Evolução e a Reação de Estresse

Imagine um hominídeo – nos primórdios da espécie. Há indícios de protossímios no quaternário do período cenozóico. Isso quer dizer mais ou menos 50 milhões de anos atrás, “logo após” a extinção dos dinossauros, que ocorrera dezenas de milhões de anos antes. A Terra seria então, povoada por grandes mamíferos e alguns macacos estranhos.

Imagine esse macaco caminhando numa floresta repleta de ameaças como tigres-dente-de-sabre, cobras gigantes, manadas de mamutes e outros bichos medonhos. Eis que, ao procurar frutas silvestres ou insetos para comer, se desgarra do grupo e se vê há alguns metros de distância em uma mata fechada, dando de cara com um esfomeado e enorme tigre-dente-de-sabre que o espreitava, lambendo os beiços. O quadro abaixo mostra um esquema das reações hormonais que se seguem, convencionalmente chamadas de reações de luta ou fuga, comuns a todos os mamíferos

Como funciona o medo

por Julia Layton – traduzido por HowStuffWorks Brasil

O aumento dos hormônios de estresse, adrenalina, noradrenalina e cortisol causa mudanças no organismo:

  1. aumento da pressão arterial e freqüência cardíaca, preparando o organismo para um exercício intenso;
  2. as pupilas dilatam para receber a maior quantidade possível de luz; O importante não é o foco. Aqui, muito mais importante são as variações mínimas de luz e sombra que podem definir um ataque, uma saída, algo que pode colocar o indivíduo em vantagem;
  3. as artérias da pele e tecido subcutâneo se contraem (vasoconstrição) desviando o fluxo sanguíneo aos grupamentos musculares mais importantes (reação responsável pelo “calafrio” muitas vezes associado com o medo – há menos sangue na pele para mantê-lo aquecido); O indivíduo fica pálido;
  4. o teor do suor se modifica; Esse suor associado à vasoconstrição periférica resulta na sudorese fria bastante conhecida nessas situações. Em situações de estresse, emitimos cheiros diferentes. Isso é usado como esquiva em muitos animais;
  5. Há uma tonificação dos músculos, a piloereção ocorre quando pequenos músculos conectados a cada pêlo da superfície da pele tensionam, os fios são forçados para cima, puxando a pele com eles; Essa é uma resposta muito importante. Os animais com a pele recoberta de pelos ficam “arrepiados” dando a impressão que são maiores e mais ameaçadores. Animais como o porco-espinho, permitem que seus grossos e afiados pêlos se desprendam, causando lesões em seus agressores;
  6. O cérebro trabalha em ritmo acelerado. Não há prioridade em se concentrar em tarefas pequenas (deve-se concentrar apenas em sobreviver).

Esse tipo de resposta estereotipada foi conservado pela evolução. Daí concluirmos que ele deve conferir algum tipo de vantagem pois os organismos que a possuiam tinham mais chances de sobreviver e passá-la a seus descendentes. Temos portanto, o mesmo tipo de resposta até hoje. Basta levarmos um grande susto, ou recebermos uma notícia muito ruim, ou mesmo termos a nítida sensação de que vamos ser assaltados. Essa sensação é uma reação de estresse.

Então, o “macaco” veio morar na cidade. Nosso modo de vida urbano, transformou nosso cotidiano em um constante estado de estresse. Ficamos ansiosos com trânsito, violência, dinheiro, trabalho, etc. Nossas fontes de estresse pré-histórico, em especial a fome, não são o problema principal (pelo menos nos países industrializados!). Esse estresse constante tem como consequência uma “pré-ativação” desse sistema de luta ou fuga. Ás vezes, essa reação é desencadeada desproporcionalmente em resposta a estímulos pequenos. Pior, em determinadas situações, não conseguimos identificar o estímulo que está a causá-la! Agora, imagine, todas essas reações descritas (dilatação pupilar, sudorese fria, taquicardia e palpitações, respiração curta e rápida, e etc) sem uma causa identificável. O quadro é desesperador!

Associe-se a isso a hipocalcemia. Sim, o cálcio é um cátion que no sangue está dividido em duas grandes porções: a livre, que age na contração muscular principalmente, e a ligada à proteínas. Quando um indivíduo tem uma crise como a descrita, sua tendência é fazer uma hiperventilação. Essa hiperventilação reduz drasticamente o teor de gás carbônico no sangue causando um aumento do pH sanguíneo o que leva a uma maior afinidade das proteínas pelo cálcio. Ele é “sequestrado” da porção livre no plasma o que leva a uma hipocalcemia aguda. A hipocalcemia causa contrações involuntárias dos músculos, principalmente faciais e dos membros superiores. Invariavelmente, o indivíduo pensa que está tendo um derrame! Sua boca se fecha, sua língua enrola, suas mãos não se movimentam direito, além do que apresentam intenso “formigamento”. (Daí a prática, não recomendada, de respirar num saco. O gás carbônico aumenta e o efeito desaparece).

