{"id":442,"date":"2010-08-20T07:30:22","date_gmt":"2010-08-20T10:30:22","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/discutindoecologia\/2010\/08\/ecologia_ou_exclusao\/"},"modified":"2010-08-20T07:30:22","modified_gmt":"2010-08-20T10:30:22","slug":"ecologia_ou_exclusao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/discutindoecologia\/2010\/08\/ecologia_ou_exclusao\/","title":{"rendered":"Ecologia ou Exclus\u00e3o?"},"content":{"rendered":"<p>Gostaria de compartilhar com voc\u00eas um \u00f3timo artigo escrito por Camila Souza Ramos e publicado em maio de 2009 pela <a href=\"http:\/\/www.revistaforum.com.br\/\">Revista F\u00f3rum<\/a>. Este e todos os outros artigos publicados por esta revista est\u00e3o licenciados sob <a href=\"http:\/\/creativecommons.org\/licenses\/by-sa\/2.5\/br\/\">Creative Commons<\/a> e, por este motivo, reproduzo abaixo na \u00edntegra o artigo. Mesmo sendo cr\u00edtico em rela\u00e7\u00e3o a um vi\u00e9s mais ambientalista presente em outros textos publicados pela mesma revista, acho que o artigo da Camila Souza Ramos atingiu um ponto bem interessante. Como o discurso de prote\u00e7\u00e3o a natureza pode ser utilizado como uma ferramenta de exclus\u00e3o. <\/p>\n<p>O artigo &#8220;Ecologia ou exclus\u00e3o&#8221; \u00e9 um dos cinco finalistas na categoria m\u00eddia impressa da d\u00e9cima edi\u00e7\u00e3o do <a href=\"http:\/\/www.premioreportagem.org.br\/mainMenu_1.sub?c=Brasil&amp;cRef=Brazil&amp;year=2010\">Pr\u00eamio de Reportagem sobre a Biodiversidade da Mata Atl\u00e2ntica<\/a>. Outra finalista \u00e9 a vizinha de ScienceBlogs <a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/cienciaeideias\/\">Maria Guimar\u00e3es<\/a> com o artigo &#8220;Jardineiras Fi\u00e9s&#8221; que pode ser lido em sua edi\u00e7\u00e3o original no <a href=\"http:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/?art=3897&amp;bd=1&amp;pg=1&amp;lg=\">site da revista Pesquisa FAPESP<\/a>. Por sinal tamb\u00e9m \u00e9 um \u00f3timo artigo, que eu at\u00e9 j\u00e1 havia indicado anteriormente para os meus alunos do curso de licenciatura em Ci\u00eancias Biol\u00f3gicas do <a href=\"http:\/\/www.cederj.edu.br\/fundacaocecierj\/\">CEDERJ<\/a>. Bem, vamos ao artigo que intitula este post.<\/p>\n<p><font><b>Ecologia ou exclus\u00e3o?<\/b><\/font><\/p>\n<div align=\"right\">por Camila Souza Ramos<\/div>\n<p>Desde mar\u00e7o, a paisagem da Cidade Maravilhosa est\u00e1 ganhando um ar sombrio: muros de concreto de tr\u00eas metros de altura j\u00e1 come\u00e7aram a ser constru\u00eddos ao lado da favela Dona Marta, e ser\u00e3o estendidos por mais 11 mil metros at\u00e9 rodear 11 favelas da zona Sul da cidade. E isso \u00e9 s\u00f3 a primeira parte. O governo do estado, autor do projeto, promete ampliar o muro tamb\u00e9m para as regi\u00f5es Oeste e Norte da capital at\u00e9 2010, ano eleitoral. O argumento usado para a constru\u00e7\u00e3o do muro &#8211; ou &#8220;ecolimite&#8221;, como o governo prefere tratar &#8211; \u00e9 a expans\u00e3o das favelas sobre a Mata Atl\u00e2ntica dos morros cariocas.