Sobre a Incerteza

Reneé Magritte – Princípio da Incerteza (1944)

Como você lida com a incerteza? Em 1927, Heisenberg abalou a Física com a impossibilidade de uma certeza. Ficamos desconfortáveis com incertezas. É fato conhecido que testemunhas de acidentes ou crimes inventam fatos para preencher histórias com dados incompletos. Com a maior das boas intenções. As certezas nos acalmam, nos deixam pisar em terreno firme, nos enchem de confiança.

Se físicos têm incertezas, que dirá os médicos. As fontes de incerteza dos médicos são basicamente três: 1) nenhum médico sabe ou tem habilidade para dominar toda a Medicina, mas mesmo que soubesse 2) o próprio conhecimento médico é incompleto e incapaz de lidar com todo o espectro do sofrimento humano e, finalmente 3) um misto de ignorância e incapacidade que mistura as duas primeiras. Como os médicos lidam com a incerteza (ou pelo menos, como deveriam lidar)? Há pacientes que gostam de saber das dúvidas e encruzilhadas em sua trajetória terapêutica, instando o médico a compartilhá-las. Há outros que se sentem extremamente inseguros e acham o médico também inseguro, começam a ouvir opiniões de outros profissionais e, no melhor estilo “cada cabeça, uma sentença” a situação só piora.

Conheço médicos que fingem. Fingem estar super-seguros sobre algum assunto do qual não têm a menor segurança. Conheço excelentes médicos que por deixar transparecer uma ponta de dúvida, perderam pacientes para outros médicos. Conheço médicos que ao tentar explicar minuciosamente as possibilidades terapêuticas, confundem. Conheço alguns que deixam a decisão de tratar ou não, para o paciente!

Qual a melhor forma de lidar com a incerteza? Talvez não exista uma fórmula mágica. Sinceridade e honestidade, sempre caem bem. Discutir alguns pontos com o paciente pode reforçar a ligação profissional. Mas acho que a grande lição é que a medicina em seu núcleo duro, é um relacionamento. É uma humanidade. Mas não tenho tanta certeza sobre isso…

Discussão - 9 comentários

  1. João Carlos disse:

    Eu só tenho a acrescentar a sua incerteza… Do ponto de vista de paciente, eu percebo uma enorme variação nas expectativas do “cliente”. A grande maioria, eu arrisco dizer, espera que o médico transmita segurança (que sabemos impossível…)
    Poucos se dão conta de que ainda não existe um “computador de bordo” no corpo humano, onde o médico possa plugar seu computador diagnóstico e, colhendo informações armazenadas em sensores, identificar as áreas com problemas potenciais.
    Por tecnologicamente avançadas que estejam as ferramentas auxiliares de diagnóstico, há pelo menos duas enormes limitações ao trabalho do médico:
    1 – todo o trabalho dos médicos em geral começa pela primeira anamnese. O que, é claro, é tingido pela personalidade do paciente (conceitos subjetivos de “dor”, “desconforto”, etc.)
    2 – talvez a pior restrição: a pessoa precisa procurar o médico. E muitos “não vão ao médico para não saber que estão doentes”; só recorrem aos médicos quando ocorre uma crise insuportável. E esperam “milagres”…
    O ideal é que toda a medicina fosse de caráter preventivo, mas isso é uma utopia (mesmo porque acidentes acontecem…)
    Realmente, todo médico deveria ser secundado por um psicólogo que o auxiliasse sobre a maneira de lidar com cada paciente específico (mas, quem disse que os psicólogos também não vivem essa incerteza?… 🙂 )

  2. A incerteza ainda não chegou no Brasil.
    Nos EUA, o médico é um mediador, dá as opções para o paciente fazer a escolha. Aqui o médico escolhe e para escolher precisa ter certeza!
    Quanto a todo médico ser seguido por um psicológo para facultar cada paciente, isso por si só é um absurdo. Médicos tem treinamento de identificar pacientes perigosos e sabem muito bem encaminhar essas pessoas. Faz parte do relacionamento.

  3. Karl disse:

    Acho que a incerteza chegou sim, Felipe. Mas infelizmente de forma velada, como descrito no post. Entretanto, não concordo com a posição de simples mediador do médico. Um “healer” tem que ser bem mais que isso, João. Aliás, essa é uma queixa frequente dos pacientes norte-americanos.
    Também acho que um psicólogo só iria complicar ainda mais e que o médico tem treinamento para isso. Se não tiver, aí o problema é outro, não é mesmo?.
    Obrigado pelos comentários.

  4. Aleph disse:

    Caro Karl,
    antes de mais nada, é preciso que se discuta o caráter assimétrico da relação médico-paciente, o discurso não-verbal que está em jogo quando médico e paciente estão tête-a-tête. O médico é que dita as regras, ele é o superior hierárquico, ele que irá cuidar do paciente que, por sua vez, permitirá ser cuidado. Poucos aprendem isso. Por exemplo, ao examinar um doente, o médico não deve pedir “por favor”, mas gentilmente informá-lo que ele será examinado. Relação assimétrica não significa bruta, grosseira. O assunto não é simples, mas deveria ser mais abordado nas faculdades de medicina. O ensino demasiado técnico deixou de lado a necessidade de formação cultural mais humanista. Sabe-se o que é o DNA mas desconhece-se a tragédia de Hamlet…
    Abraço!

  5. Karl disse:

    Welcome back, Mr. Aleph.

  6. maria disse:

    entendi diferente do felipe a idéia do joão carlos sobre a parceria com um psicólogo. acho que ele não se referia à necessidade de reconhecer pacientes que precisem de tratamento psiquiátrico, mas de ter alguém com treinamento específico para ajudar o paciente a receber más notícias e conseguir lidar com elas.
    equipes de cirurgia bariátrica obrigatoriamente incluem psicólogos, aprendi quando escrevi uma matéria sobre isso. alguns centros de oncologia também.
    mas justamente numa palestra sobre câncer se pôs essa pergunta. muitas vezes o oncologista segue o (mau) rumo de não aceitar a morte iminente e acaba receitando medicações que só vão tornar sofrida uma vida que já não pode ser prolongada. mesmo quando o médico aceita, não é fácil fazer com que a família do paciente aceite. ajudaria ter um psicólogo? um médico presente disse que não. a relação construída entre médico e paciente – essa a que o karl se refere – requer confiança e intimidade, sem interferências. sem isso, não há tratamento.

  7. Chloe disse:

    Caro Karl,
    o pão de minuto estava bom? : )
    Essas postagens sobre a relação médico-paciente são bem interessantes.
    E nos fazem pensar a respeito do que esperamos do médico quando procuramos por um; bem como, sobre o que o médico espera de nós enquanto pacientes.
    Mas, mudando de ares, estive pensando por outro lado, a partir de suas postagens e dos comentários que por aqui aparecem, sobre o que o blogueiro espera de seus leitores e sobre o que ele acha que os leitores esperam de uma postagem e de seu autor.
    Independente dos motivos que levam alguém a escrever num blog, que é só o começo da história, quando a relação escritor/leitor (ou seria escritor/texto/leitor?) se estabelece, o que vai além da intersubjetividade textual?
    Será que vc já pensou nisso…?
    Fica a sugestão… quem sabe para um novo post.
    ( )’s. ; )

  8. Fabiana disse:

    De tudo feito, amo apenas o que se faz com o próprio sangue. 🙂

    bj

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