O Ponto G da Medicina

Paul Cézanne – 1867

Uma reportagem na Folha de São Paulo (28/09/08) sobre um procedimento que visa aumentar o desempenho sexual das mulheres vem comprovar uma das afirmações que este blog vem repetindo há meses. Trata-se de uma injeção de colágeno (proteína fibrosa constituinte de tendões e ligamentos) numa região bastante mal definida conhecida como ponto G. Com isso a área aumentaria e o prazer proporcionado por sua estimulação, também.

A reportagem, escrita por uma mulher, tem opiniões balanceadas numa primeira passada d’olhos, esclarecendo sobre os benefícios e possíveis efeitos colaterais do procedimento. Uma leitura mais atenta entretanto, faz surgir a pergunta: por que tanta ênfase sobre um procedimento que não é aprovado pela ANVISA, não é consenso entre os médicos, sobre uma parte, ou seria um orgão (?), que muita gente acha que não existe, com o objetivo de otimizar um comportamento sexual presumivelmente alterado em comparação sabe-se lá com quê ?
Esse tipo de assunto está numa fronteira entre o que chamamos Medicina e o que pode ser chamado de tecnologia do corpo. Não por acaso, são cirurgiões plásticos e não ginecologistas, os vetores iniciais do procedimento. Digo isso, porque a especialidade juntamente com a psiquiatria, trabalha no limite entre o normal e o patológico e muitas condutas, tanto de uma quanto de outra, não resistiriam a uma reflexão mais elaborada sobre se o que se está fazendo pode ou não ser chamado de medicina. Isso de alguma forma contribui para a cirurgia plástica ser a campeã em processos no Cremesp.
As áreas de fronteira como essa, são especialmente úteis para identificar pontos de atrito. São excelentes para tentarmos saber o que é e o que não é determinada atividade humana. O médico, versado nos segredos, reentrâncias e arquiteturas do corpo, acostumado a tecnologias inovadoras, pode ser presa de valores que não pertencem diretamente à sua profissão. Valores dizem respeito a moral. Quem cuida desse tipo de reflexão são filósofos. E o ciclo se fecha. O cientista/médico não pode se pensar.

Discussão - 8 comentários

  1. maria disse:

    karl, essa matéria também me deixou de cabelos em pé. por alguns motivos.
    o principal é esse que você levanta, cadê a responsabilidade profissional de quem faz esse procedimento? eu não quero ser cobaia num experimento desses – mas por outro lado, imagino que mulheres que sentem sua vida sexual tão morta que não têm nada a perder talvez nem pensem duas vezes.
    outra foi uma mulher que declarou que o marido dela já avisou que, quando acabar o efeito, ela terá que fazer de novo o procedimento. o marido??? e se fosse uma injeção no pênis, será que ele acharia igualmente imprescindível?
    outra foi uma materinha acessória sobre “correção” nos lábios. vaidade genital é algo que ultrapassa minha compreensão.
    mas fico curiosa com essa dúvida científica sobre se o ponto G existe ou se foi invenção do tal alemão. as mulheres que têm uma sensação diferente num certo ponto da vagina talvez não estejam preocupadas com o nome do ponto, nem se é um ponto ou uma área. mas existe. provavelmente não seja igual em todas, mas negar a existência me parece prepotência de médico homem.

  2. Felipe disse:

    ehhehe coidiloko mesmo!

  3. Karl disse:

    Maria, a confusão entre orgão e função é típica de áreas da biologia onde o conhecimento prático é baixo ou então repleto de tabus, como é o caso. O melhor exemplo que posso lembrar é o do cérebro (que ainda ocorre, quando algum “cientista” diz que encontrou a zona do amor ou coisa que o valha!).
    Com as técnicas atuais, dado que a anatomia humana (isso inclui a feminina) não muda radicalmente há 100.000 anos, acredito que se houvesse uma região anatomicamente definida como essa, com certeza, já a teriam descrito. Orgasmo vaginal é função. Não há comprovação até o momento de que o “orgão” exista 😉

  4. Sibele disse:

    Eu tenho um “causo” de confusão entre órgão e função, e estarrecedor. Ouvi de um colega, profissional de saúde num hospital público:
    Uma paciente foi colostomizada, num procedimento provisório com previsão de nova cirurgia para fechamento da colostomia e restabelecimento do trajeto intestinal. Como a paciente não retornou ao serviço de saúde decorrido o prazo previsto (não sei o motivo da colostomia e muito menos o prazo estipulado para sua reversão, mas não vem ao caso), acionou-se o serviço social para contatá-la.
    A paciente então manifestou sua recusa em fechar a colostomia. Justificou-se dizendo que queria agradar ao marido. Este, encantado que estava com a descoberta de mais um orifício corpóreo que se prestava a práticas recreacionais com o intuito de obter prazer…
    Uma gambiarra de tecnologia do corpo, sem dúvida.
    [E não, não sei o desfecho dessa estória].

  5. Karl disse:

    Essa estória habita os corredores hospitalares desde que era interno. Não sei o quanto de verdade há nela, Sibele, mas também não a acho impossível. De qualquer forma, uma colostomia é uma estrutura bastante delicada para determinadas práticas. Rupturas podem fazer com que o conteúdo fecal caia na cavidade abdominal, com consequências trágicas.

  6. Sibele disse:

    Uma “Lenda Hospitalar”, então! Mas nada improvável, Karl!
    Do jeito que vai a ânsia desmedida por sensações prazerosas (envolvendo qualquer um dos 5 sentidos, senão todos) a ponto dessas “tecnologias do corpo” indicadas por você aqui e no seu último post, as tais consequências trágicas (seja um rompimento da frágil parede intestinal, seja a perda de um menino normal, no caso de Farinelli) nem são cogitadas…

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