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 pra ficar bem claro para todo mundo: ali \u00e9 um ecolimite. Daqui pra l\u00e1 \u00e9 mata e daqui pra c\u00e1 \u00e9 urbaniza\u00e7\u00e3o e [a popula\u00e7\u00e3o] pode ocupar&#8221;, aponta \u00cdcaro Moreno, presidente da Empresa de Obras P\u00fablicas (Emop), empresa contratada para executar o servi\u00e7o. De acordo com o governo do estado, o crescimento das favelas tem sido respons\u00e1vel pela devasta\u00e7\u00e3o das matas que cobrem as encostas da cidade. Mas o argumento se mostra fr\u00e1gil se analisados os dados de uma pesquisa recente do Instituto Municipal de Urbanismo Pereira Passos (IPP), vinculado \u00e0 pr\u00f3pria prefeitura e respons\u00e1vel pelo planejamento urban\u00edstico e execu\u00e7\u00e3o de obras de infraestrutura.<\/p>\n<p>A pesquisa indica que as \u00e1reas escolhidas para a execu\u00e7\u00e3o da primeira parte do projeto foram justamente as que menos cresceram nos \u00faltimos anos. De 1999 a 2008, enquanto a \u00e1rea total registrou uma amplia\u00e7\u00e3o de 6,88%, as favelas da Zona Sul cresceram, somadas, somente 1,18%. Na comunidade de Santa Marta, a primeira a receber os tr\u00eas metros de concreto ao seu redor, o terreno chegou a registrar inclusive uma redu\u00e7\u00e3o de 0,99% nesse per\u00edodo, segundo o instituto que fez a medida em termos de \u00e1rea ocupada a partir de fotos a\u00e9reas, sem levar em conta o crescimento vegetativo. Tamb\u00e9m por isso n\u00e3o se pode dizer que a faveliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o tenha se intensificado nos \u00faltimos anos. O aumento foi notado por 61,6% dos moradores das comunidades, segundo uma pesquisa da Central \u00danica de Favelas (Cufa) realizada em 2008. Mas o pulo do gato \u00e9 que o crescimento das favelas na cidade tem sido, em sua maior parte, no sentido vertical: \u00e9 o &#8220;puxadinho&#8221;, o barraco constru\u00eddo em cima a laje.<\/p>\n<p>A pr\u00f3xima favela a ser cercada pelos ecolimites \u00e9 a Rocinha, que at\u00e9 pouco tempo era considerada a maior favela do Rio de Janeiro, perdendo o posto para a favela Fazenda Coqueiro, na zona Oeste da cidade, considerando-se o tamanho da \u00e1rea ocupada. A lista de favelas a serem muradas conta com o parque da Cidade, na G\u00e1vea; os morros dos Cabritos e a Ladeira dos Tabajaras, em Copacabana; da Babil\u00f4nia e Chap\u00e9u Mangueira, no Leme; Cantagalo e Pav\u00e3o-Pav\u00e3ozinho, em Ipanema; Vidigal, no Leblon; e Benjamim Constant, na Urca. O projeto custar\u00e1 aos cofres p\u00fablicos R$ 40 milh\u00f5es, sendo que R$ 22 milh\u00f5es ser\u00e3o gastos somente nos 634 metros do Dona Marta e nos 2,5 km da Rocinha.<\/p>\n<p>A not\u00edcia de que muros seriam erguidos em volta das favelas cariocas n\u00e3o demorou a ser criticada pela sociedade e por grandes nomes de defensores de direitos humanos, como Jos\u00e9 Saramago. O escritor destila sua cr\u00edtica em seu blog &#8220;Caderno de Saramago&#8221;: &#8220;C\u00e1 para baixo, na Cidade Maravilhosa, a do samba e do carnaval, a situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 melhor. A ideia, agora, \u00e9 rodear as favelas com um muro de cimento armado de tr\u00eas metros de altura. Tivemos o muro de Berlim, temos os muros da Palestina, agora os do Rio. Entretanto, o crime organizado campeia por toda a parte, as cumplicidades verticais e horizontais penetram nos aparelhos de Estado e na sociedade em geral. A corrup\u00e7\u00e3o parece imbat\u00edvel. Que fazer?