Paciente ou Cliente?


Segue interessante desabafo de um hospitalista americano (médico responsável por cuidar de pacientes internados) que não suportou a nova onda “capitalizante” que vem repaginando a medicina nos EUA. Aqui, seguimos a cartilha, também temos nossas versões de acreditação (ONA – Organização Nacional de Acreditação) além de importar as mais famosas internacionalmente, com o fim declarado de aumentar a segurança dos pacientes mas que apresenta um forte viés de mercado.
Essa é bem a visão do médico. Frases como essa sobre “centros de excelência”:
“Now the medical center, riddled with “centers of excellence” instead of departments, answered only to administrators who cared nothing about medical education, except for the Medicare dollars they would
lose if they cut the training programs.”

Ou essa, sobre a enfermagem:
“The doctor-nurse collaboration I grew up with as a trainee and young attending didn’t exist anymore,
and patients suffered as a result.”

São frases clássicas de médicos que sentem que o clima, o enfoque, a filosofia do health business, mudou! É muito interessante como a ciência médica se encaixa nesse tipo de administração hospitalar. Não há um CEO que não atribua uma importância estratégica à chamada “produção de conhecimento” e aqui no Brasil, há uma fortíssima tendência de instituições particulares (for profit, of course) assumirem a vanguarda tecnológica e científica, deixando para trás universidades poderosas como a USP.
Se o conhecimento produzido por uma universidade já deve ser submetido a uma análise crítica pois envolve conflitos de interesse (além de outros interesses que ainda não geram conflitos – falaremos disso oportunamente!), imagine o produzido dentro de uma instituição voltada para atendimento de convênios que exigem “protocolos” de conduta médica, exigem desempenho e uniformização dos médicos, além de velocidade em resolver os casos! Não temos ferramentas ainda, na minha maneira de ver, para criticar a ciência médica produzida nas condições normais, que dizer das produzidas nas novas condições que o “mercado da saúde” está exigindo. Um futuro de incertezas cerca a medicina pós-moderna.

Discussão - 7 comentários

  1. João Carlos disse:

    Falando do ponto de vista de um paciente (2 grandes cirurgias, há menos de um ano) e usuário de um Plano de Saúde, eu lhe digo com todas as letras: não presta!
    E quem mais sentiu os efeitos dessa “máquina de atender clientes” (porque “pacientes” já eram!…) foram os médicos-cirurgiões que cuidaram de mim! (Detalhezinhos idiotas, como uma peça descartável de equipamento – imprescindível para a cirurgia – que “não foi autorizada” ou só chegou em cima da hora da cirurgia… As inúmeras “justificativas” para a prorrogação do tempo de internação, etc)
    Eu nem vou comentar o SUS, porque é brincadeira de mau gosto… Mas dá para sentir o (mau) cheirinho da “produção-em-série-de-peças-padronizadas” – como se fosse possível fazer medicina na base da “linha de montagem”…
    “Ciência médica”?… Você deve estar brincando!… Medicina é “big business”! 👿

  2. Igor Santos disse:

    Passei o mês passado entrando e saindo de hospitais (como acompanhante, minha saúde ainda anda boa) e notei várias coisas bizarras:
    1 – O paciente, e somente ele, pode assinar as requisições de exames e consultas (a UNIMED usa inclusive leitura de impressão digital para isso). E se estiver em coma, fica sem atendimento? E se for URGENTE, tem que parar para esperar o computador da sala de emergência se conectar ao computador da empresa seguradora?
    2 – Alguns médicos (especialmente os mais novos) não olham mais para os paciente, mas para os enfermeiros (que são quem realmente atendem aos enfermos), a quem também dirigem as perguntas (do tipo: ele está reclamando de quê?). Acho um absurdo uma pessoa ser atendida e medicada e ir para casa sem saber a cor dos olhos do seu médico.
    3 – Deixam o diagnóstico na mão do paciente: “Você acha que tem o quê? Então tome aqui um rivotril.”
    4 – Falando em rivotril, os médicos com quem tive contato nesses dias não têm o menor pudor em administrar e receitar tarjas pretas quando o paciente pede. Examinação, alguém?
    Devo ter visitado uns cinco hospitais diferentes em vinte ocasiões e apenas UM médico se deu ao trabalho de passar cinco minutos ao lado da cama, conversando, tranquilizando e EXAMINANDO a pessoa que eu acompanhava. Este foi o único que não passou um IV e foi embora, ou pediu para ver se a requisição tinha sido aprovada.
    E, o mais triste disso, ele tem quase sessenta anos e já está para se aposentar.
    Sejam saudáveis ou sejam ricos. Essa é a dicotomia dos nossos dias…

  3. Karl disse:

    Amigos, sinto pelas experiências ruins de ambos. São queixas paradigmáticas e que se acumulam sobre o atual sistema de saúde. Longe de aventar soluções para um problema de tal complexidade, o Ecce Medicus ambiciona, pelo contrário, apontar mais e mais defeitos. Principalmente os “defeitos de pensamento”. De ambos os lados da mesa do consultório. É um engatinhar, gota no mar, mas vai…
    Obrigado pelos comentários.

  4. Renan Lopes disse:

    Sou Médico de Família e Comunidade e dedico meu trabalho 100% ao SUS atualmente na região metropolitana de Porto Alegre/RS. Longe de desejar tornar a verdade minha propriedade, acredito que o mal não está no “sistema”, seja ele privado ou público. Ok, há um viés de aferição nos serviços privados, onde a qualidade do funcionário expressa-se pelo quanto ele é econômico para a empresa, seja ele recepcionista ou médico. No serviço público, há um interesse político, sobre o qual muitas vezes não se tem “governabilidade”, que trava ou macula os potenciais do profissional. Mas a questão é: as pessoas não são mais as mesmas. O interesse pelo outro é limitado. O “salvar-se”, “defender-se” ou “livrar-se”, como se estivesse sob constante ataque, é uma paranóia/moda da vasta maioria dos que trabalham com saúde. O paciente é exigente, quer garantir seus direitos, a seu tempo, quer ser valorizado. Vê na sua saúde mais um bem de consumo, e a toda hora busca o que já foi chamado de “healthism”. Porém, não conhece sua própria fisiologia, não reconhece seu bem-estar. O profissional da saúde vê-se oprimido e prefere não envolver-se. E distanciando-se da troca interpessoal, da anamnese, do exame físico, do diálogo básico, foca-se na probabilidade da doença, na medicalização, na paranóia do processo. E aí mora o perigo, na antítese do que seria mais lógico. As pessoas precisam voltar a ser humanas.

  5. Karl disse:

    Esse é o material do Ecce Medicus, Renan (ver o sobre). Conto com sua presença. Obrigado pelo comentário.

  6. […] terminologias podem ser “sinais e sintomas” dessas mudanças. Já comentamos sobre o assunto há alguns anos. De minha parte, deixaria o questionamento sobre se tais novas terminologias não […]

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