvetica, sans-serif\">Imaginemos um caso em que algu\u00e9m comece a produzir a fosfoetanolamina tal como a revelada nestes pedidos. O titular do pedido pode notificar essa pessoa (ou ind\u00fastria&#8230; o que for) dizendo que ela tem um pedido de patente que cobre aquele produto e que ela estaria infringido caso continuasse a produzir (comercializar, importar&#8230;..) aquele produto.<\/span><\/div>\n<div><\/div>\n<div><span style=\"color: #000000;font-family: arial, helvetica, sans-serif\">Mas por que existe essa notifica\u00e7\u00e3o se \u00e9 s\u00f3 uma expectativa de direito do pedido? Isto se deve ao fato de que a prote\u00e7\u00e3o, caso o pedido venha ser concedido, retroage a data do dep\u00f3sito da patente e n\u00e3o somente a partir de sua concess\u00e3o. Assim, se o infrator for condenado por infra\u00e7\u00e3o desta patente, caso seja concedida, ele ter\u00e1 que indenizar o titular desde a data da notifica\u00e7\u00e3o (imaginando que o infrator n\u00e3o parou de se\u00a0utilizar\u00a0do produto depois da notifica\u00e7\u00e3o do\u00a0titular), mesmo ela tendo sido feita enquanto ainda era pedido de patente.<\/span><\/div>\n<div><\/div>\n<div><span style=\"color: #000000;font-family: arial, helvetica, sans-serif\">Isto \u00e9 uma vis\u00e3o bem simplificada do processo e, como n\u00e3o sou advogado (ainda&#8230;), posso simplificado muito e n\u00e3o mostrado toda a complexidade envolvida em todas as etapas.<\/span><\/div>\n<div><\/div>\n<div><span style=\"color: #000000;font-family: arial, helvetica, sans-serif\">Notem que n\u00e3o entrei no m\u00e9rito se os pedidos acima ser\u00e3o ou n\u00e3o concedidos. N\u00e3o avaliei se o pedido apresenta novidade, isto \u00e9, se o que ele diz inventar\u00a0realmente\u00a0nunca foi revelado por qualquer trabalho\/patente anterior ou se ele \u00e9 inventivo, isto \u00e9, n\u00e3o decorre de maneira \u00f3bvia para qualquer pessoa com o m\u00ednimo de conhecimento na \u00e1rea. Muito menos analisei\u00a0tecnicamente\u00a0dos pedidos.<\/span><\/div>\n<div><span style=\"color: #000000;font-family: arial, helvetica, sans-serif\">\u00a0<\/span><\/div>\n<div><span style=\"color: #000000;font-family: arial, helvetica, sans-serif\">Formalmente, os pedidos possuem alguns aspectos que gerariam bastante discuss\u00e3o (mat\u00e9ria n\u00e3o considerada inven\u00e7\u00e3o, emendas ap\u00f3s requerimento de exame&#8230;), mas somente o INPI poder\u00e1 dar a palavra final sobre isso.<\/span><\/div>\n<div><\/div>\n<div><span style=\"color: #000000;font-family: arial, helvetica, sans-serif\">Espero ter trazido um pouco de luz para tantos boatos que correm por a\u00ed.<\/span><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Recentemente, me vi dentro de duas pol\u00eamicas que, de algum modo, envolveram a propriedade intelectual. Os dois assuntos s\u00e3o bem pol\u00eamicos: V\u00edrus Zika e fosfoetanolamina. Vamos come\u00e7ar com o Zika. 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