&#8221;.<\/p>\n<p><b>Hist\u00f3rico<\/b><\/p>\n<p>O projeto de erguer barreiras entre mata e favela n\u00e3o \u00e9 inven\u00e7\u00e3o do governador S\u00e9rgio Cabral. Foi durante a primeira gest\u00e3o de C\u00e9sar Maia (1993-1996) na cidade do Rio de Janeiro que o atual prefeito Eduardo Paes, ent\u00e3o subprefeito da Barra da Tijuca e de Jacarepagu\u00e1, idealizou e prop\u00f4s a constru\u00e7\u00e3o de limites f\u00edsicos, batizados de ecolimites. A ideia n\u00e3o teve ades\u00e3o na \u00e9poca, mas manteve-se no ide\u00e1rio dos pol\u00edticos cariocas que acham que crescimento da pobreza se combate com barreiras f\u00edsicas.<\/p>\n<p>O arquiteto Luiz Paulo Conde, que foi prefeito da cidade e vice-governador do estado na gest\u00e3o de Rosinha Garotinho, retomou a proposta em 2004, tendo a oposi\u00e7\u00e3o justamente de Paes, que at\u00e9 o fechamento desta edi\u00e7\u00e3o n\u00e3o respondeu \u00e0s perguntas enviadas pela F\u00f3rum. A proposta de Conde ia al\u00e9m da conten\u00e7\u00e3o da ocupa\u00e7\u00e3o irregular de barracos nas matas ao redor. Segundo o ent\u00e3o vice-governador, um muro conteria a fuga de criminosos pela floresta. Novamente o projeto n\u00e3o se concretizou. O assessor de Conde afirmou que o ex-prefeito n\u00e3o est\u00e1 concedendo entrevistas porque, acredita, &#8220;a imprensa j\u00e1 tomou uma posi\u00e7\u00e3o sobre o assunto&#8221;.<\/p>\n<p>Nas \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es, Gabeira voltou a colocar em pauta a constru\u00e7\u00e3o dos muros. Sua proposta era de ampliar ecolimites digitais j\u00e1 existentes, que, segundo ele, preveria participa\u00e7\u00e3o da comunidade para evitar a ocupa\u00e7\u00e3o para fora dos limites e o estabelecimento de postos de orienta\u00e7\u00e3o urban\u00edstica que instruiriam moradores a constru\u00edrem suas casas dentro da lei. &#8220;Com a boa-vontade da popula\u00e7\u00e3o, talvez n\u00e3o precisasse do muro&#8221;, opina.<\/p>\n<p>O Rio de Janeiro n\u00e3o escolheu Gabeira, mas continuou com Cabral. Eduardo Paes, que j\u00e1 mudou de opini\u00e3o, agora mostra-se favor\u00e1vel \u00e0 medida, conforme declara seu vice Carlos Alberto Muniz. A um ano das elei\u00e7\u00f5es para governador, S\u00e9rgio Cabral recuperou o projeto e pretende estend\u00ea-lo em tr\u00eas \u00e1reas da cidade, uma pr\u00f3xima \u00e0 \u00e1rea nobre da capital. Muniz, que tamb\u00e9m \u00e9 secret\u00e1rio municipal do Meio Ambiente, afirma que a prefeitura est\u00e1 agindo em complementa\u00e7\u00e3o \u00e0 constru\u00e7\u00e3o do muro com arboriza\u00e7\u00e3o interna das comunidades e reflorestamento dos entornos em mutir\u00e3o com a comunidade, al\u00e9m de estar implementando &#8220;telhados verdes&#8221;, coberturas vegetais sobre as lajes das casas.