Deus e o Diabo

Ao Kentaro

Há várias formas de encurralar um teísta em uma discussão religiosa. Uma das mais batidas é falar sobre a presença do Mal no mundo. Qualquer teísta que se preze deve dar um sorriso amarelo nesse momento e, cheio de gestos e expressões, desfilar um conteúdo complexo de explicações, algumas bem mirabolantes. O problema surge quando o teísta admite quatro afirmações, a saber: 1) Deus é onipotente (todo-poderoso); 2) Deus é onisciente (sabe de tudo); 3) Deus é infinitamente benevolente (só deseja o Bem); 4) O Mal existe. Posto isso, o pobre teísta terá de rebolar um pouco para fugir da incoerência dessas afirmações, pois elas não podem ser verdadeiras ao mesmo tempo. Ora bem, se o Mal existe ou a) Deus não pode evitá-lo; b) Deus não sabe como evitá-lo; e/ou c) Deus não deseja evitá-lo; contradizendo as afirmações 1, 2 e 3, respectivamente. O assunto é coisa para Santo Agostinho e outros teólogos de grande erudição, daí as dificuldades de nosso interlocutor.
Mas, no melhor estilo Deus e o Diabo na Terra do Sol, lendo Hannah Arendt (A Condição Humana) encontrei o correspondente dessa “saia justa teísta” para os ateus. Se lá o problema era o Mal, aqui a questão é a Bondade no mundo. Senão, vejamos. Arendt, na página 85, começa por afirmar que “a bondade só pode existir quando não é percebida, nem mesmo por aquele que a faz; quem quer que se veja a si mesmo no ato de fazer uma boa obra deixa de ser bom; será, no máximo, um membro útil da sociedade ou zeloso membro da Igreja”. Repare aqui que bondade é bem diferente de caridade. Continua, concluindo que nenhum homem pode portanto, ser bom. Daí, compara a bondade com a sabedoria: “Isso nos lembra a grande visão de Sócrates de que nenhum homem pode ser sábio, de onde resulta o amor à sabedoria, ou filo-sofia; toda a vida de Jesus parece atestar que o amor à bondade resulta da compreensão de que nenhum homem pode ser bom. O amor à sabedoria e o amor à bondade, que se resolvem nas atividades de filosofar e de praticar boas ações, têm em comum o fato de que cessam imediatamente – cancelam-se, por assim dizer – sempre que se presume que o homem pode ser sábio ou ser bom”.
Acho que até este momento, não temos dificuldades em aceitar esses argumentos, não é mesmo? Continuemos, então.
As semelhanças, entretanto, param por aqui. As diferenças entre o amor à sabedoria e o amor à bondade, entre o filósofo e o homem bom, podem ser entendidas por meio da compreensão dos conceitos de isolamento e solidão. Um filósofo é solitário. Entretanto, para Platão (Górgias), estar em solidão significa estar consigo mesmo; e, portanto, o ato de pensar, embora possa ser a mais solitária das atividades, nunca é feito inteiramente sozinho. Já o amante da bondade não se permite viver uma vida solitária – quem faz o bem o faz a alguém – e no entanto, a vida que passa na companhia dos outros e por amor aos outros deve permanecer essenciamente sem testemunhas – para poder ser bom de verdade, deve lhe faltar inclusive a companhia de si próprio. Ele é isolado. “O filósofo sempre pode contar com a companhia dos pensamentos, ao passo que as (boas) obras não podem ser companhia para ninguém: devem ser esquecidas a partir do instante em que são praticadas, porque até mesmo a memória delas destrói sua qualidade de ‘bondade'”. Ou seja, a Bondade transmutaria-se em Orgulho.
O portador desse tipo sublime de bondade tem como produto de suas ações obras que devem ser intangíveis a ele. Ele não pode falar delas (seria Arrogância) e nem mesmo lembrar delas (seria Soberba). É um ser com um grau de isolamento tal que é incompatível com a condição humana da pluralidade. Esse estado não pode ser suportado durante muito tempo; e a conclusão de Arendt é que tal estado “requer a companhia de Deus, a única testemunha admissível das boas obras, para que não venha a aniquilar inteiramente a existência humana.”
Isso é de uma crueza incomum em Hannah, mulher-filósofa, de raciocínio claro, delicado (como quando vai criticar Marx) e brilhante. Confesso que fiquei dias pensando sobre isso e resolvi compartilhar no blog.
Seria esse estado de bondade suprema incompatível com a inexistência de uma divindade?

