Delirium e Afeto

73578533.jpgPhoto by Ian Waldie/Getty Images

Ela tinha para lá de oitenta. Estava restrita ao leito por contenções nos punhos e tornozelos. Esforçava-se para soltá-las, em vão. O escuro do quarto transformava o monitor com suas luzes coloridas, números e ondas balançantes em um abajur tristonho que iluminava de soslaio a face e os cabelos brancos desgrenhados. Entrei devagar e a chamei pelo nome que estava escrito na parede. Desorientada no tempo e no espaço, não entendia porque estava restrita, tendo beliscado enfermeiras, além de retirar cateteres e a própria monitorização, colocando sua vida em risco.

Ela não conversou comigo. Tomei sua mão como forma de interromper suas tentativas de retirar as faixas e ralhei com ela sobre suas “travessuras”. Surpreendentemente, ela começou a acariciar minha mão como se fosse a de um bebê. Com cuidado, solicitei à enfermeira que soltasse a outra mão e ela passou a fazer aquele tipo de carinho que se faz nos gatos. Olhei perplexo para a enfermeira. Não sabia o que fazer. Troquei de posição com a enfermeira e ela continuou a fazer carinhos. Pareciam movimentos automáticos das mãos em busca de um contato. Quando a deixamos sem nossas mãos, imediatamente ela começou a tirar os cabos dos eletrodos e o cateter nasal. Não tinha jeito. Prescrevi um comprimido de um neuroléptico e fui ver outro paciente.

Aquilo, entretanto, me deixou bastante perturbado. Uma paciente idosa, com quadro demencial grave contrai uma infecção que a deixa num estado de delirium. O delirium (escrito assim mesmo em latim para não confundir com delírio – desvio mórbido da razão) é um estado confusional acentuado, geralmente causado por uma doença clínica (infecção, distúrbios metabólicos, medicamentos, etc), onde o paciente apresenta enormes dificuldades com o pensamento coerente, além de uma diminuição do sensório. Muitas vezes, os pacientes ficam agressivos e recusam-se a receber cuidados. Sobra, em geral, muito pouco do humano neles. Lampejos; por vezes, um brilho de consciência no olhar; um nome a que chamam insistentemente. E só. Nada mais para fazer lembrar o que foram essas pessoas. Essa paciente entretanto, tinha deixado sobrar ‘afeto’.

Uma paciente que não sabe onde está, quem é, nem qual propósito de
estar ali; que não pode cuidar de si, nem alimentar-se sem auxílio; que
não formula nem profere uma frase sequer com sujeito, verbo e
predicado, poderia tecnicamente demonstrar afeto por outro ser humano?
Teria o afeto adentrado as camadas mais instintivas de seu intelecto?
Aqueles segmentos mais antigos do sistema nervoso dos mamíferos
responsáveis pelo que podemos chamar comportamentos automáticos como
esvaziar a bexiga ou procurar reproduzir-se, por exemplo? Nesse
momento, deixei-me levar por um delírio (para ficar bem clara a
diferença..)

Teria a paciente passado toda sua existência cuidando dos filhos e depois, dos netos, dedicado talvez, uma vida toda ao afeto de grandes e pequenos, de tal forma que esse comportamento tivesse sido incorporado aos seus instintos básicos de vida? Não, deve mesmo haver uma explicação bem mais neurofisiológica que dê conta desse fenômeno. Alguma área desreprimida, responsável por conexões neuronais que possam agir através de receptores do tato, em arcos-reflexo, movimentando músculos, de forma que movimentos automáticos possam de fato ser produzidos, sem que isso na verdade, signifique realmente um afeto. Sim, eu sei.

Deve mesmo haver. Mas minha explicação é muito mais poesia…

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Discussão - 1 comentário

  1. Seu texto lembrou-me isto:
    “Á beira de um abismo, onde o pé jamais logra equilíbrio, / E ameaçados por monstros, luzes fantasmagóricas, / Na perigosa fímbria do encantamento. Que não me falem / Da sabedoria dos velhos, mas antes de seu delírio, / De seu medo do medo e do frenesi, do medo de serem / possuídos, / De pertencerem a outro, ou a outros, ou a Deus.
    EAST COKER – T.S. Eliot
    Belo texto.

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