<\/p>\n<p><b>Disputa de discursos<\/b><\/p>\n<p>A a\u00e7\u00e3o do governo estadual apela para um dos discursos mais mobilizadores da atualidade: o ambiental. &#8220;Os interesses sociais s\u00f3 podem ser defendidos de forma mais ampla e no longo prazo se os interesses ambientais tamb\u00e9m forem defendidos&#8221;, observa Eduardo Cesar Marques, p<br \/>\nesquisador e diretor do Centro de Estudos da Metr\u00f3pole (CEM), de S\u00e3o Paulo. O argumento verde come\u00e7ou a ganhar corpo na d\u00e9cada de 1970, quando v\u00e1rios desastres ambientais e a primeira crise do petr\u00f3leo levaram a sociedade a buscar na \u00e1rea sa\u00eddas para seus entraves s\u00f3cioecon\u00f4micos. A milit\u00e2ncia pol\u00edtica em torno do discurso ambientalista come\u00e7ou em 1972, com a cria\u00e7\u00e3o do Partido Verde na Tasm\u00e2nia, na Austr\u00e1lia, e chegou ao Brasil na forma institucional em 1986. De acordo com o pesquisador Rui Lima Ramos, da Universidade Minho, de Portugal, &#8220;h\u00e1 [atualmente] uma onipresen\u00e7a do discurso do ambientalismo&#8221; na imprensa que geralmente se reveste de um &#8220;car\u00e1ter t\u00e9cnico&#8221;. Em seu artigo &#8220;Dimens\u00f5es do discurso ambientalista nos media: uma abordagem explorat\u00f3ria&#8221;, Ramos aponta que o discurso descreve a chamada &#8220;sociedade de risco&#8221;, em que qualquer esp\u00e9cie de desenvolvimento &#8220;\u00e9 ensombrada pelos riscos produzidos, que se democratizam e estendem-se a todas as classes sociais&#8221;. O pesquisador do CEM vai no mesmo sentido. &#8220;A quest\u00e3o \u00e9 a mobiliza\u00e7\u00e3o dos discursos. O discurso ambiental no Rio de Janeiro \u00e9 repetidamente mobilizado nos \u00faltimos anos para legitimar a\u00e7\u00f5es contra as favelas, para culpabiliz\u00e1-las&#8221;.<\/p>\n<p>Coordenador do Instituto de Terras no Rio de Janeiro, Maur\u00edcio Ruiz defende os muros e a prote\u00e7\u00e3o que eles podem dar \u00e0 Mata Atl\u00e2ntica. &#8220;Tem que construir o muro sim&#8221;, afirma argumentando que qualquer crescimento registrado \u00e9 significativo para a devasta\u00e7\u00e3o das matas da cidade. &#8220;Mas essa medida e outras devem ser aplicadas a todas as classes sociais&#8221;, assegura. Em sua vis\u00e3o, n\u00e3o existe contradi\u00e7\u00e3o entre a milit\u00e2ncia ambiental e a social. &#8220;O movimento ambiental e o movimento social est\u00e3o de m\u00e3os dadas. Quem entra para o ecologismo n\u00e3o pode deixar de lutar contra a pobreza&#8221;, finaliza. J\u00e1 S\u00e9rgio Cabral chegou a declarar que o muro n\u00e3o seria segregador, mas &#8220;de inclus\u00e3o&#8221;. &#8220;Ele significa o fim da omiss\u00e3o do poder p\u00fablico&#8221;, declarou \u00e0 imprensa.<\/p>\n<p><b>V\u00edtimas ou culpados?