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Discussão - 25 comentários

  1. Karl disse:

    Voltei de férias. Não sei se tão otimista como esperava (pelo menos temos um cessar-fogo pixulé!).
    Esse post, fruto do meu período (merecido) de ócio é dedicado ao Kentaro, com quem tenho tido algumas e excelentes discussões.

  2. Karl, usamos o clássico do Glauber Rocha como inspiração pra título de post quase que ao mesmo tempo rsrs.
    E fica a dica de leitura, é um tema que me interessa imenso.
    Abraços.

  3. Karl disse:

    Putz! Valeu, Thiago.

  4. Deus é bom, mas quem disse que estamos totalmente ligados a
    Deus? Além do que estamos de baixo do livre arbítrio e a natureza egoísta do ser humano fala muito alto.
    Em uma das passagens dos evangelho, Jesus diz, em grosso modo, algo como “o que faz sua direita não fique sabendo a sua esquerda”, a moral é que se alguém é reconhecido pelas outras pessoas pelas suas boas obras ela já recebeu a recompensa pelas boas obras e assim o que Deus tem a recompensar?
    Eu, como um bom teísta, concordo com essa visão filosófica.
    O “fazer o bem” que realmente importa para os teístas é o fazer para Deus, então não deve ser usado para promoção social própria, pois assim como disse, dessa forma deixa de ser bem…
    “Seria esse estado de bondade suprema incompatível com a inexistência de uma divindade?”
    Não acredito que seja incompatível, como disse nas quatro citações sobre Deus, e tendo elas como verdade, se uma pessoa pratica o bem, ela o faz por capacitação de Deus.
    É como uma criança que compra presente para o pai, que no final das contas foi o próprio pai quem forneceu o dinheiro para o presente, e mesmo tendo consciência disso ainda se alegra pela atitude do filho.

  5. Aleph disse:

    Caro Karl,
    voltando de férias em boa forma. Arendt é sempre uma boa companhia. O “sentido da vida” não precisa ser aniquilido. Ele já nasceu morto. Por sua formação filosófica, Hannah tomou um caminho mais polido que aquele de Hemingway, que disse: “Nenhum homem inteligente é feliz”. Inteligência, para Hemingway, pressupõe a convicção da inexistência de Deus.
    Abraço e bom retorno!

  6. Sandra disse:

    Não concordo com o discurso que a bondade para ser boa não deve ser conhecida por quem a pratica. A bondade é boa por que é, e basta. Inclusive, torna-se impossível de exemplificar em termos práticos a “bondade” descrita da forma que é colocada por Arendt.
    Para mim, a sua não consciência justamente anula o seu valor. É como o mal que se pratica sem querer, sem consciência, sem dolo (inclusive não imputável justamente por esta falta de responsabilidade sobre ele).
    Um ato inconsciente é privo de significado (embora não de consequência) pois não foi nem desejado, nem entendido como mal.
    Além do mais pessoas podem ser boas e ruins, inclusive em contemporânea, pois uma coisa não exclui a outra, são relativas.
    Bentornato, Karl!

  7. Espero que as férias tenham sido boas, Karl.
    Mais na frente – não se preocupe, não estou estragando a leitura do livro – a Hannah Arendt vai argumentar, bem próximo de Weber, que nem o assassino nem o altruísta podem funcionar dentro da política. Porque suas ações pressupõem estar a favor ou contra a humanidade e isso os isola, necessariamente. O que a Hannah Arendt quer defender em relação ao crente é que a religião, se levada a sério, exige o “abandono do mundo”.
    A noção de política da Hannah Arendt está diretamente ligada à visibilidade das ações e do discurso. Em outras palavras da intersubjetividade. O “outro” religioso é a divindade e não o semelhante, ele é apenas um caminho. Para a religião o próximo é um meio entre ele e Deus e, por isso, não podemos nos gabar da nossa bondade sem cometer um pecado. A bondade absoluta é uma assunto privado.
    A política, por outro lado, se dá pelo “amor ao mundo”. Aqui ela dá ao mundo o caráter de mediação entre os homens e, assim, fundamenta a intersubjetividade neste mundo compartilhado, público. O mundo é o meio. A convivência – o viver junto no mundo – é o “fim” da política.

