Honestidade Evolutiva?

Marine iguanas (Amblyrhynchus cristatus) line up on each others’ backs on Genovesa Island, Galapagos, Ecuador
(Image: David Day /SplashdownDirect / Rex) retirada da própria página da New Scientist

Aproveito para comentar um artigo da New Scientist de 29 de Janeiro. Foi solicitado a vários biólogos midiáticos (Dawkins, Elaine Morgan, entre outros) que escrevessem quais as lacunas da teoria da evolução a serem preenchidas nos próximos 200 anos. Essa pérola foi escrita por Frans de Waals (primatologista da Universidade de Emory, Atlanta, EUA):

“Why do humans blush? We’re the only primate that does so in response to embarrassing situations (shame), or when caught in a lie (guilt), and one wonders why we needed such an obvious signal to communicate these self-conscious feelings. Blushing interferes with the unscrupulous manipulation of others. Were early humans subjected to selection pressures to keep them honest? What was its survival value?”

Vi a chamada no blog do Marcelo Leite, aliás com um comentário que tem a mesma linha de argumentação deste post. Essa pergunta não faz o menor sentido se entendermos que doenças (no caso da ruborização, apenas uma alteração da fisiologia normal) são respostas maladaptadas de reações normais do indivíduo. A ligação do rubor facial com emoções é mero uso inadequado da rede vascular facial, assim como o rubor causado pela ingestão de nifedipina (medicação para abaixar a pressão), o dos sintomas climatéricos (menopausa) e também o associado ao próprio frio. Não passou pela cabeça de ninguém que a ruborização facial poderia ter uma outra função e estar sendo utilizada de forma ilegítima por uma outra via, sem relação com comportamentos habituais sujeitos portanto, a uma pressão seletiva? A face está envolvida em reflexos hemodinâmicos complexos, via nervo trigêmio, como por exemplo, o reflexo do mergulho – um estímulo parassimpático fortemente bradicardizante causado pela imersão da face humana em água a 10ºC. Esse reflexo é tão poderoso que pode curar arritmias graves! Só funciona na face. Por quê? Quando todos os outros vasos se contraem no frio, os da face dilatam (ou permanecem inalterados) e nos deixam de bochechas vermelhas. Por quê? Esses vasos têm um comportamento peculiar que precisamos decifrar ou hominídeos foram submetidos a pressões seletivas que os obrigaram a não enfiar a cara em bacias de água fria?

Caberia aos biólogos evolucionistas (sim, porque médicos, ainda não há!) linkar fatos relevantes como se fez com a anemia falciforme, fibrose cística e a própria insuficiência cardíaca, entre outros, de modo a descobrir qual a implicação de cada resposta, contar sua história evolucionária e entender qual seria a resposta maladaptada para, no caso da Medicina, tratá-la. Isso sim seria muito interessante e, diria, necessário à Medicina atual, refém que está do paradigma do risco. Pensar numa “pressão seletiva para se manter honesto” é de dar dó. Depois, a gente fica chateado quando querem cortar nossas bolsas no exterior!!

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Discussão - 12 comentários

  1. Paula disse:

    hahahahha
    Vai saber, né?
    Vai que, no nosso passado remoto, os indivíduos que ficavam ruborizados atraiam mais parceiros sexuais? E, a característica que não tinha função nenhuma foi se perpetuando na espécie?
    Com essas coisas de atração sexual não se mexe! Vai entender os macacos…

  2. Roberta disse:

    Oi Karl,
    Muito interessante e importante sua colocação. Entretanto, gostaria de salientar que a pergunta do cara não reflete o conhecimento que existe dentro da biologia evolutiva. Essa questão do rubor é vista mais ou menos como você explicou. Existe um conceito chamado comportamento deslocado. São comportamentos que surgem em situações de estresse que parecem descontextualizadas.
    Vou tentar explicar (pois faz tempo que li sobre isso, posso estar esquecida). Fica mais fácil começar com outra espécie. Cachorros por exemplo, quando querem deitar simplesmente batem as patas no chão, não importa se o chão é de concreto ou de terra. Esse comportamento, em um ambiente natural, serve para preparar o terreno onde ele vai deitar. A mesma coisa quando defecam, eles sempre tentam enterrar, não importando o tipo de piso. Assim somos nós. O rubor é apenas um reflexo das mudanças fisiológicas que você citou que servem para preparar o indivíduo para um situação comum de estresse (que no “meio natural” seria por exemplo um predador ou um outro perigo qualquer do qual você precisaria correr) que em algumas situações se torna deslocada. A mentira é uma situação de estresse, pois cria no indivíduo o medo de ser descoberto. E esse medo desencadeia a resposta fisiológica. Por isso, para ser bom mentiroso, basta não sentir medo (como se fosse fácil hehehehehe).
    Bem, é isso. Confesso que nunca li nada sobre comportamentos deslocados dentro da biologia evolutiva, esse é um conceito mais etológico. Tambem não sei explicar a diferença entre as duas disciplinas, só sei que existe ^^

  3. maria disse:

    roberta, quais duas discipliplinas? biologia evolutiva e etologia? fiquei confusa.
    sua resposta é bem o que o karl sugeriu: o rubor seria um efeito colateral da adrenalina e o resto das alterações fisiológicas do momento de estresse em que se tem que fugir ou lutar. mentir dá medo. mas e a vergonha?