Esse tipo de reação intensa e extenuante leva o indivíduo à um pronto-socorro. Lá chegando, recebe o diagnóstico de ansiedade aguda, crise de pânico, piripaque, piti, distúrbio neuro-vegetativo (jargão médico que não quer dizer absolutamente nada!) e um calmante (normalmente, benzodiazepínico). O quadro melhora progressivamente e o paciente é liberado. Nunca será curado assim! Casos com essa gravidade merecem acompanhamento minucioso. Medicação ajuda muito na fase aguda, terapia funciona a longo prazo. Tudo devido a uma resposta orgânica mal-utilizada, mal-adaptada. Temos reação de estresse quando praticamos esportes e damos aquela “raça” para ganhar um jogo; ou quando vemos de fato o perigo a nos ameaçar. Poderíamos dizer que são “instintos básicos” de sobrevivência como fome, sede, cuidar dos filhos. Mas quando presentes em situações inadequadas, eles são perigosos e devemos entender como funcionam para evitar seus efeitos ruins. Esse entendimento não ocorre se não tivermos conceitos de teoria da evolução presentes. Evolução e Medicina. Separá-los é perder a possibilidade de compreendê-los.

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Discussão - 14 comentários

  1. Rogerio disse:

    Exposição muito bem feita da teoria que as doenças são a expressão de uma má adaptação fisiológica do organismo frente a certas condições ou situações.
    Existem diversos determinantes para essa má adaptação, com certeza fatores genéticose ambienteais estariam envolvidos. A medicina então numa visão mais rudimentar estaria jogando contra a evolução mantendo indivíduos menos aptos, ou seja, parodiando o filme Gattaca, estamos criando um batalhao de inválidos…
    Mas, existem correntes na medicina que acham justamente o contrário, citando por exemplo o professor Singer, nas doenças críticas se o médico atrapalhar pouco as adaptações fisiológicas do indívidou podem por si só serem suficientes para combater a doença…
    As idéias estão lançadas, aguardo os próximos capítulos.
    Abraços,
    Rogério

  2. Karl disse:

    A divulgação científica é um exercício, e tenho aprendido muito aqui no Lablog.
    Pensei sim, na proposta de Mervyn Singer em “fazer menos”. Entretanto, dar cores evolucionistas para ela ainda me parece um salto grande. Deixar as coisas acontecerem de acordo com a “natureza” não é uma conduta sempre bem sucedida. Ver o próximo post.

  3. Sandra disse:

    Olá! Queria propor uma reflexão sobre seu texto a respeito da “luta e fuga”. Digamos que a cidade não seja a selva onde nos deparamos com tigres de dente de sabre, mas sem dúvida há uma miríade de outros tipos de situação que exigem respostas rápidas e extremamente precisas. A questão, talvez, não seja a resposta fisiológica às solicitações que apresente em um “over-drive” mas sim o estilo de vida que se apresenta “over”. A resposta seria adequada ao estímulo, o problema estaria no estímulo. Não fomos feitos para viver em cidades onde vivem milhões de pessoas. Tribal não significa metropolitano. Creio que se não houvesse este tipo de resposta (adrenérgica) adaptativa o ser humano não sobreviveria em uma cidade de grande ou média dimensão. Só para por um pouquinho de capsaicina no seu caldo, hehehe… Abraços e bom 2009! 🙂

  4. Karl disse:

    Concordo com sua observação, Dra. Sandra. Se bem a entendi, seu ponto é que talvez essas respostas não sejam mal-adaptadas em si, mas sim super-utilizadas em função de nosso modo de vida, correto?
    Se fizermos um comparativo com a dor, entretanto, lembraremos que existem mecanismos de atenuação da resposta quando há estímulos intensos e prolongados. A ausência desses mecanismos por si, é uma doença (causalgia). Esses mecanismos foram selecionados por nossa evolução por aumentar a chance de sobrevida do bicho-homem. Repasso a pimentinha para seu lado e pergunto;
    Por que é que não há mecanismos de atenuação na resposta ao stress, pelo menos não facilmente identificáveis?
    Grande abraço e um excelente 2009 a todos!

