Artigo vs Artigo (ou Sobre a Metafísica da MBE)

Metrô de SP by Fabio Ornellas at Flickr

Contra um artigo, somente outro artigo!

Toda análise ou artigo que se preze atualmente vem com um final mais ou menos assim: ainda não existem estudos suficientes para justificar determinada conduta; ou estudos específicos são necessários para responder essa questão, etc…

Um vício induzido pela MBE é o de que não há artigo perfeito. Por isso, devemos criticá-los e criticá-los até descobrir todos os seus defeitos e saber, só então, se suas conclusões são aplicáveis na prática ou não. Ou ao menos, aplicá-las com mais parcimônia. Na verdade, comparamos o artigo com um modelo idealizado de estudo que foi ficando, através dos anos, cada vez mais rigoroso e, porque não dizer, divino, posto que não é, de fato, deste mundo. É sintomático analisarmos “evidências” antigas e torcermos o nariz com estudos mal-desenhados, confusos e “fracos”. Nada mais metafísico!

Se tomarmos o exemplo da crítica literária na qual não existe a figura da verdade, resta aos críticos apenas comparar um livro contra o outro. Contextualizar e intertextualizar um romance é a melhor forma de compará-lo a outras obras e mostrar no que ele é diferente. Ver no que um cientista se inspira nos outros artigos e porque os autores resolveram aplicar tantos recursos e tanto tempo na abordagem de uma pergunta, denota o que Harold Bloom – um crítico literário – chamou de “angústia da influência“, presente na poesia e que, temo, esteja presente também na ciência.

Metanálises procuram responder perguntas, como se as perguntas tivessem uma única resposta. A conclusão é inevitável: é impossível responder a essa questão com as evidências que temos hoje! Muito melhor seria a comparação de vários pontos de vista de modo que o leitor pudesse ter sua própria perspectiva do problema. Mas isso ia causar muito mais insegurança do que temos hoje. Por que ia fazer da prática um ato pensante e desconfortável. Sabedoria prática não depende de erudição teórica, depende de julgamento. Como o ato moral.

Ah! – dizem meus amigos – mas isso já não é mais medicina, isso é filosofia! Ninguém trata pacientes com filosofia. E o ciclo se fecha. A medicina não se pensa. E eu concordo que tratar pacientes com filosofia não é mesmo possível. Mas cuidar deles é sim.

Discussão - 2 comentários

  1. Rogerio disse:

    Medicina é ciência e arte, muitas vezes nos deparamos com a tênue fronteira entre ciência e arte. Onde acaba o que é feito com ciência ou pelo menos com racional fisiopatológico e começa a arte, o improviso, o que é feito baseado em experiência pessoal ou outros sentimentos. Muitas vezes a arte foi salvadora de vidas, outras (creio que supera a anterior) foi causa de complicações e até de mortes evitáveis.
    Quando tomamos Filosofia pelo seu significado mais arcaico(amor ao saber), as decisões que são tomadas racionalmente, analisadas filosoficamente, quando a ciência não tem mais a resposta,e baseadas em pensamentos corretos (não pelo medo, por exemplo) têm grande chance de surtirem efeito positivo.
    Que a filosofia seja o próximo passo na substituição da falta de evidências.

  2. Karl, ótimo post. Cada vez mais acredito que esse “Karl” é uma alcunha inspirada no Jaspers – médico e filósofo, amigo do Husserl e da Hannah Arendt.

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