{"id":348,"date":"2010-01-27T07:12:47","date_gmt":"2010-01-27T10:12:47","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/discutindoecologia\/2010\/01\/resenha_richard_dawkins_-_o_ma\/"},"modified":"2010-01-27T07:12:47","modified_gmt":"2010-01-27T10:12:47","slug":"resenha_richard_dawkins_-_o_ma","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/discutindoecologia\/2010\/01\/resenha_richard_dawkins_-_o_ma\/","title":{"rendered":"Resenha: Richard Dawkins &#8211; O maior espet\u00e1culo da Terra"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"mt-image-left\" style=\"margin: 0pt 20px 20px 0pt;float: left\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/discutindoecologia\/wp-content\/uploads\/sites\/225\/2011\/08\/richard_dawkins_capa_livro1.jpg\" alt=\"richard_dawkins_capa_livro.jpg\" width=\"150\" height=\"215\" \/>Para quem nunca leu um livro de divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica de Richard Dawkins e apenas conhece este bi\u00f3logo queniano (sim, ele nasceu no Qu\u00eania) pelas cr\u00edticas fervorosas ao seu livro mais midi\u00e1tico intitulado &#8220;<a href=\"http:\/\/www.companhiadasletras.com.br\/detalhe.php?codigo=12248\">Deus, um del\u00edrio<\/a>&#8221; (Companhia das letras, 2007) e pelo seu <a href=\"http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=ZODsT3j1bGA\">famoso bom humor<\/a>, uma recomenda\u00e7\u00e3o: Comece sua trilha atrav\u00e9s do seu \u00faltimo livro &#8220;O maior espet\u00e1culo da Terra&#8221; (Companhia das letras, 2009). Neste livro, toda a destreza de um dos maiores divulgadores de ci\u00eancia de todos os tempos \u00e9 demonstrada, atrav\u00e9s de uma argumenta\u00e7\u00e3o simples, direta e convincente. Considero esta mais recente empreitada de Dawkins como uma aula por escrito, onde o leitor\/aluno sente-se preso ao escritor o tempo todo, at\u00e9 o \u00faltimo par\u00e1grafo, como em toda boa aula.<\/p>\n<p>Claro que para leitores mais acostumados com a escrita Dawkiniana, o estilo sarc\u00e1stico e divertido do autor n\u00e3o podem ser considerados como &#8220;grandes novidades&#8221;. Mas neste livro podemos encontrar v\u00e1rias cartas na manga, o que o torna uma leitura interessante para todos os p\u00fablicos, mesmo os fissurados por biologia e, principalmente, evolu\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o vamos come\u00e7ar do princ\u00edpio, com o objetivo do livro. Mais uma vez, Dawkins coloca um grande objetivo por tr\u00e1s de um dos seus projetos. Este \u00e9 colocado de forma clara na contracapa de &#8220;O Maior espet\u00e1culo da Terra&#8221;:<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;A evolu\u00e7\u00e3o \u00e9 um fato, e este livro o demonstrar\u00e1. Nenhum cientista que se preze o contesta, e nenhum leitor imparcial fechar\u00e1 o livro duvidando disso.&#8221;<\/p><\/blockquote>\n<div align=\"right\">Richard Dawkins &#8211; O maior espet\u00e1culo da Terra, 2009 (contracapa)<\/div>\n<p>Para quem acompanha o autor, este objetivo claro e forte em rela\u00e7\u00e3o aos leitores n\u00e3o \u00e9 novidade em um livro de Dawkins. Comparem com esta frase do seu livro &#8220;Deus, um del\u00edrio&#8221;:<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;Se este livro funcionar do modo como espero, os leitores religiosos que o abrirem ser\u00e3o ateus quando o terminarem.&#8221;<\/p><\/blockquote>\n<div align=\"right\">Richard Dawkins &#8211; Deus, um del\u00edrio, 2007 (divulga\u00e7\u00e3o)<\/div>\n<p>Com toda a certeza a previs\u00e3o feita no livro mais recente \u00e9 mais fact\u00edvel do que em rela\u00e7\u00e3o aos leitores religiosos. Desentendimento com religiosos a parte, o fato da evolu\u00e7\u00e3o \u00e9 defendido por grande parte dos crentes em algum tipo de religi\u00e3o, descontando os mais fan\u00e1ticos. Desta forma, tenho certeza que grande parte das pessoas fechar\u00e1 &#8220;O maior espet\u00e1culo da Terra&#8221; sem d\u00favidas sobre o fato da evolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Dentre os v\u00e1rios pontos altos deste livro posso citar a interessante cr\u00edtica ao uso do termo &#8220;teoria&#8221; para se referir tanto a evolu\u00e7\u00e3o quanto ao criacionismo, no cap\u00edtulo intitulado &#8220;Apenas uma teoria?