O Risco

Photo by Ivan Makarov

Na Epidemiologia do Risco, a “velha” epidemiologia observacional das doenças infecciosas, com “inveja” das ciências médicas experimentais, abandona sua antiga metodologia da exposição e passa “a tratar principalmente das doenças crônicas não-transmissíveis, para as quais os métodos observacionais ainda não foram completamente explorados. Através do estudo das circunstâncias sob as quais essas doenças experimentam uma prevalência incomum, espera-se identificar áreas nas quais o trabalho experimental laboratorial possa se concentrar para a identificação dos agentes causais específicos.”
No Risco, a especulação causal é a razão de ser da investigação biomédica e deve sugerir vínculos causais para que as ciências biomédicas experimentais explorem “adequadamente” tais associações. Uma das principais críticas desse tipo de atitude é sua inerente “rarefação teórica”. Se quer dizer com isso que a validação das proposições geradas na epidemiologia do risco não vem de “dentro”, mas de “fora”, ou seja, das ciências biomédicas, ditas “duras”. Ao terceirizar seu discurso de verdade, a epidemiologia ficou refém da doença e de seus correlatos.
Essa situação abre caminho, na minha maneira de ver, para as deformações do pensamento médico da atualidade. Hoje a Epidemiologia do Risco (com toda sua rarefação teórica) substitui a Anatomia Patológica na racionalidade médica contemporânea! A validação do discurso da Anatomia Patológica era dada através da própria experimentação e análise post-mortem. A Epidemiologia do Risco não valida seu discurso, remete essa tarefa às ciências biomédicas que, por não terem o norte do bem-estar do indivíduo nem o conceito de saúde ou produção de felicidade, tecnologizam a relação médico-paciente, dando a exata sensação de caminhar em círculos (ora uma conduta é válida, ora não!). Ao transferir esse raciocínio para a esfera do mundo acadêmico, entendemos o porquê das “máquinas de publicação”, fator impacto, medicina baseada em evidências, medicalização, tecnologização e todos os fatores que tornam a medicina contemporânea tão estranha e assustadora aos olhos dos pacientes, médicos e fontes pagadoras. A impossibilidade da razão instrumental em se pensar. Quão distante estamos da fronésis aristotélica…

Discussão - 3 comentários

  1. Davi Cristovão disse:

    O médico impessoalizou-se… além do obstare passou a que? Em que momento aconteceu? É mais fácil?! Mais seguro (para si mesmo)?
    Será que para ser médico é preciso sentir-se humano?
    Afinal não deve o cientista ser guiado pela busca da verdade – doa a quem doer? (mas é muito mais fácil cortar na carne dos outros)
    Karl, por que o agente médico parece ter se esquecido do subjetivo (por que não é quantificável)? e por que parece tão difícil individualizar aquele ser que se encontra ali na UTI?! (tem livro pra isso?)
    Nesse mar de informações e da tal medicina baseada em evidência tratar ficou bem mais fácil que cuidar (digo por experiência própria)… e a gente se justifica dizendo que não há guideline que recomende tratar o paciente como indivíduo – pois isso seria nível “E” de evidência e não existem estudos populacionais que tratem de apenas 01 humano!
    Saudações,

  2. Karl disse:

    Boa, David. Bem-vindo ao Ecce Medicus!

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