{"id":69,"date":"2008-11-19T23:05:00","date_gmt":"2008-11-20T02:05:00","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/discutindoecologia\/2008\/11\/microalgas-que-nao-fazem-fotossintese\/"},"modified":"2008-11-19T23:05:00","modified_gmt":"2008-11-20T02:05:00","slug":"microalgas-que-nao-fazem-fotossintese","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/discutindoecologia\/2008\/11\/microalgas-que-nao-fazem-fotossintese\/","title":{"rendered":"Microalgas que n\u00e3o fazem fotoss\u00edntese"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"padding: 5px;float: left\"><a href=\"http:\/\/www.researchblogging.org\/\"><img decoding=\"async\" alt=\"ResearchBlogging.org\" src=\"http:\/\/www.researchblogging.org\/public\/citation_icons\/rb2_large_gray.png\" style=\"border: 0pt none\" \/><\/a><\/span><\/p>\n<div style=\"text-align: justify\">O t\u00edtulo deste post n\u00e3o \u00e9 um <a href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Paradoxo\">paradoxo<\/a>. Ocean\u00f3grafos da Universidade de Santa Cruz, Calif\u00f3rnia descobriram um novo grupo de algas cianof\u00edceas (mais conhecidas como cianobact\u00e9rias) que n\u00e3o apresentam boa parte dos genes necess\u00e1rios para o funcionamento do fotossistema II e para a fixa\u00e7\u00e3o de carbono, essenciais para o processo de fotoss\u00edntese tanto em cianobact\u00e9rias quanto em plantas superiores. O estudo foi <a href=\"http:\/\/www.sciencemag.org\/cgi\/content\/abstract\/322\/5904\/1110\">publicado<\/a> semana passada no peri\u00f3dico <span style=\"font-style: italic\">Science<\/span>.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify\">O mais interessante deste caso \u00e9 o papel ecol\u00f3gico deste grupo. Inicialmente algu\u00e9m poderia perguntar: &#8220;Mais isso deve ser uma aberra\u00e7\u00e3o. Este grupo n\u00e3o teria sucesso j\u00e1 que n\u00e3o teria como obter mat\u00e9ria org\u00e2nica&#8221;. \u00c9 a\u00ed que o assunto come\u00e7a a ficar interessante.<\/p>\n<p>Mesmo sendo o principal constituinte da nossa atmosfera (quase 80%), o nitrog\u00eanio gasoso (N<span style=\"font-size: 78%\">2<\/span>) n\u00e3o \u00e9 assimil\u00e1vel pela maior parte dos organismos. O N<span style=\"font-size: 78%\">2<\/span> pode ser fixado por bact\u00e9rias do g\u00eanero <span style=\"font-style: italic\">Rhizobium<\/span>, que vivem em n\u00f3dulos de ra\u00edzes de plantas leguminosas, e, principalmente, por cianobact\u00e9rias. O processo de fixa\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica do nitrog\u00eanio (FBN) requer uma energia de ativa\u00e7\u00e3o muito alta, desta forma est\u00e1 longe de ser um processo espont\u00e2neo. Al\u00e9m deste pequeno problema, uma das grandes restri\u00e7\u00f5es da FBN \u00e9 a fragilidade da enzima catalizadora. A nitrogenase \u00e9 altamente sens\u00edvel \u00e0 presen\u00e7a de oxig\u00eanio, que pode destruir de forma irrepar\u00e1vel a enzima. Uma pergunta bem coerente seria: &#8220;Como uma microalga poderia realizar um processo onde a enzima catalizadora \u00e9 muito sens\u00edvel ao oxig\u00eanio?&#8221;. A sele\u00e7\u00e3o natural deu um jeito neste pequeno problema. Alguns grupos de cianobact\u00e9rias filamentosas que fixam nitrog\u00eanio gasoso apresentam uma c\u00e9lula chamada heterocisto, que cria um ambiente microanaer\u00f3bico onde a enzima nitrogenase pode trabalhar sem sobressaltos.<\/p>\n<p><\/p>\n<div style=\"text-align: center\"><a href=\"http:\/\/1.bp.blogspot.com\/_bbdlOygs1WQ\/SSTJUqLoazI\/AAAAAAAABPI\/BFSJZ2bmPmM\/s1600-h\/heterocisto.