&#8221;. Uma busca r\u00e1pida no google com o termo em portugu\u00eas &#8220;teoria do criacionismo&#8221; resulta em quase 80.000 entradas, que podem ser encontradas em grandes jornais e at\u00e9 em s\u00edtios educativos como &#8220;Brasil escola&#8221; e &#8220;Mundo educa\u00e7\u00e3o&#8221;. O que mostra a import\u00e2ncia desta discuss\u00e3o. Exemplos do poder da sele\u00e7\u00e3o artificial como no caso da <a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/discutindoecologia\/2010\/01\/pros_e_contras_da_domesticacao.php\">pesquisa feita com lobos na R\u00fassia<\/a>, associados a evolu\u00e7\u00e3o &#8220;Bem diante dos nossos olhos&#8221; dos experimentos de longa dura\u00e7\u00e3o com <i>E. coli<\/i> feitos por Richard Lenski, mostram ao leitor que a evolu\u00e7\u00e3o est\u00e1 longe de ser &#8220;apenas uma teoria&#8221;. O trabalho de mais de 20 anos realizado por Lenski \u00e9 t\u00e3o emblem\u00e1tico que foi descrito ao longo de quase 20 p\u00e1ginas do livro e tamb\u00e9m foi lembrado pelo Breno <a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/discutindoecologia\/2009\/01\/evolucao-em-microescala-o-que-darwin-nao-viu.php\">aqui no blog<\/a> no in\u00edcio do ano passado. Vale ressaltar outro ponto interessante do livro que \u00e9 a relevante discuss\u00e3o sobre o que os criacionistas consideram como os &#8220;furos&#8221; da evolu\u00e7\u00e3o no cap\u00edtulo intitulado &#8220;Elo perdido? Como assim, &#8216;perdido&#8217;?&#8221;. Os &#8220;elos perdidos&#8221; est\u00e3o mais &#8220;achados&#8221; do que muita gente imagina.<\/p>\n<p>Um ponto curioso do livro est\u00e1 no par\u00e1grafo em que Dawkins faz uma coisa um pouco incomum em seus textos, que \u00e9 uma &#8220;autocr\u00edtica&#8221; bem humorada, que resultou em boas risadas quando li:<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;Quando a teoria neutra da evolu\u00e7\u00e3o molecular foi proposta pela primeira vez, entre outros pelo grande geneticista japon\u00eas Motoo Kimura, ela era pol\u00eamica. Hoje muitos aceitam alguma vers\u00e3o desta teoria, e, sem esmiu\u00e7ar as evid\u00eancias aqui, irei aceit\u00e1-la neste livro. Dada a minha reputa\u00e7\u00e3o de &#8220;arquiadaptacionista&#8221; (alegadamente obcecado pela sele\u00e7\u00e3o natural como a principal e at\u00e9 \u00fanica for\u00e7a propulsora da evolu\u00e7\u00e3o), o leitor pode ter confian\u00e7a de que, se at\u00e9 eu apoio a teoria neutra, \u00e9 improv\u00e1vel que muitos outros bi\u00f3logos oponham-se a ela!*<\/p><\/blockquote>\n<p>*J\u00e1 fui, inclusive chamado de &#8220;ultradarwinista&#8221;, um motejo que considero menos insultante do que talvez tivesse em mente quem o proferiu.&#8221;<\/p>\n<div align=\"right\">\u00a0Richard Dawkins &#8211; O maior espet\u00e1culo da Terra (P\u00e1ginas 311-312)<\/div>\n<div align=\"left\">Claro que este par\u00e1grafo n\u00e3o foi uma verdadeira &#8220;cr\u00edtica&#8221;, como as que tomaram conta at\u00e9 de um livro inteiro, intitulado &#8220;<i>The Selfish Genius: How Richard Dawkins Rewrote Darwin&#8217;s Legacy<\/i>&#8221; da especialista em &#8220;comunica\u00e7\u00e3o da teoria da evolu\u00e7\u00e3o&#8221;(?) Fern Elsdon-Baker. O livro ainda n\u00e3o foi publicado no Brasil, mas j\u00e1 trouxe bastante controv\u00e9rsia <a href=\"http:\/\/entertainment.timesonline.co.uk\/tol\/arts_and_entertainment\/books\/non-fiction\/article6668427.ece\">l\u00e1 fora<\/a>. Acho que o Dawkins \u00e9 um pouco avesso a &#8220;novidades&#8221;, como demonstra na p\u00e1gina 204 ao chamar a &#8220;Epigen\u00e9tica&#8221; de &#8220;<i>&#8230;um termo pomposo atualmente gozando dos seus 15 minutos de fama na comunidade biol\u00f3gica<\/i>&#8220;, mas nada disso pode manchar a sua import\u00e2ncia como divulgador do legado de Darwin, Wallace e muitos outros evolucionistas.<\/div>\n<p>&#8220;O maior espet\u00e1culo da Terra&#8221; n\u00e3o termina nesta discuss\u00e3o. Dawkins passa ainda por embriologia, movimento dos continentes, cr\u00edticas diretas ao que ele chamou de &#8220;Design desinteligente&#8221;. E ainda existem dados de pesquisas alarmantes da influ\u00eancia do criacionismo na popula\u00e7\u00e3o da Europa e dos EUA, no ap\u00eandice &#8220;Negadores da hist\u00f3ria&#8221; (\u00f3tima analogia, como a utilizada atualmente para descrever os antigamente rotulados &#8220;c\u00e9ticos do clima&#8221;).