{"id":1860,"date":"2016-08-15T23:03:07","date_gmt":"2016-08-16T02:03:07","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/discutindoecologia\/?p=1860"},"modified":"2016-08-15T23:03:07","modified_gmt":"2016-08-16T02:03:07","slug":"doutorado-biologicas-leia-antes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/discutindoecologia\/2016\/08\/doutorado-biologicas-leia-antes\/","title":{"rendered":"Quer fazer doutorado em \u00e1reas biol\u00f3gicas? Leia antes esse texto"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_1915\" style=\"width: 555px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1915\" class=\"size-medium wp-image-1915\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/discutindoecologia\/wp-content\/uploads\/sites\/225\/2016\/08\/Good-vibe-doutores-biol\u00f3gicas-meme-545x339.jpg\" alt=\"Imagem good vibe com frase pol\u00eamica. Ou com a triste realidade.\" width=\"545\" height=\"339\" \/><p id=\"caption-attachment-1915\" class=\"wp-caption-text\">Imagem good vibe com frase pol\u00eamica. Ou com a triste realidade.<\/p><\/div>\n<blockquote><p>Doutores em \u00e1reas biol\u00f3gicas tem a menor taxa de emprego formal de todas as \u00e1reas do conhecimento e essa taxa s\u00f3 se aproxima da m\u00e9dia das outras \u00e1reas depois de 10 anos da defesa do doutorado<\/p><\/blockquote>\n<p>Sempre me falaram que quando voc\u00ea tem uma not\u00edcia ruim \u00e9 melhor falar ela primeiro. Bem, tentei fazer isso aqui. O fato relatado por mim aparece de forma clara no livro <em>&#8220;Mestres e doutores 2015 &#8211; Estudos da demografia da base t\u00e9cnico-cient\u00edfica brasileira&#8221;<\/em>, que foi lan\u00e7ado na \u00faltima reuni\u00e3o da SBPC em julho e est\u00e1 dispon\u00edvel de forma gratuita <a href=\"https:\/\/www.cgee.org.br\/web\/rhcti\/mestres-e-doutores-2015\">aqui<\/a>. Aparentemente a m\u00eddia resolveu discutir esse importante estudo apenas de forma gen\u00e9rica, falando de aumento no n\u00famero de doutores e com uma vis\u00e3o mais positiva sobre os dados (<a href=\"http:\/\/g1.globo.com\/educacao\/noticia\/cai-a-idade-media-de-doutores-no-brasil-diz-pesquisa.ghtml\">aqui<\/a>, <a href=\"http:\/\/www.em.com.br\/app\/noticia\/especiais\/educacao\/2013\/04\/23\/internas_educacao,375760\/pais-tem-705-mil-mestres-e-doutores.shtml\">aqui<\/a> e <a href=\"http:\/\/opiniao.estadao.com.br\/noticias\/geral,o-mapa-de-mestres-e-doutores,10000062576\">aqui<\/a>). Como a empregabilidade de doutores \u00e9 um tema recorrente aqui no blog, resolvi olhar um pouco mais a fundo esses dados. E acabei achando algo que \u00e9 para deixar qualquer profissional da \u00e1rea de biol\u00f3gicas um pouco preocupado, principalmente para quem ainda est\u00e1 na academia.<\/p>\n<p>O primeiro dado interessante sobre empregabilidade de doutores est\u00e1 na compara\u00e7\u00e3o entre \u00e1reas. Os dados de taxa de emprego foram obtidos por cruzamentos feitos com o CPF dos doutores e a\u00a0Rela\u00e7\u00e3o Anual de Informa\u00e7\u00f5es Sociais (Rais) do Minist\u00e9rio do Trabalho e Emprego (MTE). Ent\u00e3o foi contabilizado desde empregos na \u00e1rea acad\u00eamica (professor) at\u00e9 empresas, desde que seja formal. Tendo como base todos os doutores titulados no Brasil a partir de 1996, temos que em 2014 os doutores de \u00e1reas biol\u00f3gicas apresentam, de longe, a pior taxa de emprego formal, quase 10% menor do que a m\u00e9dia de todas as \u00e1reas como podemos ver no gr\u00e1fico abaixo.