  8. Karl disse:

    Pois é Daniel, perfeito seu comentário, entretanto a pergunta permanece: se a bondade absoluta é um assunto privado, seria ela possível apenas com a existência de Deus?
    Devemos negar esse raciocínio como efeito colateral da argumentação de Arendt (como a Dra. Sandra) ou pensar em substituir a religiosidade pela política, como sugerido na sua nota e com o que concordaria meu caro Aleph?
    Não precisamos nem ir muito à frente, no mesmo capítulo, Arendt comenta que esse tipo de conceito de bondade foi percebido como bastante deletério à sociedade principalmente por Maquiavel. Um filósofo é sempre menos letal…
    Obrigado pelos comentários de todos.

  9. Luiz Bento disse:

    Acho que o problema para ateus não é a bondade em si, mas o altruismo entre não parentes. Segundo a sociobiologia a bondade entre parentes próximos esta ligada a semelhança genética entre eles. Quando mais próximo, mas semelhante. Então em termos evolutivos seria interessante salvar um parente próximo da morte. Isso em outros animais é mais do que comprovado, principalmente com os animais sociais como abelhas e formigas. Mas quando falamos sobre seres humanos o assunto sempre ganha uma dimensão maior do que deveria, como se fóssemos superiores.
    Quanto ao altruísmo sem relação de parentesco, a resposta não é tão simples. Sociobiólogos defendem o fator cultural em que, mesmo inconscientemente, fazer bem ao próximo é um fator socialmente interessante.
    É uma explicação polêmica, mas que eu acho bem plausível.
    Abraços.

  10. Rogerio disse:

    Legal essa discussão, permita-me dois comentários:
    1.sobre a bondade extrema, existe um livro do Italo Calvino o Visconde Partido ao Meio… talvez, a bondade absoluta não seja tão inocua quanto pode parecer
    2. em uma concepção Panteísta, como a defendida por Spinoza, em O Tratado de Reforma do Intelecto ou na Ética (demosntrada à maneira dos geometras) essa discussão não existiria…
    Abraços
    Rogério

  11. Karl disse:

    É, Luiz. Altruísmo é diferente desse conceito absolutamente radical de Bondade.
    Rogério, me empresta esse livro.

  12. Aleph disse:

    Rogério, bondade absoluta é tão ruim como memória absoluta. Funes, el memorioso, de J.L. Borges conseguiu demonstrar isso em muito menos páginas que Calvino. Um bom escritor é sempre preferível a um excelente filósofo ou cientista.

  13. Rogerio disse:

    Aleph, como sua alcunha prediz o senhor é fã de de Borges, logo a visão deturpada pela emoção, leva-nos a considerar Borges muito melhor que Calvino.
    Não vale a pena entrar nessa discussão, é como comparar mangas com morangos, depende do gosto. Assim como dizer que um bom escritor é SEMPRE prefirível a um excelente filósofo ou cientista, é como dizer que eu prefiro sempre ir ao cinema ao invés de ir ao teatro ou a um show para me divertir, depende da ocasião… obvio.
    Recomendo fortemente que você leia (ou releia) O Tratado da Refoema da Intelecto, existe muitas formas de ver o mundo… Será que a sua é mais correta que a minha??
    Abraços
    Rogério

  14. Aleph disse:

    Rogério, sou tão fã de Calvino quanto de Borges. O que disse foi apenas que, o que se pode dizer em menos palavras SEMPRE é melhor.Como escreveu Somerset Maugham em suas “Confissões” sobre o ofício da escrita, “parecia-me que eu devia visar antes de tudo a clareza, a simplicidade e a eufonia. Escrevi essas três qualidades na ordem de importância que lhes assinalava”. Mas acho que o nosso papo está mais para St. Exupèry: “Palavras são fontes de desentendimento”.
    A minha visão, para mim, é apenas aquela que eu posso ter (frase que resume as mais de 600 páginas de “O mundo como vontade e como representação”). Que Schopenhauer nos abençoe!

