A Dádiva da Doença

A Sindrome da Imunodeficiência Adquirida (SIDA ou AIDS) é causada por um retrovírus, o HIV, que provoca uma redução drástica na população de linfócitos CD4 (células brancas importantíssimas na imunidade do organismo) causando o espectro bastante conhecido da doença. A epidemia que acomete a humanidade desde suas primeiras descrições na década de 80, provocou uma explosão de artigos sobre o assunto, o que culminou com o prêmio Nobel de Medicina de 2008. O sequenciamento do vírus, uma simples fita de RNA, e o sequenciamento de nosso genoma trouxeram à luz uma enorme surpresa quando descobriu-se que a correspondente sequência em DNA do genoma viral estava muito bem integrada ao genoma humano, os chamados retrovírus endógenos ou ERVs. As melhores cabeças do mundo começaram a procurar explicações.

Desde a descoberta do DNA, havia uma enorme dificuldade em se explicar a grande variedade de características e complexidade dos seres vivos. Biólogos insistiam que a complexidade resultava de pequenos erros (mutações) que ocorriam quando o genoma era copiado e passado para gerações futuras. Mas essas pequenas variações não davam conta das alterações observadas nem da velocidade com que elas ocorreram. Perguntas incômodas como: Como nosso genoma aumentou tanto em tão pouco tempo? Por que temos tanto “lixo” genético nele? Por que tantos genes não-funcionantes? Surgiu então, uma hipótese de que os vírus pudessem ter um papel na evolução dos seres vivos.

Hoje, essa linha de pesquisa já está consolidada. Há evidências para supormos que os vírus de RNA estariam presentes mesmo antes do aparecimento dos LUCA (termo proveniente da sigla em inglês para Last Universal Cellular Ancestor) – expressão que indica a primeira célula precursora dos três domínios celulares atuais, a saber Archea, Eucariotas e Bactérias.


Phylogenetic tree showing the relationship between the archaea and other forms of life. Eukaryotes are colored red, archaea green and bacteria blue. Adapted from Ciccarelli et al. at Wikipedia.

Mais ainda, há indícios de que os vírus de RNA podem de fato, ter proporcionado a diferenciação celular nos três tipos básicos de células. Uma teoria sugere que o DNA apareceu primeiro em estruturas virais por ser mais estável e por replicar-se de forma mais confiável. A partir disso, foi injetado por intermédio dos vírus em células primitivas – da mesma forma como ainda hoje ocorre – que se adaptaram a essa “doença” de várias formas, restando três, que seriam as formas primordiais dos três reinos atuais. Essa é a chamada “three viruses three domains hypothesis” (Ver Forterre).

Mais interessante ainda seria a origem do núcleo dos eucariotas. Talvez esse seja um dos grandes mistérios da evolução dos seres primordiais. O aparecimento do núcleo tem sido explicado pelo endocitose de um archaeon ancestral por uma “paleo”-bactéria, processo denominado endo-simbiose e utilizado para explicar o aparecimento de outras organelas celulares. Entretanto, essa hipótese não explica diferenças proteicas existentes entre os reinos. De fato, o núcleo produzido dessa forma não dá conta do aparecimento de poros em sua membrana, além do que esta última deveria ser dupla (uma de cada indivíduo de origem). Em 2001, foi sugerido que o núcleo se originaria de um vírus de DNA com dupla fita que infectou organismos procariotas. Essa hipótese resolve o problema dos poros e da duplicidade da membrana nuclear. Realmente, existem vírus com a capacidade de produzir estruturas assim: os poxvírus.

Só para lembrar, pertence à família dos poxvírus o vírus causador da varíola (além do reponsável pelo molusco contagioso), praga que assolou a humanidade desde a antiguidade e que foi a primeira doença considerada extinta pela OMS por intermédio da vacinação em massa. Não existe almoço grátis. Quando adquirimos uma complexidade, adquirimos junto, uma doença. Os vírus são o exemplo clássico disso. São subprodutos do projeto de vida vigente nesse planeta. São “códigos de máquina” e por isso mesmo podem incrementar ou acabar com ela de vez.

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Discussão - 2 comentários

  1. Aleph disse:

    Caro Karl, livro bastante ilustrativo do que você escreveu é o recém-lançado “A História da humanidade contada pelos vírus”, de Stefan Cunha.
    Abraço e boa leitura!

  2. Rogerio disse:

    Muito legal… é uma visão bastante plausível, afinal o “sonho” de qualquer vírus que infecte outro organismo é uma integração. Em alguns casos, como na infecção pelo LIV (atual HIV, nomeclatura antiga em homenagem a um dos vencedores do Nobel de 2008) a infecção é devastadora. Por enquanto, daqui algumas centenas de anos, talvez, não… Lembra da gripe espanhola?? Hoje o Influenza não é tão assustador.
    Onde quero chegar?? Mesmo se considerarmos as infecções bacterianas, catastróficas para seres humanos em grande parte dos casos, que parece existir desde o príncipio dos tempos, já a terapêutica para tratá-las não, tem pouco mais que 5 décadas… Será que as infecções por microorganismos não tem seu papel na medicina evolucionista??? Será que a visão Singeriana é tão absurda assim do ponto de vista evolucionista???
    Parodiando o prof. Arruda Martins, algumas vezes menos é mais…
    Rogério

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