Diferenciacionismo


Formalhaut – foto do Telescópio Hubble – NASA

Podemos abordar criticamente a ciência sob seus aspectos cognitivos. A forma como as idéias são geradas, a maneira como a realidade é interpretada e os conteúdos decorrentes dessa análise pertencem a esse tipo de interpretação. Convencionou-se chamá-la de epistemológica. Podemos, por outro lado, abordar a ciência do ponto de vista de suas relações sociais. Desde a década de 1990, em especial após o caso Sokal, o domínio sociológico da crítica à ciência vem sendo polarizado por duas correntes de pensamento: a diferenciacionista e a anti-diferenciacionista.
Este post tem o objetivo de discutir (bastante superficialmente, aliás) a perspectiva diferenciacionista da sociologia da ciência e sua relação com os métodos de avaliação de cientistas, ora reunidos sob o termo cientometria. Para isso, seguiremos o raciocínio de Terry Shinn e Pascal Ragouet no excelente “Controvérsias sobre a Ciência”.
A perspectiva diferenciacionista se destaca pelo trabalho de Robert Merton. Esse autor, trouxe à luz o papel das instituições na produção científica. Tanto do ponto de vista de regras institucionais que devem ser obedecidas como também, quanto ao sistema de recompensa oferecido ao cientista. Toda essa visão, que recebeu enormes contribuições de outros sociólogos posteriormente, inclusive do próprio Merton, parte do princípio de que a ciência é um modo de conhecimento epistemologicamente diferente dos outros modos de apreensão da realidade. Nas palavras dos autores:
“Por consequência, a ciência não somente é institucionalmente distinta das outras regiões do espaço social, mas ela se demarca como superior aos outros modos de cognição. É por isso que se pode caracterizar essa perspectiva como diferenciacionista”.

A visão diferenciacionista valoriza as instituições científicas como formatadoras e fomentadoras da ciência, principal modo de interpretar a realidade. Compostas por cientistas, que por enquanto ainda fazem parte da espécie humana, tais instituições começaram a apresentar enormes e indesejadas tensões em suas estruturas devido a busca por reconhecimento entre seus membros. Não é de se surpreender que surgisse nesse âmbito, uma estratificação das ciências e uma metaciência chamada de cientometria. O objetivo aqui seria então, medir notoriedade e produtividade. A cientometria na forma como a conhecemos hoje (Fator impacto, Citation idex, índice H, ISI, Thomson, etc) portanto, é um produto do diferenciacionismo. Lembrar que no diferenciacionismo a ciência se considera uma forma superior de cognição, diferente das formas de entendimento do senso comum.
Não bastasse o fato de estarmos confundindo ciência com publicação científica, começamos a utilizar dados (que foram produzidos para outros fins) para balizar políticas de fomento. Cada vez mais a ciência deve servir a objetivos econômicos de curto prazo. A ciência não é redutível a um punhado de publicações científicas. Tal comportamento tem gerado distorções por favorecer o que convencionou-se chamar efeito Mateus. Muito para poucos e pouco para muitos. O que parece fazer um certo sentido.
Mas seria o anti-diferenciacionismo uma solução?

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Discussão - 7 comentários

  1. Aleph disse:

    Caro Karl, assunto interessante. Vocês, cientistas, “ainda humanos”, não são capazes de quantificar o subjetivo em ciência. Nem nunca o serão. O Damásio já demonstrou elegantemente isso em seu “O erro de Descartes”. Mas os Departamentos Universitários precisam se basear em algum parâmetro dito meritocrático para exercer a sua política. Para mim, discutir diferenciacionismo e anti-diferenciacionismo é elucubração retórica.
    Abraço!
    P.S.:1. O “link” para o efeito Mateus doesn’t work.
    2. “Cadeira 41” e “efeito Mateus” são a mesma coisa?

  2. Karl disse:

    Link corrigido. Deverá sanar algumas dúvidas, mas obviamente não todas. Aliás, a “elocubração retórica” tem o objetivo único de criar dúvidas e tirá-lo, como fez, de seu confortável leito intelecto-dogmático, caríssimo Aleph.
    PS. Achei o máximo “vocês, cientistas!”

  3. Aleph disse:

    Caro Karl, não disse “elocubração”, mas sim “elucubração”. Meu leito é confortável, mas não dogmático como o de vocês, cientistas.
    Abraço!

  4. Karl disse:

    Ops!! Obrigado pela correção.
    Mas, caríssimo Aleph, continues de pé e deixes de preguiça. Deitado, não poderás mais ajudar-me …

  5. Aleph disse:

    Caro Karl, disse o Eclesiastes, que vocês, cientistas, preferem não conhecer, “que o muito estudar é enfado da carne”. E Pessoa escreveu “Ai que prazer
    não cumprir um dever.
    Ter um livro para ler
    e não o fazer!
    Ler é maçada,
    estudar é nada.
    O sol doira sem literatura.(…)
    E mais do que isto
    É Jesus Cristo,
    Que não sabia nada de finanças,
    Nem consta que tivesse biblioteca…”
    Bom domingo!

  6. Karl disse:

    Voltaste ao leito!!
    Bem, afinal, hoje é domingo!
    Bom descanso…

  7. Chloe disse:

    Diferenciacionismo!!!
    Thx. ; )

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