<\/b><\/p>\n<p>Francisco Valdean dos Santos veio da cidade de Cachoeira Grande, quase divisa com o Piau\u00ed, e mora no Complexo da Mar\u00e9 desde 1995. Apesar de as duas escolas de ensino m\u00e9dio mais perto estarem fora da comunidade, beirando a avenida Brasil, Francisco completou o ensino m\u00e9dio e hoje cursa ci\u00eancias sociais na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). &#8220;O muro cria um imagin\u00e1rio de que existe uma viol\u00eancia muito grande nas favelas e que tem que ser combatida dessa forma. Mas existem viol\u00eancias muito maiores do que a que se v\u00ea na imprensa, como falta de escola, baixa qualidade na sa\u00fade p\u00fablica&#8230; Nesse processo tem uma viol\u00eancia muito maior&#8221;, reflete Francisco, que hoje trabalha no Observat\u00f3rio de Favelas no Rio. Ele acredita que o projeto materializa a criminaliza\u00e7\u00e3o da pobreza, e desabafa: &#8220;o morador da favela \u00e9 sempre o culpado, agora inclusive pela destrui\u00e7\u00e3o da mata&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;O Rio de Janeiro tem uma longu\u00edssima hist\u00f3ria de culpabiliza\u00e7\u00e3o das favelas, desde 1920, da viagem do rei da B\u00e9lgica, quando se removeu a favela do Calabou\u00e7o por sua visibilidade no caminho que o rei iria fazer&#8221;, retoma o pesquisador Eduardo. &#8220;Diz-se que a cidade est\u00e1 sendo agredida pela favela, mas \u00e9 o contr\u00e1rio&#8221;, indigna-se Carlos Vainer, urbanista do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional da UFRJ. &#8220;N\u00e3o bastasse essa popula\u00e7\u00e3o estar penalizada pela situa\u00e7\u00e3o dram\u00e1tica em que se encontra, agora ainda \u00e9 culpabilizada&#8221;, completa, classificando a pol\u00edtica de S\u00e9rgio Cabral como um &#8220;urbanismo policial&#8221;.<br \/>H\u00e1 quem ainda contemporize, como Eduardo, que acredita que uma mureta com baixa agress\u00e3o visual submetida \u00e0 fiscaliza\u00e7\u00e3o seria &#8220;plenamente suficiente&#8221;. A propor\u00e7\u00e3o do muro e o local em que est\u00e1 sendo erguido \u00e9 que constituiriam um problema. &#8220;(Os muros) s\u00e3o de grande visibilidade, pr\u00f3ximos \u00e0 classe m\u00e9dia, formadora de opini\u00e3o. \u00c9 uma tentativa clara de mostrar a a\u00e7\u00e3o do poder p\u00fablico dura em uma \u00e1rea sens\u00edvel&#8221;, coloca.<\/p>\n<p>Carlos acredita que as inten\u00e7\u00f5es da medida v\u00e3o al\u00e9m do mero interesse eleitoreiro. &#8220;Trata-se de atender aos reclames do capital imobili\u00e1rio, que pretende ocupar as encostas e disputar espa\u00e7o com as favelas&#8221;, acredita. As primeiras onze favelas que receber\u00e3o os tr\u00eas metros de cimento at\u00e9 o fim deste ano s\u00e3o vizinhas dos bairros mais nobres da Cidade Maravilhosa, como Botafogo, Copacabana, Ipanema e Leblon.<\/p>\n<p>Apesar das cr\u00edticas, o Datafolha perguntou a 644 pessoas de diversas classes sociais se elas eram contra ou a favor da constru\u00e7\u00e3o: 47% afirmaram ser a favor, e 41% contra. &#8220;A discuss\u00e3o do meio ambiente vem sendo jogada muito na m\u00eddia, ent\u00e3o tem aceita\u00e7\u00e3o&#8221;, opina Francisco. &#8220;Junta-se esse apelo mundial pelo meio ambiente a uma reivindica\u00e7\u00e3o de conten\u00e7\u00e3o das favelas&#8221;. Mas h\u00e1 quem conteste o n\u00famero apresentado pelo Datafolha, como os moradores da Rocinha, que por meio de sua associa\u00e7\u00e3o de moradores realizaram uma consulta que chegou a ter 1.173 votos. O resultado foi que a esmagadora maioria, 1.111 votos, se posicionou contra a constru\u00e7\u00e3o dos ecolimites, enquanto 56 foram a favor e seis se abstiveram. A discrep\u00e2ncia dos n\u00fameros das duas pesquisas e a pr\u00f3pria evid\u00eancia na do Datafolha de que n\u00e3o \u00e9 a maioria absoluta que est\u00e1 a favor da medida colocam a quest\u00e3o como um debate a ser constru\u00eddo na cidade do Rio de Janeiro.