  15. Tenho medo da gente começar a girar num redemoinho semântico, mas acho que a bondade absoluta – talvez exatamente por ser absoluta, ou seja, “formal”, imutável e axiomática – só é possível com a existência de Deus. Em parte porque esta idéia de bondade tenha sido introduzida no mundo através pelo próprio Deus.
    Por outras palavras Hannah Arendt está reafirmando que, para todo crente, o Bem emana de Deus e apenas nele encontra seu sentido.
    Neste sentido é uma espécie de digressão do argumento principal. Para ela interessa saber se tal idéia possui validade na política.

  16. Rogerio disse:

    Aleph, concordo, tudo que pode ser expresso de forma consisa e clara é melhor… Porém, nem sempre é possível explicar em poucas palavras alguns sistemas complexos, imagine, então, explicar idéias complexas como Deus, Infinito, Bondade, Maldade e toda Imanência do real.
    As mesmas palavras que são fonte de desentendimento, são fontes de concordância e manipulação.
    Mesmo mais de dois mil anos depois posso discutir idéias escritas ou pronunciadas. Não posso discutir radicalismos e visões imutáveis…
    que nosso filósofos não ouçam, ou leiam, mas resumir dessa forma Schopenhauer, anularia pelo menos duas teses da Faculdade de Filosofia (FFLCH-USP) que assisti o ano passado…
    Talvez, mudar a visão de mundo a cada momento como proposto por Spinoza (TIE) ou por de Decartes (Regras para Orientação do Espírito e Discurso do Método) levasse-nos a um melhor entendimento d e tudo que nos cerca…
    OBS. Concordo que Arendt quer lançar a discussão: será que na política podemos aplicar os mesmos conceitos de bondade emanando de Deus?
    Abraços
    Rogério

  17. Karl disse:

    Foi assim que entendi, Daniel. Isso me chocou um pouco… Daí a “saia justa ateísta”, raison d’etre do post. Obrigado.

  18. Aleph disse:

    Caro Rogério, radicalismos à parte, anular duas teses sobre Schopenhauer é pouco. Ainda que da FêFêLéxi. Teses enclausuram visões e limitam discussões. É mais uma exigência que faz parte da mentalidade atrasada e “classe média” de nossa Universidade.
    Abraço!

  19. Rogerio disse:

    Caro Aleph, perfeita sua visão de mundo… Realmente, creio que você seria ótimo ditador… Daqueles para os quais existem duas opniões, a sua e a errada… logo Farei como Santo Antônio, irei pregr aos peixes é mais produtivo…
    Abraços.

  20. Aleph disse:

    Caro Rogério,que atire a primeira pedra todo aquele que não for um pequeno ditador. “Ótimos” ditadores não existem. A diferença é que a minha megalomania tem limites. Não parece, mas tem.
    Saudações, Aleph, o primeiro (do alfabeto).

  21. Oi Karl, vou fazer um post sobre sua pergunta e te mando o link. Obrigado pela visita e pela “linkagem”. Abração.

  22. Fred disse:

    Se a bondade absoluta for realmente um assunto privado, todo aquele que conhecer e aceitar essa máxima, jamais poderá ser uma pessoal essencialmente boa.
    Mais cedo ou mais tarde se dará conta do que fez, invalidando o ato de bondade.

  23. Fred disse:

    Karl,
    E se seu gesto de bondade for reconhecido contra sua vontade?
    A pessoa é despedida do seu cargo de “bondoso” se o reconhecerem como tal?
    Abraço

  24. Pedro Cabral disse:

    Gente, em pleno seculo XXI vocês ainda acreditam na estória ridícula de um céu biblico com deus e sua corte celeste? Que deus saiu do trono e deixou lúcifer (cheio de luz) no seu lugar e ele não quis mais lhe dar o trono? E ai deus o transformou em diabo? Então vocês acreditam em papai noel, estórias da carochinha, mula sem cabeça etc. Leiam o livro XXXXX (Editora XXXX) e saibam a verdade sobre o Universo e sobre nós. Vocês podem pedir pelo site da Editora ou na Livraria Cultura e meus parabens!

    Pedro Cabral Cavalcanti – pcabralcavalcanti@gmail.com

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