A Razão Diabólica

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José Arthur Giannotti (precisa ter assinatura), na Folha de hoje, fala sobre o discurso de Bento 16 na ONU, referindo-se a ele como pérola do pensamento conservador. Além de toda questão política comentada, me interessa mais a relação entre ciência e religião que o papa usa como argumento e que Giannotti critica. Vejamos o papa:

Deste modo o nosso pensamento se dirige ao modo como os resultados das descobertas da pesquisa científica e tecnológica foram aplicados. Não obstante aos grandes benefícios que a humanidade pode tirar deles, alguns aspectos de tais aplicações representam uma clara violação da ordem da criação a ponto de não contradizer somente o caráter sagrado da vida humana mas a própria violação da pessoa e da família em sua identidade natural.”

Giannotti questiona a noção de identidade – crítica óbvia – o que faz muito sentido para ironistas (no sentido rortyano do termo), mas nenhum sentido para o homem que ocupa o cargo mais metafísico da humanidade. Ele acredita sim em essências!

Segue o sumo pontífice:

Do mesmo modo, a ação internacional, na busca de preservar o ambiente, e proteger as várias formas de vida sobre a terra não deve garantir somente um uso racional da tecnologia e da ciência, mas deve redescobrir a autêntica imagem da criação. Isto não exige nunca uma escolha entre ciência e ética, mas se trata de adotar um método científico que respeite verdadeiramente os imperativos da ética.”

Isso daria uma tese. Alguém tem dúvida de que Habermas assinaria a primeira frase se ela não terminasse com a tal “imagem da criação”? Uma razão compartilhada internacionalmente é seu sonho de consumo. Por outro lado, se não existe método científico subordinado a imperativos morais, pode haver um consenso de pares – vamos por aqui ou melhor trabalhar por lá, call for papers sobre determinado assunto, etc. O cientista publica, mantém os grants, a revista publica, mantém as assinaturas e patrocínios, a massa cita o artigo, fica “estudada” (ver Manoel de Barros) e fica todo mundo feliz! Só que isso vale para a ciência normal kuhniana.

No caso das grandes descobertas é diferente. Para Giannotti existe uma razão diabólica por trás delas: “Foi diabólico para os pitagóricos pensar os números irracionais, foi diabólico para toda a razão convencional do século 19 pensar que a espécie humana tivesse uma origem comum àquela dos macacos, e, atualmente, é diabólico pensar que uma pessoa possa ser clonada.”

O argumento de Giannotti é que o papa quer subordinar, inclusive pela força (ver o final do artigo), a ciência a uma visão de fé (ecumênica até) com todos os desdobramentos que isso possa acarretar. É claro que isso não vai dar certo nunca!

O ponto aqui é que o papa argumenta sobre um assunto polêmico e extremamente necessário com as armas de que dispõe. Ou Giannotti esperava ver o papa pedindo desculpas (de novo!) a Galileu e assumindo a culpa na Inquisição? Este blog vem defendendo a reflexão, de preferência conjunta, como medida da razão desenfreada. O papa faz exatamente isso com sua linguagem metafísica e altamente conservadora. Mas o que deveríamos esperar de Ratzinger?

O cientista produz um poder sobre o qual não tem controle. Giannotti chama isso de diabólico pois é ousado, transgressor, invasivo e agressivo. É quase ciência heavy-metal. Tudo bem. Mas acho bem mais diabólico, no sentido de “do Mal” (como dizem meus filhos) a apropriação desse conhecimento para outro fim que não minimizar as aflições da espécie humana e do planeta em geral, o que, no fundo, é quase a mesma coisa.

Discussão - 7 comentários

  1. aleph disse:

    Karl, não entendi a sua posição. Você comunga das idéias de Gianotti ou está do lado do nosso querido sumo pontífice?

  2. Karl disse:

    Bento 16 defende uma racionalidade científica compartilhada unida por pela verdade cristã. Giannotti arguto e debochado, associa ao método científico, um certo olhar que chama de diabólico.A linguagem de Bento 16 não faz sentido para Giannotti (e para toda comunidade científica, creio eu!). A linguagem de Giannotti é dawkiniana. Nem arranha convicções cristãs.Entretanto, o papa está certo quando afirma que a racionalidade ocidental deva ser de algum modo controlada. Erra no método de controle. Giannotti apenas denuncia o erro (que, aliás, todo mundo já sabia!)…Obrigado pela pergunta.

  3. aleph disse:

    Caro Karl, questão intrigante esta do “controle da racionalidade ocidental”. Você acredita que o III Reich passou do controle da racionalidade? É possível conciliar uma racionalidade excessiva, descontrolada, com a fé em Deus?

  4. Karl disse:

    O III Reich foi considerado pelos frankfurtianos como fruto de uma hiperracionalidade das teorias emancipatórias oriundas da Teoria Tradicional (cânone Platão-Descartes-Kant) do qual a servidão voluntária de La Boétie é visionária.Quanto a segunda questão: Acho que não, caríssimo Aleph. Refletir sobre a racionalidade pode, no máximo, produzir uma anti-racionalidade; nunca uma irracionalidade…

  5. aleph disse:

    Caro Karl, obrigado pelas respostas. Percebo que não estou lidando com peixe pequeno…Abraço!

  6. Karl disse:

    Isso significa que, ou não me fiz compreender – onde perco; ou me fiz intimidador ao caríssimo interlocutor – e perco duplamente…Como reparar?

  7. aleph disse:

    Não houve perdas, só ganhos!Abraço alviverde!

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