<\/p>\n<p><b>A elite tamb\u00e9m desmata<\/b><\/p>\n<p>O plano dos 11 km de muro em torno das favelas d\u00e1 a entender que elas s\u00e3o as \u00fanicas respons\u00e1veis pelo desmatamento da encosta dos morros. A devasta\u00e7\u00e3o \u00e9 incontest\u00e1vel: em pesquisa realizada pelo Instituto de Pesquisas Espaciais (Inpe) no ano passado, a regi\u00e3o metropolitana do Rio de Janeiro teve 205 hectares de sua floresta suprimida em tr\u00eas anos. Na pesquisa anterior, foi registrada, entre 2000 e 2005, uma diminui\u00e7\u00e3o de 94 hectares de matas. No entanto, a regi\u00e3o metropolitana engloba munic\u00edpios que registram n\u00edveis muito mais cr\u00edticos de desmatamento do que a capital, como Itabora\u00ed e Nova Igua\u00e7u, onde se tem derrubado \u00e1rvores do entorno da Reserva Biol\u00f3gica do Tingu\u00e1.<\/p>\n<p>Mas ser\u00e1 que a Mata Atl\u00e2ntica carioca \u00e9 alvo somente do crescimento das favelas? N\u00e3o, de acordo com o IPP. Em recente pesquisa, o instituto apontou que 69,7% das encostas acima dos 100 metros de altitude s\u00e3o ocupadas por fam\u00edlias de classe m\u00e9dia e alta. O governador cercar\u00e1 comunidades que respondem pela ocupa\u00e7\u00e3o de 30% da \u00e1rea das encostas cariocas.<\/p>\n<p>Confrontados os dados, o diretor da Emop sustenta que, &#8220;se tiver [ocupa\u00e7\u00e3o de classes m\u00e9dias e ricas], construiremos o muro tamb\u00e9m&#8221;. O importante \u00e9 a Mata Atl\u00e2ntica&#8221;. No entanto, n\u00e3o consta no projeto a constru\u00e7\u00e3o de muros em outras \u00e1reas que n\u00e3o sejam favelas. J\u00e1 o secret\u00e1rio municipal do Meio Ambiente questiona a pesquisa do IPP, afirmando que o instituto estaria se restringindo \u00e0 an\u00e1lise urban\u00edstica, e diz que s\u00e3o poucas as \u00e1reas de classe m\u00e9dia e alta que estariam causando algum impacto ambiental. Os argumentos da prefeitura acabam indo contra sua pr\u00f3pria estrutura, uma vez que o IPP \u00e9 uma autarquia ligada ao munic\u00edpio, e tem como fun\u00e7\u00e3o justamente realizar an\u00e1lises e planejamentos urban\u00edsticos para a cidade. Essa diferen\u00e7a com que se trata as classes sociais na quest\u00e3o ambiental, como observa Vainer, &#8220;\u00e9 uma maneira de dizer que os favelados n\u00e3o s\u00e3o cidad\u00e3os como os outros&#8221;. <\/p>\n<p><b>Pobres e itinerantes<\/b><\/p>\n<p>&#8220;Eu fico pensando: onde v\u00e3o colocar os pobres?