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-medium wp-image-1862\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/discutindoecologia\/wp-content\/uploads\/sites\/225\/2016\/08\/grafico-taxadeemprego-porarea-545x211.jpg\" alt=\"grafico-taxadeemprego-porarea\" width=\"545\" height=\"211\" \/><\/p>\n<p>Esse dado j\u00e1 \u00e9 triste por si s\u00f3, mas como tudo na ci\u00eancia sempre \u00e9 bom olharmos com mais cuidado os dados e as tend\u00eancias. O gr\u00e1fico anterior representa uma fotografia da taxa de emprego em 2014. Se tiv\u00e9ssemos acesso a dados anteriores poder\u00edamos tentar entender se existe uma tend\u00eancia de aumento ou de queda nessa taxa. Por exemplo, o dado de 2014 \u00e9 que 66,1% dos doutores em \u00e1reas biol\u00f3gicas encontravam-se empregados. Se antes disso a taxa fosse ainda menor poder\u00edamos (talvez) ter uma tend\u00eancia de aumento. Claro que com apenas dois dados \u00e9 dif\u00edcil ver uma tend\u00eancia, mas \u00e9 melhor do que apenas um. No gr\u00e1fico a seguir temos essa no\u00e7\u00e3o, comparando os dados de 2009 com os de 2014. E qual a informa\u00e7\u00e3o que temos? Sim, em 5 anos a taxa de emprego praticamente estagnou, tendendo para baixo. Outras \u00e1reas como Exatas e da terra e multidisciplinar tiveram o comportamento oposto.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-medium wp-image-1863\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/discutindoecologia\/wp-content\/uploads\/sites\/225\/2016\/08\/grafico-taxadeemprego-porarea-2009-545x268.jpg\" alt=\"grafico-taxadeemprego-porarea-2009\" width=\"545\" height=\"268\" \/><\/p>\n<p>Depois desses dois gr\u00e1ficos o leitor da \u00e1rea de ci\u00eancias biol\u00f3gicas deve estar se perguntando: &#8220;Por que n\u00e3o fiz medicina?&#8221;. E pior que ele n\u00e3o est\u00e1 longe da verdade. Dentre todas as \u00e1rea do conhecimento a medicina foi a que apresentou maior taxa de doutores empregados em 2014. Na verdade o caso das ci\u00eancias biol\u00f3gicas foi t\u00e3o discrepante das demais \u00e1reas que os autores do estudo resolveram tentar entender o caso de forma mais profunda. Segundo os autores, &#8220;<em>\u00c9 preciso entender as raz\u00f5es que levam os doutores titulados nas ci\u00eancias biol\u00f3gicas a demorarem mais tempo para se inserirem no mercado de trabalho formal que os doutores de outras grandes \u00e1reas<\/em>&#8220;. Isso foi feito atrav\u00e9s de separa\u00e7\u00e3o da taxa de emprego por tempo ap\u00f3s a defesa do doutorado. Olhando essa taxa, apenas ap\u00f3s 10 anos da defesa que temos doutores em \u00e1reas biol\u00f3gicas com taxa de emprego compar\u00e1vel (mais ainda mais baixa) que outras \u00e1reas, como podemos ver no gr\u00e1fico abaixo. A m\u00e9dia da taxa de emprego de doutores de outras \u00e1reas ap\u00f3s 10 anos da defesa \u00e9 de 79,1%.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-1865\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/discutindoecologia\/wp-content\/uploads\/sites\/225\/2016\/08\/grafico-taxadeemprego-portempo.jpg\" alt=\"grafico-taxadeemprego-portempo\" width=\"255\" height=\"226\" \/><\/p>\n<p>Sim meus amigos e amigas. Ap\u00f3s 10 anos da defesa doutores das \u00e1reas biol\u00f3gicas continuam com uma taxa de emprego menor do que a m\u00e9dia de doutores de outras \u00e1reas. Isso significa depend\u00eancia do sistema de bolsas por mais tempo (algo totalmente inseguro, principalmente na situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica atual). Mas a quest\u00e3o principal \u00e9 a seguinte: por que isso acontece com doutores das \u00e1reas biol\u00f3gicas? Ser\u00e1 que a qualidade dos doutores formados em \u00e1reas biol\u00f3gicas \u00e9 mais &#8220;baixa&#8221;? Bem, aparentemente n\u00e3o. Na verdade existe uma rela\u00e7\u00e3o inversa entre a &#8220;qualidade&#8221; dos programas de doutorado (medida em nota na avalia\u00e7\u00e3o da CAPES) e a taxa de emprego dos doutores, como podemos ver no pr\u00f3ximo gr\u00e1fico. Quanto maior a nota da CAPES, mais qualidade teria o programa. Interessante registrar que depois de 10 anos da defesa do doutorado essa rela\u00e7\u00e3o deixa de ser relevante.