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-0\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img decoding=\"async\" style=\"cursor: pointer;width: 256px;height: 400px\" src=\"http:\/\/1.bp.blogspot.com\/_bbdlOygs1WQ\/SSTJUqLoazI\/AAAAAAAABPI\/BFSJZ2bmPmM\/s400\/heterocisto.jpg\" alt=\"\" border=\"0\" \/><\/a><br \/><span style=\"font-size: 78%\">Heterocisto (parte central da foto) de <i>Anabaena sperica. <\/i>Cr\u00e9dito: <a href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Heterocyst\">Wikipedia<\/a><\/span><\/p>\n<p><\/div>\n<p>Mas nem todos os grupos de cianobact\u00e9rias t\u00eam heterocistos. Desta forma, a maior parte s\u00f3 consegue fixar nitrog\u00eanio a noite, quando n\u00e3o est\u00e3o fazendo fotoss\u00edntese. Acho que agora ficou mais f\u00e1cil de entender qual seria o papel ecol\u00f3gico deste grupo de cianobact\u00e9ria. A falta de genes que s\u00e3o essenciais para a realiza\u00e7\u00e3o do processo de fotoss\u00edntese fez com que este grupo passasse a fixar nitrog\u00eanio durante o dia todo, mesmo sem uma estrutura especializada para proteger a nitrogenase. Sendo um grupo muito abundante em oceanos, a taxa de fixa\u00e7\u00e3o de nitrog\u00eanio total neste ambiente pode sofrer um acr\u00e9scimo consider\u00e1vel, tendo grande relev\u00e2ncia ecol\u00f3gica. Quanto ao problema do grupo de microalgas descoberto n\u00e3o ter uma fonte de carbono devido a n\u00e3o realiza\u00e7\u00e3o da fotoss\u00edntese, existem duas hip\u00f3teses principais: essas microalgas podem estar se alimentando de alguma forma diretamente de mat\u00e9ria org\u00e2nica (como j\u00e1 ocorre em outros <a href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Euglena\">grupos<\/a>) ou em simbiose com algum outro organismo.<\/p>\n<p>Acho incr\u00edvel como um processo de tamanha import\u00e2ncia evolutiva como a fotoss\u00edntese pode ter sido &#8220;esquecido&#8221; por este grupo de algas. Tentem imaginar o tamanho da press\u00e3o seletiva para um grupo de cianobact\u00e9rias ter se mantido, reproduzido e tornar-se dominante em seu ecossistema sem realizar um processo que alterou de forma marcante a vida em nosso planeta, tendo evolu\u00eddo a mais de <a href=\"http:\/\/discutindoecologia.blogspot.com\/2008\/10\/intrigante-e-controversa-histria-do.html\">2 bilh\u00f5es de anos<\/a> atr\u00e1s.<\/p>\n<p>Refer\u00eancia:<\/p>\n<p><span class=\"Z3988\" title=\"ctx_ver=Z39.88-2004&amp;rft_val_fmt=info%3Aofi%2Ffmt%3Akev%3Amtx%3Ajournal&amp;rft.jtitle=Science&amp;rft_id=info%3Adoi%2F10.1126%2Fscience.1165340&amp;rfr_id=info%3Asid%2Fresearchblogging.org&amp;rft.atitle=Globally+Distributed+Uncultivated+Oceanic+N2-Fixing+Cyanobacteria+Lack+Oxygenic+Photosystem+II&amp;rft.issn=0036-8075&amp;rft.date=2008&amp;rft.volume=322&amp;rft.issue=5904&amp;rft.spage=1110&amp;rft.epage=1112&amp;rft.artnum=http%3A%2F%2Fwww.sciencemag.org%2Fcgi%2Fdoi%2F10.1126%2Fscience.1165340&amp;rft.au=Zehr%2C+J.&amp;rft.au=Bench%2C+S.&amp;rft.au=Carter%2C+B.&amp;rft.au=Hewson%2C+I.&amp;rft.au=Niazi%2C+F.&amp;rft.au=Shi%2C+T.&amp;rft.au=Tripp%2C+H.&amp;rft.au=Affourtit%2C+J.&amp;rfe_dat=bpr3.included=1;bpr3.tags=Biology%2CEcology%2C+Marine+Biology%2C+Microbiology\">Zehr, J., Bench, S., Carter, B., Hewson, I., Niazi, F., Shi, T., Tripp, H., &amp; Affourtit, J. (2008). Globally Distributed Uncultivated Oceanic N2-Fixing Cyanobacteria Lack Oxygenic Photosystem II <span style=\"font-style: italic\">Science, 322<\/span> (5904), 1110-1112 DOI: <a rev=\"review\" href=\"http:\/\/dx.doi.org\/10.1126\/science.1165340\">10.1126\/science.1165340<\/a><\/span><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O t\u00edtulo deste post n\u00e3o \u00e9 um paradoxo. 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