&#8221;, indaga Francisco, um dos moradores da Mar\u00e9. Eles est\u00e3o limitados verticalmente a um crescimento de at\u00e9 tr\u00eas pavimentos, e agora foram coibidos horizontalmente. O poder p\u00fablico ainda n\u00e3o respondeu como far\u00e1 para remanejar a popula\u00e7\u00e3o crescente das favelas. A pr\u00f3pria constru\u00e7\u00e3o dos muros j\u00e1 desalojar\u00e1 mais de 550 fam\u00edlias que, conforme garante \u00cdcaro, ter\u00e3o direito a um aluguel-social de R$250,00 a R$350,00 por m\u00eas at\u00e9 receberem do governo do estado uma casa dentro da pr\u00f3pria comunidade, &#8220;com condi\u00e7\u00f5es melhores e t\u00edtulo de propried<br \/>\nade&#8221;.<\/p>\n<p>A pol\u00edtica de realocar ou simplesmente despejar os moradores de favelas tem um longo hist\u00f3rico. J\u00e1 no in\u00edcio da d\u00e9cada de 1920, o prefeito Pereira Passos marcou sua gest\u00e3o ao demolir os corti\u00e7os do centro da cidade para dar lugar a avenidas largas de luxo. Os encorti\u00e7ados foram para os morros, j\u00e1 que ao n\u00edvel do mar j\u00e1 n\u00e3o encontravam onde ficar. A gest\u00e3o de Carlos Lacerda na prefeitura da cidade, 40 anos depois, recuperou a linha de Passos e marcou a hist\u00f3ria do Rio de Janeiro ao derrubar duas favelas da zona Sul, Catacumba, na Lagoa, e Pasmado, no Botafogo. As fam\u00edlias foram realocadas para a Cidade de Deus, planejada para ser um bairro de conjuntos habitacionais que acabou crescendo vertiginosamente e hoje ocupa uma \u00e1rea de mais de 120 hectares e conta com uma popula\u00e7\u00e3o de 38 mil habitantes.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, ao contr\u00e1rio do senso comum, seu crescimento n\u00e3o foi desordenado. \u00c9 o que defende a pesquisadora e soci\u00f3loga americana Janice Perlman. Seus estudos apontam que essas comunidades foram planejadas desordenadamente pelo poder p\u00fablico, mas encontraram uma din\u00e2mica interna de &#8220;coes\u00e3o social e confian\u00e7a m\u00fatua&#8221;. Para ela, existe um planejamento dos pr\u00f3prios moradores que, ao se verem obrigados a construir suas resid\u00eancias em locais de risco ou com espa\u00e7o limitado, desenvolvem &#8220;t\u00e9cnicas criativas de constru\u00e7\u00e3o em encostas que os urbanistas consideram demasiado \u00edngremes para edifica\u00e7\u00f5es&#8221;. Por\u00e9m, esse &#8220;jeitinho&#8221; garante a sobreviv\u00eancia, mas n\u00e3o o bem-estar. &#8220;As pessoas t\u00eam que entender que a favela \u00e9 a \u00faltima sa\u00edda para quem n\u00e3o tem recursos de habitar adequadamente e pr\u00f3ximo ao trabalho&#8221;, argumenta o urbanista Carlos. A Rocinha, por exemplo, ainda \u00e9 conhecida como um dos focos mais alarmantes de tuberculose no pa\u00eds, por conta da falta de saneamento ambiental e condi\u00e7\u00f5es adequadas de moradia. Carlos n\u00e3o v\u00ea outra sa\u00edda que n\u00e3o a habita\u00e7\u00e3o popular: &#8220;O resto \u00e9 mistifica\u00e7\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Gostaria de compartilhar com voc\u00eas um \u00f3timo artigo escrito por Camila Souza Ramos e publicado em maio de 2009 pela Revista F\u00f3rum. Este e todos os outros artigos publicados por esta revista est\u00e3o licenciados sob Creative Commons e, por este motivo, reproduzo abaixo na \u00edntegra o artigo. 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