Seria a Informação Científica uma Commodity?

Acho que morando no Brasil, o país dos pacotes, entendemos o suficiente de Economia para saber o que é uma commodity. Todos sabemos, por exemplo, que a “commoditização” do etanol é um assunto estratégico. Como todo conceito, o de commodity é sustentado por um arcabouço teórico que permite sua instrumentalização pelos agentes das negociações nas quais estão envolvidas. Tem gente que produz, tem quem venda, tem quem compre. Há, digamos, uma “fisiologia” que pode ser entendida nesse processo todo, pois há uma certa lógica de procedimentos.

Volta e meia, surge alguém que aplica conceitos provenientes de outras áreas do conhecimento humano em determinado campo e abre uma nova avenida interpretativa. A Medicina é especialmente propensa a receber essas análises alienígenas devido a, creio eu, sua ampla margem de atuação.

Quais interpretações poderiam ser hauridas se aplicarmos os conceitos econômicos envolvidos na teoria das commodities na forma como a ciência, em especial a médica, caminha nos dias de hoje? Foi a pergunta que Neal S. Young, John P. A. Ioannidis, Omar Al-Ubaydli tentaram responder. Grandes defensores do Open Access, os autores se notabilizaram pelo estudo da influência do capital na ciência médica. Os resultados dessa estranha análise foram publicados no Plos Medicine em 7 de Outubro e produzem um certo tipo de vertigem. Isso porque, fazem bastante sentido e permitem uma interpretação das distorções científicas que sabemos, estão ocorrendo. Vejamos o arrasador primeiro parágrafo:

“This essay makes the underlying assumption that scientific information is an economic commodity, and that scientific journals are a medium for its dissemination and exchange. While this exchange system differs from a conventional market in many senses, including the nature of payments, it shares the goal of transferring the commodity (knowledge) from its producers (scientists) to its consumers (other scientists, administrators, physicians, patients, and funding agencies). The function of this system has major consequences. Idealists may be offended that research be compared to widgets, but realists will acknowledge that journals generate revenue; publications are critical in drug development and marketing and to attract venture capital; and publishing defines successful scientific careers. Economic modelling of science may yield important insights.”

Particularmente, não compartilho com essa grosseira divisão entre idealistas e realistas, porém devo admitir que a pesquisa tem, em algumas situações, a mesma fetichização de um widget. O artigo enumera seis propriedades econômicas das commodities que podem ser aplicadas em informação científica: maldição do vencedor, oligopólio, herding, escassez artificial, incerteza e branding. (Vale ver a tabela para maiores explicações). Isso nos faz ver coisas interessantes. Por exemplo, o viés de publicação (leia-se preconceito) dos estudos negativos, ou seja dos estudos nos quais a hipótese inicial não conseguiu ser demonstrada, poderia ser explicado, ao menos em parte, pela postura dos revisores das grandes revistas científicas:

“The authority of journals increasingly derives from their selectivity. The venue of publication provides a valuable status signal. (…) This is essentially an example of artificial scarcity. Artificial scarcity refers to any situation where, even though a commodity exists in abundance, restrictions of access, distribution, or availability make it seem rare, and thus overpriced. Low acceptance rates create an illusion of exclusivity based on merit and more frenzied competition among scientists “selling” manuscripts.” (grifos meus)

Se, por um lado, essas propriedades aplicadas às commodities ajudam a explicar porque alguns seres humanos passam fome e outros jogam comida fora – distorções exaustivamente apontadas pelos críticos do capitalismo tardio -, por outro, quando aplicadas às atuais políticas de publicação científica, ajudam a entender, pelo menos em parte, distorções científicas que, por sua vez, não são criticadas com a visibilidade que mereceriam.

Discussão - 7 comentários

  1. Carlos Hotta disse:

    Boa Karl!
    Me fez pensar muito mais sobre a validade de publicações abertas, como a PLoS.

  2. Igor Santos disse:

    Por isso que é tão importante manter o estado de alerta constante do ceticismo.
    Por enquanto, nada é verdade absoluta.

  3. João Carlos disse:

    Pelo menos o governo americano considera a informação científica uma “commodity”. Faz tempo que eles consideram, para efeitos de “balança de pagamentos”, os estudantes estrangeiros em Universidades dos EUA como “exportação de informação e tecnologia”.
    E o que eu tenho visto com o rótulo de “divulgação científica” no PressPac da American Chemical Society, me faz crer que seus temores são prenhes de fundamento.

  4. Karl disse:

    Exportação de informação às custas de importação de cérebros! Lembrar que a metáfora da commodity é sobre o comportamento do fato científico e sua forma de trânsito no meio de acordo com as regras de publicação vigentes.

  5. João Carlos disse:

    Com efeito, Karl! Só que a importação de cérebros é uma “importação de bens de capital” porque a maioria deles continua “produzindo” por lá mesmo. E – não se iluda! – os “aliens” ficam sob cerrada observação. O que, inclusive, tem influência sobre quais informações são publicadas ou não. Depois da onda de paranóia que se estabeleceu, as “teorias de conspiração” viraram historinha de ninar crianças.

  6. Karl disse:

    Paranóia tem bastante, mesmo. Mas a vontade de produzir é maior, pelo menos na minha área. Muitos dos chefes de grupo de pesquisa (inclusive o meu) são de fora dos EUA. O mérito do artigo da Plos foi oferecer uma explicação plausível para o sistema de produção cientifica no mundo globalizado. Faz sentido, independente da política.

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