<\/p>\n<p>Para fechar esta resenha gostaria de compartilhar um par\u00e1grafo que pareceu um pouco perdido no meio do texto, mas que me despertou para a import\u00e2ncia da divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica como um todo. \u00c9 uma ideia simples, mas parece que muita gente n\u00e3o pensa desta maneira:<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;Causou-me certa irrita\u00e7\u00e3o ler um folheto, no consult\u00f3rio do meu m\u00e9dico, alertando sobre o perigo de parar de tomar comprimidos de antibi\u00f3tico antes do tempo prescrito. N\u00e3o h\u00e1 nada de errado no aviso em si, mas a justificativa apresentada preocupou-me. O folheto explica que as bact\u00e9rias s\u00e3o &#8216;espertas&#8217; e aprendem a lidar com antibi\u00f3ticos. Presumivelmente os autores acharam que o fen\u00f4meno da resist\u00eancia aos antibi\u00f3ticos seria mais f\u00e1cil de entender se eles o chamassem de aprendizado em vez de sele\u00e7\u00e3o natural. Mas falar em esperteza e aprendizado para bact\u00e9rias \u00e9 confundir o p\u00fablico, e sobretudo n\u00e3o ajuda o paciente a compreender por que ele deve seguir a instru\u00e7\u00e3o de continuar tomando comprimidos at\u00e9 o fim. (&#8230;) Folhetos como aquele da sala de espera do meu m\u00e9dico n\u00e3o ajudam nessa educa\u00e7\u00e3o &#8211; uma lament\u00e1vel oportunidade perdida de ensinar algo sobre o formid\u00e1vel poder da sele\u00e7\u00e3o natural&#8221;.<\/p><\/blockquote>\n<div align=\"right\">Richard Dawkins &#8211; O maior espet\u00e1culo da Terra (P\u00e1gina 130)<\/div>\n<div>Muita gente por a\u00ed acha que o p\u00fablico precisa de informa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o importa como e em qual formato ela chegue ao p\u00fablico. Sinto isso principalmente com os ambientalistas em geral. Dizem que devemos &#8220;erotizar&#8221; a informa\u00e7\u00e3o, travesti-la de uma roupagem que fa\u00e7a com que as pessoas se interessem mais. Na maioria dos casos, como exemplificado por Dawkins, uma informa\u00e7\u00e3o passada de forma simples demais, travestida para ser mais palat\u00e1vel, pode trazer mais problemas do que solu\u00e7\u00f5es. Passar a informa\u00e7\u00e3o de forma simplificada mas sem subestimar a intelig\u00eancia do nosso p\u00fablico alvo n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil. Mas nunca, jamais este objetivo deve ser transfigurado. Precisamos atingir um maior p\u00fablico, mas sem perder a qualidade da informa\u00e7\u00e3o. E neste sentido, Richard Dawkins d\u00e1 uma aula em &#8220;O maior espet\u00e1culo da Terra&#8221;.<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para quem nunca leu um livro de divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica de Richard Dawkins e apenas conhece este bi\u00f3logo queniano (sim, ele nasceu no Qu\u00eania) pelas cr\u00edticas fervorosas ao seu livro mais midi\u00e1tico intitulado &#8220;Deus, um del\u00edrio&#8221; (Companhia das letras, 2007) e pelo seu famoso bom humor, uma recomenda\u00e7\u00e3o: Comece sua trilha atrav\u00e9s do seu \u00faltimo livro [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":483,"featured_media":349,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_et_pb_use_builder":"","_et_pb_old_content":"","_et_gb_content_width":"","_monsterinsights_skip_tracking":false,"pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":[],"footnotes":""},"categories":[7,23,41,78,80,81],"tags":[],"class_list":["post-348","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-ano-darwin","category-charles-darwin","category-evolucao","category-posts-inspirados","category-resenha","category-richard-dawkins"],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/discutindoecologia\/wp-content\/uploads\/sites\/225\/2011\/08\/richard_dawkins_capa_livro.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/discutindoecologia\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/348","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/discutindoecologia\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/discutindoecologia\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/discutindoecologia\/wp-json\/wp\/v2\/users\/483"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/discutindoecologia\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=348"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/discutindoecologia\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/348\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/discutindoecologia\/wp-json\/wp\/v2\/media\/349"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/discutindoecologia\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=348"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/discutindoecologia\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=348"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/discutindoecologia\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=348"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}