  5. Sandra disse:

    Sim, é isto, Karl (posso? Me chame de Sandra, por favor).
    Mas existe sim um mecanismo adaptativo ao estresse. Inclusive na disponibilidade de receptores nas sinapses e de neuromodulação hormonal. Se não fosse assim não sobreviveríamos nem ao parto.
    Inclusive a própria percepção do estresse é modificada ao longo do tempo, se o estímulo for persistente por um período de tempo. Chegamos inclusive a ficarmos viciados nele, ao ponto de em caso de diminuição do patamar de estímulo, sentirmos necessidade de retomarmos um modelo ao qual nos tornamos adaptados. Aprendemos o estresse.
    Mas como toda resposta adaptativa fisiológica, ela funciona até o esgotamento do mecanismo.
    Como a resposta ao estresse é uma resposta de sobrevivência, uma tentativa de homeostase, abolir esta resposta em face a um estímulo pode causar dano ao indivíduo, como no caso da dor, onde abolí-la totalmente nos priva de um importante mecanismo de defesa e de relação com o ambiente.
    Talvez por este motivo os mecanismos de “atenuação” não sejam tão facilmente percebidos.
    Além disso, as solicitações são contínuas, ininterruptas, multimodais e multifatoriais.
    Estresse faz parte do fato de estarmos vivos. Desde a hora em que nascemos até o nosso último segundo de vida. E desde que as respostas sejam adequadas e o estado de equilíbrio possa ser reestabelecido, não há doença. O esgotamento destas vias é que nos leva aos quadros patológicos.
    Portanto, uma vez que não podemos abolir a resposta ao estresse, nos toca fazer a higiene de todo o contexto “de contorno” onde o indivíduo está inserido. Se o estresse se torna excessivo, é necessário interferir no ambiente eliminando os estímulos desnecessários e modificando o estilo de vida do sujeito.
    (Ah, eu gosto de pimenta. Li na Anesthesiology que pode ser usada como modulador para ação seletiva de anestésicos locais nas fibras C, bloqueando a dor seletivamente. Legal, não é?)
    Abração!

  6. Karl disse:

    Trabalhei com capsaicina em terminações nervosas pulmonares. Ela queima as terminações e permite estudar os efeitos do SNAutonomico no pulmão. É interessante.
    “Estresse faz parte do fato de estarmos vivos. Desde a hora em que nascemos até o nosso último segundo de vida. E desde que as respostas sejam adequadas e o estado de equilíbrio possa ser reestabelecido, não há doença.
    Acho que é isso aí. Algumas respostas não são adequadas e aí, temos doença.

  7. Rogerio disse:

    Muito legal o exemplo da Dra. Sandra… me lembro dos experimenos com ratos Wistar, alguns na caixa de Skinner, os ratinhos estressados, de tanto levar choque depois de um tempo voltavam ao “normal” e comiam naturalmente, mesmo levando choque… Alguns morriam prematuramente, seria a selação natural???
    Nunca conseguimos descrever a hodologia desses bichinhos…
    Rogério

  8. Rafael [RNAm] disse:

    Só um pitaco de biólogo:
    Acho que não podemos dizer que somos mais estessados que nossos ancestrais. A pressão em espécies na natureza é gigantesca e sem trégua também.
    Elas mesmas nunca foram adaptados ao seu meio. O interessante da evolução é que sempre todos estão adaptados ao passado. E torcendo para isso valer para o futuro.

  9. Sandra disse:

    Puxa, que legal seu trabalho! Pulmão era uma das minhas grandes preocupações nas UTIs da vida. É um orgão/sistema fantástico! Acho que eu sou uma maravilhada com as coisas, além de curiosa e enxerida, hehehe.
    Será que tem como saber mais sobre ele?

  10. Karl disse:

    Certíssimo, Rafael. Talvez não tenha me expressado corretamente. Só que o estresse parece ser diferente, e as mudanças têm acontecido rápido demais. Conclusão óbvia: estamos mal-adaptados como, vc bem lembrou aliás, sempre estivemos. A diferença é que agora procuramos um médico no consultório pois não conseguimos conviver com a consciência dessa angústia. Obrigado pelos comentários. Eles serão sempre bem-vindos no Ecce Medicus.

  11. Chloe disse:

    O que penso sempre que leio algo sobre stress é em provas como a Race Across America ou a Ultramaratona do Deserto, onde os participantes passam um tempo longo nesse estado.
    Principalmente na Race Across America; tem participantes que começam a ter alucinações! Diz-se que é pela falta de sono, mas não poderia ser também por esses efeitos do stress?
    Adorei a postagem e os comentários.
    ; )

  12. Karl disse:

    Acho que sim, mais pelos efeitos metabólicos do desgaste. Obrigado.

  13. […] suficiente para realizar tudo aquilo a que se propôs, tal pessoa assume uma configuração de alerta. Se esse alerta se perpetua ao longo de todas as suas atividades, independentemente da importância […]

  14. […] no McDonalds pode não estar mais lá amanhã. O estresse é seu cérebro dizendo a você que seu chefe é um leão. Mas esse mesmo equipamento da Idade da Pedra é o que nos levou à Teoria da Relatividade, às […]

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