  4. Karl disse:

    Muit interessante, Roberta! O grande problema com a teoria do comportamento deslocado para explicar a ruborização facial é que teriamos que adaptá-la para uma “resposta-a-um-pensamento-deslocado”! A ruborização pode ocorrer devido apenas a um pensamento; e foi isso que chamou a atenção do primatologista e do Marcelo Leite. Não é um comportamento estereotipado como esses que vc descreveu; é uma evidência do inconsciente do indivíduo! Nesse sentido é que não há razão para procurar nele um fator selecionado como explicação de sua persistência.

  5. Igor Santos disse:

    Brilhante!

  6. Bruno disse:

    Karl, concordo que a explicação proposta por você para ruborização é plausível.
    Mas acredito que o que chamou atenção do Frans de Waals é o fato de que, tendo a nossa espécie um comportamento social altamente complexo, uma expressão tão óbvia do inconsciente da pessoa seria altamente deletéria.
    Ele acabou tentando jogar pelo outro lado e chutar que fosse adaptativo. Se não for adaptativo, e sim um “mero uso inadequado da rede vascular facial”, resta explicar como um uso inadequado com consequências aparentemente tão grandes numa espécie com nosso tipo de comportamento se mantém. Nesse caso, deve-se procurar o “uso correto” dessa rede vascular e verificar o quão vantajoso é esse uso para poder balancear sua desvantagem óbvia (seria interessante tentar medir também o quão desvantajoso realmente é mostrar aos outros que se tem vergonha).

  7. Karl disse:

    O problema é que quando esse “reflexo” estava sendo desenvolvido, não tinhamos o tal “comportamento social altamente complexo”, Bruno. O que significam ‘vergonha’ e ‘mentira’ para um hominídeo que anda nu e em bandos, na semianimalidade?
    Isso não provoca pressão seletiva!
    Tudo que eu queria como aprendiz de médico evolucionista é descobrir o ‘uso correto’ das coisas com as quais me defronto diariamente…
    Obrigado pelo comentário.

  8. Karl, não entendi seu post, parece que você confunde o nivel de explicação fisiologica com o nivel evolucionario: é como tentar explicar a linguagem (nao apenas a fala) descrevendo as cordas vocais…
    Em teoria de jogos evolucionarios, é importante detectar os cheatings a fim de formar comunidades e alianças de nao-cheatings (é essa a proposta de Lotufo no blog do Marcelo Leite). Nao vejo porque o ruborizar-se nao poderia ser uma exadaptacao para sinalizacao corporal de uma vascularizacao previa da face humana. Ou seja, se é uma exadaptacao, podemos nos perguntar qual é o seu sentido recente (100 mil anos para ca), e nao apenas em um passado distante (paleontologico).

  9. Karl disse:

    Caríssimo Osame,
    Como não confundir explicação ‘fisiológica’ com a história evolucionária da ‘função’? É tudo que tenho tentado fazer!
    No texto de Zenon do blog do Marcelo:
    “Em consequência, sinais que tornem um indivíduo mais confiável – como o ruborizar-se – porque dificultam que ele esconda seus pensamentos e sentimentos, ao mesmo tempo que pode prejudicá-lo em certas circunstâncias, pode também fazer dele(a) um(a) parceiro(a) mais desejável. Não sei até que ponto isso pode se aplicar aos homens, mas certamente se aplica às mulheres.”
    Você acha mesmo que um comportamento assim descrito pode realmente ter sido objeto de exadaptação? Deixe ver se entendi direito: os homo sapiens de, digamos, uns 100.000 anos atrás, encontraram em indivíduos ruborizáveis, parceiros muito mais confiáveis para se relacionar de modo que isso se constituiu em uma vantagem reprodutiva, perpetuando a característica do rubor facial em nossa sociedade moderna. É isso mesmo? A ruborização confere um tipo de certificado de “vergonha na cara” e fortalece laços matrimoniais?
    Não sei, não, Osame, mas isso me parece uma extrapolação bastante forte do conceito de exadaptação. É necessário contextualizar os conceitos de parceiro, confiabilidade, relacionamento e matrimônio e tentar entender o homem de 100 mil anos atrás para então supor que ele tivesse sido atraído por um comportamento assim. É possível? Claro que sim! Ockham dê seu veredito…
    Obrigado pelo comentário.

  10. Aline Massari disse:

    Se quiserem que eu seja cobaia podem me contactar, porque eu sou a maior blushing woman que eu já vi. Antes que eu faça a simpatectomia porque quem consegue viver em paz tendo um troço desse ?

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