O Médico – Cientista ou Moralista?

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Em 1950, George Simpson escreveu logo na introdução de seu artigo THE SCIENTIST-TECHNICIAN OR MORALIST? que a “aparente bifurcação entre ciência e moralidade decorre do status social da própria ciência e dos cientistas, envolvendo uma aceitação acrítica dos valores sociais dominantes”. A ciência não seria amoral, mas se apropriaria da moralidade convencional, ou seja, funde-se a uma moralidade mainstream modificando-a e sendo modificada por ela. Na visão tardo-capitalista onde a tecnociência ocupa posição fundamental, são forjados conceitos morais dentro de uma ótica que tem como objetivo final o lucro, a apropriação, o domínio e o controle de variáveis que poderiam interferir com a caminhada do “progresso”.
Mas se a ciência tem uma convivência nada pacífica com a moralidade, como foi ocorrer essa apropriação da moralidade convencional pelos cientistas contemporâneos? Para G. Simpson, essa situação resulta de uma disjunção da auto-consciência do cientista, ele, figura importantíssima no quadro social atual; e também ele, demasiado humano, que necessita de uma rede social de outros humanos; que cotidianamente toma decisões não-baseadas em fatos científicos, mas cujo raciocínio não se desvencilha dos formalismos do método. O artigo caminha por esses argumentos, mas esse ponto merece uma parada.
E o médico é técno-cientista ou moralista? Digo que em algumas situações um, em outras, o outro. Como ser o mesmo em todas? Pelo menos é assim que deveria ser. Mas isso gera uma tensão insuportável quando se está a frente de um paciente e seus familiares! Quando se está a frente de outros médicos! É possível justificar uma ação moral pela ciência? Pelo parágrafo 25 da 3a Dissertação da Genealogia da Moral de Nietzsche, parece que não…


Não! Não me venham com a ciência, quando busco o antagonista natural do ideal ascético, quando pergunto: “onde está a vontade oposta, na qual se expressa o seu ideal oposto? Para isso a ciência está longe de assentar firmemente sobre si mesma, ela antes requer, em todo sentido, um ideal de valor, um poder criador de valores, a cujo serviço ela possa acreditar em si mesma – ela mesma jamais cria valores. Sua relação com o ideal ascético não é absolutamente antagonística em si, ela antes representa, no essencial, a força propulsora na configuração interna deste. Um exame mais atento mostra que ela contradiz e combate não o ideal mesmo, mas o que nele é exterior, revestimento, jogo de máscaras, seu ocasional endurecimento, ressecamento, dogmatização – ela liberta nele a vida, ao negar o que nele é exotérico. Ambos, ciência e ideal ascético, acham-se no mesmo terreno – já o dei a entender -: na superestimação da verdade (mais exatamente: na mesma crença na inestimabilidade, incriticabilidade da verdade), e com isso são necessariamente aliados – de modo que, a serem combatidos, só podemos combatê-los e questioná-los em conjunto. (…)

Discussão - 2 comentários

  1. João Carlos disse:

    Justificar uma ação moral, talvez não… mas basear uma decisão “moral” na ciência é mais adequado do que baseá-la em qualquer outro fator de foro subjetivo.

  2. Karl disse:

    A característica eminentemente prática da moralidade clama por um exemplo, caríssimo João.

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