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-medium wp-image-1866\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/discutindoecologia\/wp-content\/uploads\/sites\/225\/2016\/08\/emprego-capes-545x265.jpg\" alt=\"emprego-capes\" width=\"545\" height=\"265\" \/><\/p>\n<p>Essa rela\u00e7\u00e3o inversa entre qualidade do programa medida pela avalia\u00e7\u00e3o da CAPES (que mede m\u00e9ritos acad\u00eamicos, principalmente) me faz acreditar que o pedido que eu fiz em um post antigo sobre o tema seja relevante. H\u00e1 quase 2 anos atr\u00e1s no post &#8220;<a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/discutindoecologia\/2014\/09\/existe-vida-fora-da-academia\/\">Existe vida fora da academia?<\/a>&#8221; eu defendi que os professores universit\u00e1rios deveriam ser mais transparentes com os alunos de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, indicando que a vida acad\u00eamica n\u00e3o era o \u00fanico caminho e que existem \u00e1reas aplicadas que podem ser importantes na absor\u00e7\u00e3o de p\u00f3s-graduados. Doutores formados em uma p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o com nota alta na avalia\u00e7\u00e3o da CAPES terem menores taxas de emprego formal pode ser um sinal que esses programas induzem menos seus formandos ao mercado de trabalho. Mas tamb\u00e9m pode apenas indicar que os doutores desses programas apresentam maior perfil acad\u00eamico e como as vagas de emprego nessa \u00e1rea s\u00e3o mais limitadas acabam naturalmente demorando mais tempo para serem empregados. Ser\u00e1 que um desses fatore s\u00e9 preponderante? Ambos? Nenhum deles? N\u00e3o tenho a resposta e precisamos de mais estudos para chegar a uma conclus\u00e3o.<\/p>\n<p>Independente dos motivos o fato \u00e9 que se voc\u00ea quer fazer doutorado em \u00e1rea de ci\u00eancias biol\u00f3gicas tem todo o direito de olhar os dados relacionados a taxa de emprego e tomar sua decis\u00e3o. Tendo como base os recentes indicativos de corte em verbas ligadas a ci\u00eancia e tecnologia os dados apresentados aqui podem se tornar ainda mais relevantes na sua escolha pessoal pela poss\u00edvel diminui\u00e7\u00e3o de vagas para cargos nas universidades. Como eu j\u00e1 tinha afirmado no\u00a0post sobre vida fora da academia, o importante \u00e9 pensar muito bem sobre o que voc\u00ea deseja para sua vida acad\u00eamica sem nunca deixar de olhar para fora da janela do laborat\u00f3rio.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"color: #999999\">PS1.: No livro e neste post\u00a0\u00e9 considerado como &#8220;\u00e1reas biol\u00f3gicas&#8221; as seguintes sub\u00e1reas:\u00a0Biologia geral, Gen\u00e9tica, Morfologia, Fisiologia, Bioqu\u00edmica, Biof\u00edsica, Farmacologia, Imunologia, Microbiologia, Parasitologia, Ecologia, Oceanografia, Bot\u00e2nica e Zoologia.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #999999\">PS2.: V\u00e1rios outros dados interessantes eu n\u00e3o citei aqui no texto por motivos de clareza, mas a taxa de emprego tamb\u00e9m \u00e9 analisada em rela\u00e7\u00e3o ao estados da federa\u00e7\u00e3o, por regi\u00e3o do emprego, dentro outros. Existe tamb\u00e9m uma grande varia\u00e7\u00e3o dentro das sub\u00e1reas biol\u00f3gicas, por isso eu tratei sempre da m\u00e9dia aqui.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #999999\">PS3.: Al\u00e9m do livro estar disponibilizado de forma gratuita nesse <\/span><strong><a href=\"https:\/\/www.cgee.org.br\/web\/rhcti\/mestres-e-doutores-2015\">link<\/a><\/strong><span style=\"color: #999999\">, l\u00e1 voc\u00ea tamb\u00e9m vai encontrar os dados originais em formato de excel. Ent\u00e3o d\u00e1 para candidatos e doutores brincarem a vontade com a base de dados.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Doutores em \u00e1reas biol\u00f3gicas tem a menor taxa de emprego formal de todas as \u00e1reas do conhecimento e essa taxa s\u00f3 se aproxima da m\u00e9dia das outras \u00e1reas depois de 10 anos da defesa do doutorado Sempre me falaram que quando voc\u00ea tem uma not\u00edcia ruim \u00e9 melhor falar ela primeiro. 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